Trovão
Trovão
Cândida Albernaz
Foi lá, no meio daquela terra que cresci. Meu pai trabalhava na roça e mãe com ele. Mal sabiam ler, mas fizeram questão que nós aprendêssemos. Então bem cedo, antes do sol começar a clarear o céu, a gente saía na carroça puxada por Trovão, um cavalo já velho, mas que ainda era forte. Seu Antônio, o dono daquelas terras, prometeu que daria outro para a gente. Dois anos depois e ainda esperávamos. Era assim mesmo. Ali tudo tinha um tempo próprio, mais lento que o resto do mundo. Pelo menos era o que nossa professora afirmava e eu acreditava.
A melhor parte do dia era quando na volta da escola encontrava Trovão sem serviço. Montava em seu pelo e andava por aqueles matos. Ele ameaçava um galope, mas logo desistia. Estava cansado e não aguentava. Não havia problema, mesmo assim eu gostava.
Quando chegava o fim da tarde, mãe e pai retornando, jantávamos uma sopa que minha irmã mais velha, que chamávamos de Tia Mana, preparava. Ela tinha catorze anos e tomava conta de todos nós. Cuidou dos irmãos desde sempre. Antes da refeição papai fazia questão de uma oração para agradecer pelo que conseguíamos colocar na mesa. Nunca era muito, mas o bastante para crescermos com saúde. Mantenho o mesmo hábito.
Passados alguns anos, minha irmã casou-se e teve três filhos. Nossos outros dois irmãos conseguiram um pedaço de terra onde plantavam e tiravam seu sustento.
Fui o único que se lançou para a cidade grande e estudou até completar a faculdade.
Seu Antônio me ajudou pedindo a um primo lugar para eu morar, em troca de trabalhar na área externa da residência dele. Limpava a piscina e tratava dos cães também. Costumava virar a noite estudando e quase não via minha família. Soube um dia que Trovão havia morrido. Apesar de homem feito, chorei como criança. Acho que tinha esperança de que ele fosse para sempre.
Meus pais estão velhos agora, mas continuam morando na mesma casa. Tia Mana ajuda a cuidar deles. Contou na última carta que me escreveu que têm perguntado muito por mim. Faz mais de três anos que não os vejo. Prometi que no próximo mês estarei com eles.
Sou advogado e meu tempo é curto. Trabalho muito e ganho bem. Já enviei para eles o suficiente para que reformassem a velha casa e tivessem algum conforto. Tia Mana me informou que gastaram pouco do que mandei. E me passou a resposta de papai:
- Não precisamos de muito mais do que temos. Guarda isso para os filhos de vocês.
Entre as poucas modificações que eu soube terem eles feito, foi comprar um colchão novo porque mamãe reclamava de dor nas costas. Ele continua dormindo na rede dentro do quarto.
Meus filhos, que ainda são crianças, gostarão de rever os avós e os poucos animais que eles possuem.
* * *
A estrada ainda não é das melhores, os meninos dormem no banco detrás enquanto a mãe deles lê ao meu lado.
Abaixei o vidro e deixei que o vento entrasse no interior do carro. O cheiro da terra nunca esquecido entranhou no nariz arrastando lembranças.
Diante da entrada, noto que já não é mais uma cancela, um portão de ferro com dois pilares brancos e uma pinha amarela sobre cada um deles que divide a propriedade de seu Antônio com a estrada percorrida. Soube que está muito doente e que os filhos assumiram a fazenda. Recordo-me dele como um homem ativo e forte.
Chegamos à cerca viva que protege nossa casa. É engraçado ainda pensar nela como “nossa”. Papai em pé na varanda nos esperava. Lá dentro uma mesa de lanche estava arrumada. A toalha puída eu reconheci. O perfume do bolo de fubá envolvia o ambiente e senti a boca cheia de água.
Levaram-nos até o quarto que estava reformado, com cama nova para os netos e um ventilador de teto. Todo o resto da casa permanecia da mesma forma.
Meu pai na porta fez um sinal para que o seguisse. Caminhando atrás dele, não o reconheci no corpo encurvado de um homem agora com aparência frágil.
Meu irmão mais novo chegou puxando um cavalo.
Fiquei surpreso.
- Trovão?
Papai sorriu com os olhos.
Não, não podia ser Trovão.
- Ainda é capaz de montar em pelo?
Eu tinha certeza que sim apesar dos anos que se passaram.
Fitei-o e agradeci com a alma.
Montei devagar, ao passo, em seguida o trote e o galope veio sem perceber. Esse não cansaria rápido. E nem eu.
Éramos eu e Trovão novamente.