Eu
candida 16/10/2014 17:04
Eu Cândida Albernaz Sinto me perder a cada vez que sua imagem volta à mente. Sei o mal que fiz. Se não era para fazê-la ficar, devia ter demonstrado desde o início. A dissimulação faz parte de mim como uma marca de nascença. Não há o que fazer. Não consigo ser melhor nem pior e não espere de mim o que nunca vou poder lhe dar. Até  gostaria, mas assim sou eu e você não fugiu quando descobriu. Apenas fingiu aceitar. Fingiu sim, porque tenho certeza, pensou poder me modificar. Impossível. Mudança é para quem deseja e estou satisfeito comigo. Nunca almejei ser mais do que sou. Sei o que pensa, já o disse várias vezes: dissimulado egoísta frio. Gosto assim. É cômodo para mim e não há nada que preze mais do que meu bem estar. Quando sugeri que fizesse o segundo aborto, vi tristeza em seu rosto. Notei, claro que notei, mas impus como condição. Obedeceu, como sempre. Recordo-me da hora que chegou a casa. Chorava em silêncio e penso ter visto ódio em seus olhos. Só não sei se por mim ou por si mesma. Saí de perto e fui caminhar na praça em frente ao apartamento. Andando esperava colocar os pensamentos no lugar. Avisei a você quando a conheci. Nada de filhos. Não quero descendentes, não quero mais preocupação. Não mudei de opinião nem vou. Se me deixar, pensei naquele momento, não saberei como continuar a viver sem sofrer, mas não altero nada do que penso por medo. Aliás, não tenho medo, tenho? Voltei para casa e você dormia. No chão ao lado da cama, uma foto amassada. Peguei-a. Ríamos para alguém que passava e pedimos para nos fotografar. Tinha sido uma tarde e tanto. Foi numa praia perto daqui. Almoçamos num restaurante pequeno de frente para o mar, bebemos um vinho e o riso vinha fácil. Seu rosto em contraste com o sol trazia um brilho que me fazia sentir um amor enorme. Eu a amei naquele momento como em nenhum outro. Amo ainda. Depois vieram os dias de melancolia e decepção, como àquele em que me viu na rua dividindo um sorvete com uma garota. Não me escondi. Olhei para você quando passou e a cumprimentei. Meus braços permaneceram em volta da cintura dela. Virei ainda uma vez e vi que estava parada no mesmo lugar. Incredulidade, seu rosto transmitia. Não tive culpa. Não senti culpa nem quando voltei dois dias depois e a encontrei sentada no sofá com a mesma roupa. Fixava a parede sem piscar. O apartamento estava revirado, jarra e cinzeiro quebrados, cartas amassadas e jogadas no chão e objetos fora de lugar. Segurei-a pelo braço levantando-a, e como se fosse uma criança, tirei sua roupa e dei-lhe banho. Deixou-se levar. No chuveiro passei sabonete em seu corpo, beijando cada pedaço dele. Dormimos abraçados. Não perguntou nada. Não expliquei nada. Essa não foi a única vez em que me viu com alguém. Percebi que mudava aos poucos. Deixei-a quieta para que resolvesse seus problemas. Não queria me meter, da mesma forma que não aceitava que opinasse sobre os meus. Hoje tenho a convicção de que não poderia ter dividido uma vida com você, porque simplesmente não sei como se faz isso. Quando cheguei a casa e vi as malas ao lado da porta, sabia que era para sempre. Não pedi que ficasse. Você não ficaria. Olhou-me com olhos tranquilos e colocou a chave na minha mão. Não disse nada. Não havia mais nada para dizer. Notei que estava forte, parecia a garota que conheci. Não a esqueço e não a procuro. Apesar de tudo, sei que não merece que eu tente de novo. Sinto às vezes o peito doer como se algum pedaço faltasse. O telefone toca e saio daquele estado de apatia. - Oi. Já estou descendo. A garota do outro lado da linha tem a voz alegre. Conheci ontem.  

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

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