Eu
Eu
Cândida Albernaz
Sinto me perder a cada vez que sua imagem volta à mente. Sei o mal que fiz. Se não era para fazê-la ficar, devia ter demonstrado desde o início.
A dissimulação faz parte de mim como uma marca de nascença. Não há o que fazer. Não consigo ser melhor nem pior e não espere de mim o que nunca vou poder lhe dar. Até gostaria, mas assim sou eu e você não fugiu quando descobriu. Apenas fingiu aceitar. Fingiu sim, porque tenho certeza, pensou poder me modificar. Impossível. Mudança é para quem deseja e estou satisfeito comigo. Nunca almejei ser mais do que sou. Sei o que pensa, já o disse várias vezes: dissimulado egoísta frio. Gosto assim. É cômodo para mim e não há nada que preze mais do que meu bem estar.
Quando sugeri que fizesse o segundo aborto, vi tristeza em seu rosto. Notei, claro que notei, mas impus como condição. Obedeceu, como sempre. Recordo-me da hora que chegou a casa. Chorava em silêncio e penso ter visto ódio em seus olhos. Só não sei se por mim ou por si mesma. Saí de perto e fui caminhar na praça em frente ao apartamento. Andando esperava colocar os pensamentos no lugar. Avisei a você quando a conheci. Nada de filhos. Não quero descendentes, não quero mais preocupação. Não mudei de opinião nem vou.
Se me deixar, pensei naquele momento, não saberei como continuar a viver sem sofrer, mas não altero nada do que penso por medo. Aliás, não tenho medo, tenho?
Voltei para casa e você dormia. No chão ao lado da cama, uma foto amassada. Peguei-a. Ríamos para alguém que passava e pedimos para nos fotografar. Tinha sido uma tarde e tanto. Foi numa praia perto daqui. Almoçamos num restaurante pequeno de frente para o mar, bebemos um vinho e o riso vinha fácil. Seu rosto em contraste com o sol trazia um brilho que me fazia sentir um amor enorme. Eu a amei naquele momento como em nenhum outro. Amo ainda.
Depois vieram os dias de melancolia e decepção, como àquele em que me viu na rua dividindo um sorvete com uma garota. Não me escondi. Olhei para você quando passou e a cumprimentei. Meus braços permaneceram em volta da cintura dela. Virei ainda uma vez e vi que estava parada no mesmo lugar. Incredulidade, seu rosto transmitia. Não tive culpa. Não senti culpa nem quando voltei dois dias depois e a encontrei sentada no sofá com a mesma roupa. Fixava a parede sem piscar.
O apartamento estava revirado, jarra e cinzeiro quebrados, cartas amassadas e jogadas no chão e objetos fora de lugar. Segurei-a pelo braço levantando-a, e como se fosse uma criança, tirei sua roupa e dei-lhe banho. Deixou-se levar. No chuveiro passei sabonete em seu corpo, beijando cada pedaço dele. Dormimos abraçados. Não perguntou nada. Não expliquei nada.
Essa não foi a única vez em que me viu com alguém.
Percebi que mudava aos poucos. Deixei-a quieta para que resolvesse seus problemas. Não queria me meter, da mesma forma que não aceitava que opinasse sobre os meus.
Hoje tenho a convicção de que não poderia ter dividido uma vida com você, porque simplesmente não sei como se faz isso.
Quando cheguei a casa e vi as malas ao lado da porta, sabia que era para sempre. Não pedi que ficasse. Você não ficaria. Olhou-me com olhos tranquilos e colocou a chave na minha mão. Não disse nada. Não havia mais nada para dizer. Notei que estava forte, parecia a garota que conheci.
Não a esqueço e não a procuro. Apesar de tudo, sei que não merece que eu tente de novo. Sinto às vezes o peito doer como se algum pedaço faltasse.
O telefone toca e saio daquele estado de apatia.
- Oi. Já estou descendo.
A garota do outro lado da linha tem a voz alegre. Conheci ontem.