O vento traz a música
candida 21/08/2014 09:17
O vento traz a música Cândida Albernaz “Tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu…”. A canção de Chico estava tocando em algum lugar ali perto. Só pode ser no bar de Zico, que ele gosta de  mpb. Costumo deixar a janela entreaberta e sento no escuro ouvindo a música que vem de lá. Bom gosto musical ele tem. Gosto igual ao meu, quero dizer. Desde o dia em que Carlão foi embora, dizendo que não ia demorar a vir me buscar junto com as crianças, costumo ouvir o som que vem da rua. E isso já faz uns dois anos. Como o único rádio que tenho está quebrado, roubo para escutar, a que vem do bar. Houve uma época em que Zico tentou se bandear para o meu lado. Disse que queria cuidar de mim e das meninas. Quero não, bem preciso, mas não quero. Homem diferente do pai ao lado delas, não dá. São muitas histórias que a gente ouve por aí. Dulce acreditou num sujeito que chegou mansinho para cima dela, cheio de carinhos, dizendo que nunca mais ela e os filhos iam passar necessidade. Qual! Em menos de um ano ele estava desempregado. Ficava o dia inteiro em casa vendo televisão ou deitado, enquanto ela se matava no serviço de faxina. Um dia, o filho veio falar que viu o infeliz dando um beijinho na boca da irmã e dizendo que era o papai dela. Dulce não pensou duas vezes. Entrou no quarto, que o malandro gostava era de dormir, e tirou ele dali à vassourada. Esse nunca mais apareceu. Ela teve sorte porque o filho viu logo no início, tem umas que só depois do fato acontecido é que vêm saber. Aí a menina fica com a vida estragada, que isso não tem conserto. Eu poderia até namorar uns e outros por aí sem botar dentro de casa, mas não tenho vontade. Mesmo sem notícias, ainda espero que Carlão apareça com um sorrisão na cara, dizendo que veio buscar a gente. As meninas, tenho duas, viviam perguntando pelo pai. Agora deram um tempo. Fico triste quando querem saber dele e tenho que inventar algo. Acho que elas perceberam e demoram mais a tocar no assunto. Consegui um emprego de arrumadeira num hotel no centro, foi Dulce quem me falou que estavam precisando. Estou lá há um ano e meio. Tenho carteira assinada e eles pagam plano de saúde para os funcionários. Isso ajuda muito. Nem ganho tanto assim, mas só em poder levar minhas filhas ao médico sem precisar gastar já é um alívio. Minha pequena vive com gripe, tem a saúde frágil. O médico falou que ela precisa pegar sol, de vitaminas e frutas. Faço o máximo que posso, como ele manda, mas ela fica doente assim mesmo. Tem muito pesadelo, a pobrezinha, está sempre sonhando que o pai morreu e não vai mais voltar. Abraço com ela e explico que é só um sonho, que ele volta um dia com o braço carregado de presentes para as duas e aí vamos todos embora dali para morar junto dele. Consigo até que dê risada no final, com as histórias que invento. Depois que ela dorme, quem não pega no sono sou eu. “Oh, pedaço de mim. Oh, metade afastada de mim. Leva o teu olhar que a saudade é o pior tormento…” A música agora é outra. Tão bom ficar aqui à noite ouvindo o vento trazer o som. Fico quietinha. Às vezes choro, porque tem melodia que mexe com a gente. Deixa esse negócio de tristeza para lá, que amanhã pego cedo no batente, e antes tenho que deixar as meninas na escola. Vou tentar dormir. Batendo na porta a essa hora? Será que Dulce está precisando de alguma coisa? Nós somos amigas e uma ajuda a outra. Não é Dulce quem está parada ali. Quase não o reconheço. Tão magro o meu homem. Ele não me olha, parece que perdeu qualquer coisa no chão. - As meninas? - Estão dormindo. - Demorei… - Mas está aqui e é o que importa. - Não posso fazer o que prometi. Não consegui um emprego bom e não juntei dinheiro também. - Estou trabalhando e logo você consegue um serviço. Sempre foi homem inteligente. - Burro muito burro. Puxo Carlão para dentro de casa, coloco sentado na cadeira e vou para a cozinha esquentar o que sobrou do jantar. Ainda bem que hoje sobrou algo. O barulho da tampa da panela que mexo, do prato e do garfo que coloco na mesa… Há quanto tempo não esquentava o jantar para Carlão. Olho para ele, que está de costas. Uma lágrima escorre no meu rosto, não me preocupo em secar. Essa é diferente das outras, essa é de felicidade.  

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

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