Refazer
Refazer
Cândida Albernaz
Vi a chuva inundar nossa casa e levar com ela o pouco que tínhamos. E não foi uma vez. Algumas vezes. Não havia escolha. Refazer vidas foi o que fizemos em todas elas.
A terra ainda está úmida por conta do último temporal. Aqui é assim. Ou não chove nunca ou chove até.
Cismei em fazer um jardim. Estava lindo com flores coloridas: roxas, amarelas, rosas, vermelhas. Não sobrou nenhuma.
Por muitas vezes tivemos que sair e ficar no meu avô. Mamãe chorava feito criança. Não acontecia todos os anos. Quando tinha dezessete foi a última das quatro que presenciei.
A água vinha chegando e entrando sem bater na porta. Cobria o sofá, a mesa, e nossas recordações. Nem sempre conseguíamos retirar muito. O essencial já era bastante.
Na primeira, mãe contou que nem as fotos do casamento dela e do pai sobraram. Se antes quando ele era vivo não nos mudamos, depois que morreu então é que ficamos para sempre.
Nossa vizinha, Tiazica, madrinha do meu irmão foi embora. Não aguentou. Era a melhor amiga da minha mãe. No dia da mudança, as duas se abraçaram forte, cheias de lágrimas escorrendo rosto abaixo e prometeram se encontrar sempre. Falavam do coração para fora, porque sabiam que seria difícil. A vida vai empurrando a gente do jeito que quer e quando percebemos, mal temos comando sobre ela.
Soube que Tiazica está doente. Estou esperando o momento certo para contar para a amiga dela. Não sei o que está havendo, mas mamãe deu para ficar chorosa pelos cantos, recordando o que passou e o tempo que perdeu. Falei para que se lembrasse do tanto que já lutou para nos educar e manter a casa em pé. Tem dois netos e uma nora de boa paz, que nunca reclama do seu lado enxerido na vida dos dois. Quase uma santa. Ou sonsa. Deixa para lá.
Eu não casei e não caso. Minha paciência é quase nenhuma para homem. Eles chegam com beijos e terminam com tapas. Não são todos, é claro. Mas os que não batem se metem em tudo, gostam de dar ordens, bebem demais, acham que filho é para mulher cuidar... Ufa! Fico exausta só por pensar. Tem um e outro que até salva, mas na minha mão só caíram os piores. Devo ter dedo podre para escolher como diz mamãe.
Gosto dos sobrinhos, do trabalho, de nossa casa também. Principalmente agora que não enche com a chuva. Podiam ter resolvido esse problema antes, mas não fizeram. Tinham coisas mais importantes para resolver. O que significava aquele bando de gente pobre perdendo o pouco que tinha? Aceitar pode ser muito difícil, mas às vezes é só o que sobra.
Moro com mamãe. Ela nem tem muita idade, mas o cabelo está todo branco e as pernas cansadas. Os ossos doem e já não obedecem a sua vontade. Perdeu a saúde cedo. Tanto trabalho teve para consertar a alma. Tínhamos mais um irmão. Numa dessas enchentes ele se foi feito peixe. A água o arrastou quando ele brincava na chuva. Havia se afastado de casa com uns amigos dizendo que iam fazer um barco para navegar. Enquanto pegavam madeiras, a tempestade caía. Fora perto demais do rio. Não sei o que deu nele para fazer algo tão perigoso. Acho que foi essa danada da vida comandando nossas vidas.
Durante o velório, mãe permaneceu de olhos fechados todo o tempo. Só abriu para dar um beijo de despedida em sua testa. Triste ver a dor que ela sentia. Triste sentir a dor que eu sentia.
De lá para cá se entregou. Ele era temporão e o xodó de todos.
Hoje vou conversar com ela sobre o tanto que Tiazica está mal. Viram-se poucas vezes depois que ela se mudou. Mãe saía de casa para o serviço e do serviço para casa. Mais nada. No fundo acho que ficou magoada porque a amiga a deixou, indo para o outro extremo da cidade.
Antes disso, vou aproveitar que o sol chegou e com ele a terra está mais enxuta. Verei o que ainda posso replantar.
Talvez um novo jardim. Mais um refazer.