Não pensar, não lembrar: adormecer
candida 25/09/2014 15:11
Não pensar, não lembrar: adormecer. Cândida Albernaz Falar, falar, falar… e não precisar pensar, porque pensar às vezes dói como uma lâmina cortando fundo e fino. O bar está cheio e o som das vozes se mistura com a música que o cantor desconhecido canta, na esperança de que alguém o escute. A maioria veio para beber e rir de tudo e nada, assim como eu. O grupo de amigos à minha volta presta atenção numa piada que Mário conta com uma interpretação irrepreensível: qualquer coisa sobre argentinos e brasileiros, onde é claro, o argentino se ferra. Todos rimos. Olho para Henrique, os olhos parados fixos em um ponto que só ele vê. Deveria puxar conversa e escutá-lo, mas não preciso de mais problemas, bastam os meus. A mulher de Henrique saiu de casa há dois meses. Tentou explicar-lhe que não teve como evitar a paixão repentina pelo aluno quinze anos mais novo. Que poderia ser a última chance para viver esse sentimento. Que não era mais criança e suas rugas não importavam ao rapaz e que a juventude dele fazia com que se sentisse jovem também. Que precisava compreendê-la, desculpá-la, e quem sabe arrumar uma garota? Ele? E o hábito de tantos anos ao lado da mesma mulher, agora não sabendo o que fazer de si mesmo? Não penso, não lembro, não sofro: durmo. Em casa, evito acender as luzes, não resolveria: vou tropeçar nos móveis de qualquer forma. Bebi demais e a cabeça gira como tudo à volta. Tomo um banho e na cama, massageio os pés com as pontas dos dedos: mania, todas as noites faço assim. Antes de deitar, ligo a televisão e quando não aguento mais manter os olhos abertos, durmo. Pela manhã prometo que não vou mais deixá-la ligada por toda a noite. Os hábitos me ajudam a sobreviver: vêm de forma mecânica, sem que precise fazer esforço. Há meses tento não sentir a ausência, principalmente de Vítor. Até suas repreensões e olhares de raiva me fazem falta. Procuro chegar a casa o mais tarde possível, porque assim, com o corpo exausto e o excesso de bebida, não há como não dormir. Se houver sonhos, não importa, não me lembro deles mesmo. Por mais que faça, algo me persegue: culpa. Um ano depois a culpa transpassa meu corpo como uma lança. Não chovia, não era noite. Estávamos os três saindo de casa e você insistiu para que eu não dirigisse. Teimosa como sempre, não abri mão. Sentei ao volante e por mais que tentasse, gritei que se não quisesse ir, podia ficar em casa. Iríamos eu e nosso filho Vítor, para a praia, como havíamos combinado no dia anterior. Sabia que não deixaria que fosse sozinha com ele, o problema seria a volta, depois que já tivesse bebido o suficiente para me divertir. Juro que procurei fazer direito. Sabia que você estava cansado de mim e pensava estar tentando o melhor possível. Quando na curva, virei para trás e brinquei com Vítor, estava na verdade querendo que você visse o quanto podia ser amiga e amorosa com ele. Foi o suficiente para que perdesse a direção e o carro saísse da estrada. Nosso menino foi jogado longe, batendo com a cabeça no asfalto: não resistiu. Você foi embora de casa: não resistiu. Eu tento sobreviver: não sei se vou resistir. Não queria pensar, pois pensar às vezes dói como uma lâmina cortando fundo e fino…  

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

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