Preciso melhorar de vida
candida 04/09/2014 15:57
Preciso melhorar de vida Cândida Albernaz Estou de saco cheio dessa vida. Todo dia a mesma história. Ontem Genilson veio falar comigo outra vez. Sabia o que ele queria e topei. Minha mulher não precisa ficar por dentro porque senão vai falar sem parar e me fazer desistir. Ultimamente vive reclamando que não fico em emprego e que não aguenta mais passar necessidade. Outro dia, Toninho não pôde ir à escola porque o único tênis que tinha soltou a sola inteira além do enorme rasgado na parte de cima. Mandei colocar uma sandália e não tinha nenhuma. Descalço não entrava. Está uma merda essa vida de não ter o que comer direito e a casa caindo aos pedaços. O pai de Cerlene deixou para ela quando morreu. Comprou quando ainda era jovem e tinha um emprego razoável. Nunca fiz uma reforma, porque nunca tive dinheiro sobrando. Estudei pouco, mas graças a Deus sei ler e fazer contas: ninguém me passa para trás. Cerlene sabe mais do que eu porque a mãe fez questão que terminasse o segundo grau. Aí me conheceu, ficou grávida e eu que não sou homem de fugir de responsabilidade, casamos. Claro que tivemos que morar com o sogro. Gente boa me tratava bem. Só tinha uma coisa esquisita; exigia que fosse à igreja com ele toda semana. Era religioso e nem eu escapava. O único problema que tínhamos, era porque vez ou outra eu ficava desempregado. Explicava a ele que não tinha culpa, que esses patrões são muito folgados, que eu trabalhava direitinho, que chegava sempre na hora... Só não conseguia e não consigo levar desaforo para casa e quando vinham chamar minha atenção, dependendo do jeito que falavam eu sentava a mão. Sou brigão na rua, mas com minha mulher é só carinho e dengo. Ela também é melosa para o meu lado. O motivo de a gente brigar é o mesmo do pai dela comigo. Cuida dos nossos filhos, temos dois, com muito amor. Tive sorte em encontrar a Cerlene. Nem gostava tanto dela no início, mas hoje, não vivo sem. Se ela souber que Genilson está rodeando por estas bandas vai ficar zangada. Sempre falou que se orgulhava por eu não me meter com esses caras da área. Agora está difícil. Vai fazer um ano não arrumo nada. O salário de doméstica que ela recebe não dá. Tem trazido roupa para lavar e passar em casa tentando ganhar um extra. Está exausta. O posto de gasolina que nós estamos de olho tem um movimento bom e já sabemos como tudo funciona. Genilson trabalhou lá por uns tempos. Vai ser rápido e não vamos machucar ninguém. Combinamos de usar arma de brinquedo, nunca coloquei a mão numa de verdade. Será na semana que vem.   *                          *                          *   Rendemos os três funcionários e enquanto Genilson está com eles recolhendo a grana, eu vigio. Estou suando muito e o coração parece que vai explodir. Olho para trás algumas vezes e mando andar rápido. Quando já estamos saindo, um idiota atira. Tinha uma arma de verdade na droga do posto. Meu parceiro vira e atira também. Pontaria certeira, o cara cai. Olho para ele e grito que não foi o que combinamos, berra de volta um “seu babaca” e sai correndo. Outro tiro sai lá de dentro, Genilson cai e a mochila que carregava solta de sua mão. Volto para tentar pegar. Mais um tiro. Os filhos da puta me acertaram. O peito parece ter levado um soco violento. Ouço novo barulho e um baque no corpo, não sei onde fui atingido agora. Sinto um líquido grosso encher a garganta me impedindo de respirar. Ainda passa nos meus olhos a imagem de Toninho com o tênis novo, que prometi comprar para ele e para o irmão.

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

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