Eu
21/01/2017 | 18h53
Eu
Cândida Albernaz
Sinto me perder a cada vez que sua imagem volta à minha mente. Sei o mal que fiz. Se não era para fazê-la ficar, deveria ter demonstrado desde o início.
A dissimulação faz parte de mim como uma marca de nascença. Não há o que fazer. Não consigo ser melhor ou pior e não espere de mim o que nunca vou poder lhe dar. Até gostaria, mas assim sou eu e você não fugiu quando descobriu. Apenas fingiu aceitar. Fingiu sim, porque tenho certeza, pensou me modificar. Impossível. Mudança é para quem deseja e estou satisfeito comigo. Nunca almejei ser mais do que sou. Sei o que pensa, já o disse várias vezes: dissimulado, egoísta, frio. Gosto assim. É cômodo e não existe algo que preze mais do que meu bem estar.
Quando sugeri que fizesse o segundo aborto, vi que me olhou com tristeza. Notei, claro que notei, mas impus como condição. Obedeceu como sempre. Lembro-me da hora que chegou a casa. Chorava em silêncio e vi ódio em seus olhos. Não sei se por mim ou por si mesma. Saí de perto e fui caminhar na praça em frente ao apartamento. Andando, queria colocar os pensamentos no lugar. Avisei a você quando a conheci. Nada de filhos. Não quero descendentes, nem preocupação. Aceitou, ou pensou ganhar tempo. Não mudei de opinião e nem vou.
Se me deixar, imaginei naquele momento, não saberei como continuar a viver sem sofrer, mas não modifico qualquer decisão por medo. Aliás, não tenho medo, tenho?
Voltei para casa e você dormia. No chão ao lado da cama, uma foto amassada. Peguei-a. Ríamos para alguém que passara e pedimos para nos fotografar. Havia sido uma tarde e tanto numa praia perto daqui. Almoçamos num pequeno restaurante de frente para o mar, bebemos um vinho e o riso saia fácil. Seu rosto em contraste com o sol trazia um brilho que me inundava de um amor enorme. Eu a amei naquele momento como em nenhum outro. Ainda amo.
Depois vieram dias de melancolia e decepção, como àquele em que me viu na rua dividindo sorvete com uma garota. Não escondi. Olhei-a quando passou e a cumprimentei. Com os braços em volta da cintura dela, continuei a tomar o sorvete. Virei-me uma vez e notei que estava parada no mesmo lugar. Incredulidade, seu rosto transmitia. Não tive culpa. Não era para ver.
Não me senti culpado nem quando voltei para casa dois dias depois e a encontrei sentada no sofá com a mesma roupa que usava. Os olhos fixos na parede, sem piscar. O apartamento revirado, jarra e cinzeiros quebrados, cartas amassadas e jogadas no chão e objetos fora do lugar. Segurei seu braço e levantando-a como se fosse uma criança, deixei-a nua e dei-lhe banho. Consentiu que a lavasse. No chuveiro, esfreguei o sabonete em seu corpo e beijei cada pedaço dele. Transamos e dormimos abraçados. Não perguntou nada. Não expliquei nada.
Essa não foi a única vez que me viu com alguém. Houve outras. Várias. Nunca pedia desculpas ou tocava no assunto.
Compreendi que mudava aos poucos. Deixava que ficasse quieta para que resolvesse seus problemas. Não queria me meter, da mesma forma que não admitia que opinasse sobre os meus.
Hoje reconheço que não poderia ter dividido uma vida com você, porque simplesmente não sei como se faz isso.
Quando cheguei a casa e vi as malas ao lado da porta, sabia que era para sempre. Não pedi que ficasse porque você não ficaria. Olhou-me com olhos tranquilos e colocou a chave na minha mão. Não mencionou uma palavra. Não havia o que dizer. Entendi que estava forte, era novamente a garota que conheci. Não a esqueço e não a procuro. Sei que não merece que eu tente de novo. Às vezes sinto o peito doer como se algum pedaço faltasse.
O telefone toca e saio daquele estado de apatia.
- Oi! Estou descendo.
A garota na linha tem a voz alegre. Conheci ontem.
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Frases nem tão soltas
21/01/2017 | 18h53
Frases nem tão soltas
Cândida Albernaz
O que mais nos machuca não deixa marcas visíveis. Porque estas não são para ver, são para sentir.
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Quando olho para a folha em branco e as letras brincam de se esconder, penso em fugir. Para algum lugar onde observando o nada, balõezinhos surjam com toda a história dentro deles.
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Algumas vezes carregamos pedras e outras, flores. Há momentos que flores podem parecer pesar como pedras.
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Nunca pense que eu sou forte, qualquer sopro de criança me joga longe.
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Anseio por serenidade como quem precisa de ar.
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Não gosto de dúvidas. Qualquer dúvida em minha mente transforma-se em um gigantesco dragão que faz meu peito queimar.
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Detesto a felicidade quando num piscar de olhos ela muda de humor.
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Resolvi acreditar em mim. Sou forte. Não tenho escolha, só posso ser forte.
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Sem o sonho somos apenas a metade do que poderíamos ser.
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A vida me leva por caminhos que penso ter escolhido, mas na verdade a decisão é dela, me guiando em passos que jamais imaginei percorrer.
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Existem pessoas que possuem braços como polvos e quando menos esperamos estão prestes a nos sufocar.
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Quando a noite chega, ela se disfarça em bailarina, para que assim, entre um sono e outro possa saltar com leveza e não acordar seu dormir tranquilo.
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Muitas vezes preciso ficar quieta com os medos que absorvo. No silêncio finjo que não existem e sigo enganando-os, rindo de mim.
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Como é aconchegante ver nosso sorriso refletido nos olhos do outro.
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E ontem a paz brincou de me fazer sorrir.
Quase rotina
21/01/2017 | 18h53
Quase rotina
Cândida Albernaz
Todos os dias antes de sair de casa costumava limpar o carro por fora e aspirar o estofado colocando um sachê sobre o painel para deixá-lo perfumado.
O terço, lado a lado com a fita do Senhor do Bonfim, pendia do espelho retrovisor. Era melhor não facilitar e pedir a proteção de todos.
No porta luvas o adesivo de “Por favor não fume” ficava próximo a foto de minhas duas meninas e da imagem de Nosso Senhor.
Tinha ainda o cuidado de forrar o banco em que sentava com uma capa de bolinhas de madeira, para proteger a coluna. Ouvi alguém falar que “ninguém usa mais isso”, mas insistia.
Evitava trabalhar à noite apesar de algumas vezes receber chamadas de passageiros conhecidos e despencar de casa de madrugada. Sabia que era perigoso, vi muitos colegas serem assaltados e um deles apareceu morto há pouco tempo bem longe de casa. De qualquer forma, àquele horário da noite não pegava ninguém que não conhecesse.
Apesar do trânsito, que inúmeras vezes me deixava nervoso, gostava do trabalho. Rendia bem e pensava em comprar outro carro e colocá-lo na rua. O cunhado estava desempregado e trabalharia comigo.
Aquele dia não foi diferente dos outros. Antes de sair do quarto das filhas que ainda dormiam, beijei-as e fiz a oração do anjo da guarda para que as protegesse.
A mulher na cozinha havia feito o café bem forte, do jeito que gostava, e o pão no forno. Fazia questão de tomar o café da manhã com calma junto dela. Na maioria das vezes não almoçávamos no mesmo horário e só voltávamos a nos ver à noite. Graças a Deus desde que mudamos para o Rio tinha bastante serviço.
Beijava-a na saída. Gostava de sentir o gosto do café misturado à pasta de dentes que ficava na boca.
No início da manhã estava sempre tranquilo. Duro mesmo era no final da tarde, quando já cansado, enfrentava engarrafamentos.
Estava no túnel Rebouças, e para variar, os carros mal andavam. Ouvi uma batida no vidro e vi um homem perguntando se podia entrar, ia para casa, mas resolvi pegá-lo.
Comecei a puxar conversa falando dos jogos da copa malhando o Parreira, depois o Felipão e agora Dunga. O outro não era muito de falar, apena concordava com um resmungo de vez em quando. Não importava. Do mesmo jeito que ouvia monólogos dos passageiros, no fim do dia gostava de fazer o meu. Falava sozinho e isso ajudava o tempo a passar.
Estávamos parados no endereço que o cara indicou quando fomos abordados por dois homens. Antes que pudesse descer do carro, empurraram-no para o meio e cada um sentou ao lado dele. Ordenaram-me que seguisse em frente com uma arma grudada no pescoço.
Os três discutiam alto enquanto vez ou outra eu arriscava um olhar pelo retrovisor. O do meio chorava e pedia desculpas. Quando ouvi um grito, assustei-me e o carro quase saiu da estrada. Haviam enfiado uma faca na barriga do sujeito. Senti aumentar com força a pressão da arma no pescoço ao mesmo tempo em que ouvi um “cuidado idiota!”.
Andamos por mais uns vinte minutos, então mandaram que parasse. Entramos num terreno abandonado e tirando o cara do carro o jogaram no chão. O tiro veio em seguida. Começaram a revistá-lo. Certamente não encontraram o que procuravam, porque falaram palavrões e um deles deu um chute na cara do sujeito morto.
Voltaram para dentro do táxi e disseram que retornasse pelo caminho em que viemos. Desceram numa esquina qualquer e pensei que iam acabar comigo.
Era meu dia de sorte. Deixaram que fosse embora enquanto andavam devagar pela rua escura.
Chegando a casa, abracei minha mulher com força. As pernas estavam moles e as mãos tremiam. Chorava feito uma criança e lembrei-me de outro choro: o do passageiro.
Os olhos dele revelavam medo e desespero. Os meus deviam estar igual. O consolo era que para mim ainda haveria a possibilidade de ver refletido neles os olhos de minhas filhas que dormiam no quarto ao lado. Nos dele, só a escuridão do nada.
Frases nem tão soltas XXIV
21/01/2017 | 18h53
Frases nem tão soltas XXIV
Cândida Albernaz
Um passo, depois outro e outro, bem devagar desviando de cada mina plantada no chão. Assim vão correndo os dias, aos poucos, se safando e resistindo em não parar.
*
Amo demais, penso demais, sofro demais. Transbordo-me em exageros.
*
Queria chorar um choro que não acontecia. Precisava que a dor se diluísse em água.
*
Diante daquele mar com os pés cobertos pela espuma branca e espessa, a areia grossa com pedaços de conchas espalhadas, voltei num tempo de gritos e risos misturados a algazarra que só a infância provoca. Via novamente minha mãe fechando o nariz com os dedos (como eu ainda faço) para que a água não entrasse durante o mergulho, e o seu passar de mãos no pouco cabelo molhado. Meus olhos assustados com a onda gigante que se formava enquanto irmãos e primos sem medo algum se jogavam no meio dela. Naquele dia voltei a um tempo que deixa saudades e que é responsável por grande parte do que sou hoje. O gosto forte de sal daquele mar absorveu outro que era mistura de sal e doce, este escorrido dos olhos.
*
Os medos no breu se deliciam. Ali eles encontram o calor que precisam para crescer.
*
Havia o som alto dos pássaros, havia o vento no milharal, havia o ruído dos pés pisando nas folhas secas caídas do bambuzal. Havia uma placidez que só a natureza oferece. Havia um sorrir interno.
*
Preciso de asas que me levem até onde o pensamento não me alcance.
*
Como João e Maria jogaram miolo de pão para encontrar o caminho de volta, eu vou jogando flores para que o meu, caso me perca, tenha cores e cheiro de alegrias.
*
Em meio a segredos a noite vai crescendo devagar. Ela chega murmurando que a escuridão tem a luz que permitimos enxergar.
*
Com um lápis de cor desenhei um sorriso no rosto para que não vissem que a boca permanecia fechada.
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A noite chegou escura como breu, mas com o fechar de olhos ela se transforma e vejo luz onde antes era negro. Decido colorir minha noite com as cores que imagino. Eu a quero vermelha como sangue, a quero escarlate como a paixão, a quero. A noite é minha e a enxergo do meu jeito.
*
Se colo meu corpo ao seu, estou entregando tudo o que a boca não diz.
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Que mulher é essa que traz na dor da perda a força para seguir adiante? Ela tem nome: mãe.
*
Observando os pontos de luz no céu escuro, tinha a certeza de que eram os olhos daquela que se foi e que voltava todas as noites, incansavelmente, para que se sentisse protegida.
*
Ô gastura de uns e outros, sô!
Confissão
21/01/2017 | 18h53
Confissão
Cândida Albernaz
Faz ano que não venho aqui. Sabe como é, seu padre, com três filhos para criar e um marido na cadeira de rodas não sobra muito tempo.
Ontem mesmo tinha pensado em vir, mas Antônio, meu marido, o senhor se lembra? falei dele outras vezes. Pois é, como ia dizendo, o Antônio ontem deu um trabalhão. Botou na cabeça que ia dar cabo da vida. Fiquei igual a uma doida.
Não é que conseguiu que comprassem chumbinho para ele? Disse para o menino que era para matar um rato que havia aparecido em nossa casa. Se com os dois gatos que tenho, algum rato ia se bandear por lá. Tive que vigiar o dia inteiro até que consegui pegar o pacote da mão dele. Sentou em cima só para me botar dificuldade. Em casa é assim, cada dia tem uma novidade. Semana passada foi o Andrezinho quem me deu canseira com uma catarreira danada. Esse é o mais novo, lembra? Já falei dele para o senhor também.
Foi por causa do André que Antônio foi parar numa cadeira de rodas. Quando tinha dois anos, viu o portão aberto e disparou para a rua. Vinha um ônibus e o pai correu para tirar ele. Empurrou o filho, mas foi pego de jeito! Resultado: ficou aleijado. Aleijado e mal humorado! Tomou implicância com o menino, coitadinho. Nem teve culpa, era muito pequeno.
E o senhor pensa que adianta eu falar alguma coisa? Vivia explicando que o filho tem amor por ele, que foi um gesto bonito, e que Deus não gosta que a gente guarde raiva no coração. Nem falo mais, desisti. Só tiro o garoto de perto, pois tenho medo que faça algo. Às vezes pego os olhos dele fitando o Andrezinho com tanto ódio que chega a brilhar.
Pena ter ficado assim. Era tão divertido meu marido!
Mas olhe eu enrolando o senhor. Vim mesmo para confessar. Tem dois anos que quero falar sobre o que aconteceu. Seu padre tem que me dar o perdão. Faço a penitência que mandar, mas não quero ir para o inferno.
Lembra da Matilde? Vinha confessar todo mês. Fingida que só ela. Metida a santa com a blusa fechada até o pescoço e aquela saia abaixo do joelho. Tudo falsidade, seu padre.
Eu até gostava daquela menina. Deixava as crianças na casa dela quando precisava sair porque com o Antônio não podia contar. Pois é, a Matilde parecia tão boazinha, prestativa, havia dias em que eu ia pegar meus filhos na escola e eles já estavam em casa de banho tomado e a janta na mesa. Não entendia para que jantar tão cedo. E o Antônio, que não era de fazer graça, arriscava uns sorrisos. Ela alegrava o lugar com as histórias que contava. Fiquei reparando nela.
Começou a visitar a gente mais vezes. Sempre que eu chegava do trabalho estava lá com as crianças e Antônio com aquela cara de bobo escutando o que ela falava.
Primeiro eu disse para a Matilde que não precisava mais se preocupar com meus meninos porque eu consegui sair mais cedo do serviço. Não adiantou muito não. Chegava a casa e ela estava.
Desculpe eu estar me alongando, seu padre, mas é que quero que o senhor entenda tudo direitinho, para ver se não tive razão e me perdoar.
Mas como estava dizendo, a disfarçada da Matilde foi se enfiando cada vez mais na vida da minha família. E eu ali, precisando trabalhar e sem paciência nenhuma. Até o dia que cheguei e ela estava fazendo a barba do meu Antônio. Que ele é aleijado, eu sei, mas das pernas. Os braços sempre foram bons e barba, o safado podia fazer sozinho. Desculpe pelo safado, seu padre, mas é que me dá nos nervos lembrar. Olhei para ela e perguntei o que estava fazendo. Com a cara mais limpa do mundo, respondeu. Como se eu precisasse de resposta, estava vendo.
Ah! Perdi a noção e avancei na direção da folgada. Agarrei a gilete e fui direto ao rosto dela. Se queria fazer a barba de alguém, eu faria a dela. Antônio ainda tentou me segurar, mas a cadeira virou e ele foi parar no chão.
Com um corte no meio da bochecha, a sirigaita me desarmou.
O senhor lembra os dentes branquinhos da Matilde? Quebrei os dois da frente com um pote de vidro que estava em cima da pia. Ela saiu correndo e chorando.
Graças a Deus não deu parte na polícia, porque Antônio disse que ela podia fazer isso e eu ia me dar mal.
Depois de um tempo, soube que ela dava risada com a mão na boca e que o rosto ficou com cicatriz.
Olha seu padre, preciso do seu perdão, porque eu estava defendendo o que era meu. Não posso dizer que estou arrependida de todo, mas fiquei com pena dela.
Hoje, quando me vê na rua, atravessa para o outro lado. É bom mesmo, porque se pensar a se meter de besta comigo de novo, arrebento os dentes que sobraram.
O senhor pede para Deus me perdoar, seu padre?
Frases nem tão soltas
21/01/2017 | 18h53
Frases nem tão soltas
Cândida Albernaz
Às vezes canso de gente. Gente dá trabalho, exige. Cansaria de mim também. Dou muito trabalho.
*
Ouça através dos meus olhos. O que eles dizem é muito mais do que minha boca ousaria pronunciar.
*
O que mais nos machuca não deixa marcas visíveis. Porque estas não são para ver, são para sentir.
*
Devíamos ser seduzidos todos os dias. Sempre um pouquinho que é para não gastar tudo de uma só vez.
*
Viu-me passar e não falou? Sem problemas, às vezes também estou assim; cansada de quem cansou de mim.
*
Não gosto de dúvidas. Qualquer dúvida em minha mente transforma-se em um gigantesco dragão que faz meu peito queimar.
*
Em qualquer passagem que seja, em qualquer fase em que esteja, por mais que faça ou tenha feito, sempre será pouco a meu ver. É uma coisa minha essa de não se satisfazer.
*
Coloca-me em seu colo, hoje o peito pesa com dores de vida real. Com dores de vida material. Com dores de sufocar.
*
Pode ser um pouco, quase nada, pode ser apenas a delicadeza de um sorriso. Pode ser que se ganhe o dia quando vemos no outro, em qualquer outro, carinho no olhar.
*
Em alguns dias retiro minhas asas para que os pés não percam o costume de pisar o chão e saibam enfrentar a dor quando ela chega.
*
No silêncio a mente discute sem parar. No silêncio chora um pranto que não quer externar. No silêncio busca um abraço que não ousa pedir. O silêncio é só um jeito de falar.
*
Desculpem mas preciso me levantar porque acabei de ver sorrisos e risos passarem aqui perto. Vou atrás deles. Não posso perdê-los.
*
Algumas vezes nos escondemos tão dentro de nós que mesmo procurando não conseguimos nos achar.
*
Gosto de olhar para mim e me enxergar por dentro. Sem a s carapaças que uso vez ou outra para me proteger.
*
E mesmo que a vida machuque, na manhã seguinte esteja pronto para mostrar a ela que sua luz vem de dentro.
Não pensar, não lembrar: adormecer
21/01/2017 | 18h53
Não pensar, não lembrar: adormecer.
Cândida Albernaz
Falar, falar, falar... e não precisar pensar, porque pensar às vezes dói como uma lâmina cortando fundo e fino.
O bar está cheio e o som das vozes se mistura com a música que o cantor desconhecido canta, na esperança de que alguém o escute. A maioria veio para beber e rir de tudo e nada, assim como eu. O grupo de amigos à minha volta presta atenção numa piada que Mário conta com uma interpretação irrepreensível: qualquer coisa sobre argentinos e brasileiros, onde é claro, o argentino se ferra. Todos rimos.
Olho para Henrique, os olhos parados fixos em um ponto que só ele vê. Deveria puxar conversa e escutá-lo, mas não preciso de mais problemas, bastam os meus.
A mulher de Henrique saiu de casa há dois meses. Tentou explicar-lhe que não teve como evitar a paixão repentina pelo aluno quinze anos mais novo. Que poderia ser a última chance para viver esse sentimento. Que não era mais criança e suas rugas não importavam ao rapaz e que a juventude dele fazia com que se sentisse jovem também. Que precisava compreendê-la, desculpá-la, e quem sabe arrumar uma garota? Ele? E o hábito de tantos anos ao lado da mesma mulher, agora não sabendo o que fazer de si mesmo?
Não penso, não lembro, não sofro: durmo.
Em casa, evito acender as luzes, não resolveria: vou tropeçar nos móveis de qualquer forma. Bebi demais e a cabeça gira como tudo à volta.
Tomo um banho e na cama, massageio os pés com as pontas dos dedos: mania, todas as noites faço assim. Antes de deitar, ligo a televisão e quando não aguento mais manter os olhos abertos, durmo. Pela manhã prometo que não vou mais deixá-la ligada por toda a noite.
Os hábitos me ajudam a sobreviver: vêm de forma mecânica, sem que precise fazer esforço.
Há meses tento não sentir a ausência, principalmente de Vítor. Até suas repreensões e olhares de raiva me fazem falta. Procuro chegar a casa o mais tarde possível, porque assim, com o corpo exausto e o excesso de bebida, não há como não dormir. Se houver sonhos, não importa, não me lembro deles mesmo.
Por mais que faça, algo me persegue: culpa.
Um ano depois a culpa transpassa meu corpo como uma lança.
Não chovia, não era noite. Estávamos os três saindo de casa e você insistiu para que eu não dirigisse. Teimosa como sempre, não abri mão. Sentei ao volante e por mais que tentasse, gritei que se não quisesse ir, podia ficar em casa. Iríamos eu e nosso filho Vítor, para a praia, como havíamos combinado no dia anterior.
Sabia que não deixaria que fosse sozinha com ele, o problema seria a volta, depois que já tivesse bebido o suficiente para me divertir.
Juro que procurei fazer direito. Sabia que você estava cansado de mim e pensava estar tentando o melhor possível. Quando na curva, virei para trás e brinquei com Vítor, estava na verdade querendo que você visse o quanto podia ser amiga e amorosa com ele. Foi o suficiente para que perdesse a direção e o carro saísse da estrada.
Nosso menino foi jogado longe, batendo com a cabeça no asfalto: não resistiu.
Você foi embora de casa: não resistiu.
Eu tento sobreviver: não sei se vou resistir.
Não queria pensar, pois pensar às vezes dói como uma lâmina cortando fundo e fino...
Agora era jamais
21/01/2017 | 18h53
Agora era jamais
Cândida Albernaz
Sentada no primeiro degrau da escada, abaixou o corpo para frente, deixando que a cabeça pendesse entre os joelhos. Não queria chorar. Escorrer lágrimas pelo rosto deixava-a irritada. Se não fosse por borrar a maquiagem, seria por ficar com os olhos inchados, o que detestava de qualquer forma.
Passou a mão na calça retirando uma poeira inexistente e levantou. Subiu um, dois, trinta, quarenta degraus. Uma droga esse negócio de não ter elevador. Verdade que em um prédio de três andares não havia muita necessidade. Pensando bem, melhor assim, caso contrário o condomínio seria mais caro. Nem pensar em aumento de despesas.
Esquecera que deixara a sala tão bagunçada. Calcinha sobre a mesa era um pouco demais. Mas fora por um bom motivo. Que se transformou numa péssima lembrança agora.
Na cozinha ainda havia a sobra de um jantar de dois dias atrás. É isso que dá jogar tudo para cima e fingir que o mundo não existe.
Começou lavando a louça suja. Deixaria secando enquanto tomava coragem para entrar no quarto.
Caramba! Fizera uma desordem com suas coisas. E essa taça estilhaçada no chão? Recolher cacos não era o que mais gostava de fazer. Muito menos quando os de cristal vêm com porções suas. Estava acostumada. Não se acostumaria nunca. Nessa ventania interna, fragmentos seus também eram quebrados em pequenas partes
fazendo cacos voarem sem rumo espalhando pedaços que não se colariam mais.
Pelo menos foi vidro que se partiu, ao ser atirado longe na hora da raiva. Pior seria ter machucado a si própria. O que não deixou de acontecer de qualquer jeito.
Depois de três anos decidiu! e dessa vez não voltaria atrás. Hora de seguir adiante sozinha. Mais uma vez.
Quando descobriu que ele tivera um caso com outra mulher, tentou desistir, mas conversaram e apaixonada que estava, teve medo e achou covardia não dar nova chance ao que viviam.
Continuava envolvida. Até mais do que antes. Mas não daria a cara para bater duas vezes. Agora era jamais. Não haveria volta ou nova conversa.
Conhecia a garota, mas isso não era o mais importante. Nunca gostou de dividir. Não sabia também ela se dividir. Inteira ou nada. Nesse caso: nada.
Ao lado da cama encontrou a foto que rasgara durante a discussão. Recolheu e abrindo a gaveta retirou algumas que mandara revelar. Todas para a mesma lixeira.
Ainda encontraria restos do que viveram, mas não pretendia guardá-los e nem procurar por eles naquele momento. À proporção que se deparasse, um a um seriam afastados de sua visão. A blusa amarela, a sandália preta, a gravata que numa noite depois de uma festa, em que terminaram como sempre na cama, foi usada por eles, tudo junto na mesma sacola. Daria ao porteiro. Pareciam ter tamanhos iguais.
Pronto! Quarto novamente do seu jeito. Arrumado, lençóis trocados, perfume levemente espalhado. Na mesinha, um retrato onde um sorriso estampava alegria numa viagem com amigos. Aliás, hora de ligar para algum deles. Quem sabe programar uma escapada para o fim de semana? Precisava rir e nada melhor do que com seus, em qualquer ocasião, aliados.
Claro que ainda doeria por um bom tempo. Não seria fácil. Nunca o era. Mas se havia uma necessidade urgente, era fazer as pazes consigo mesma.
Resolveu comprar flores. Sempre gostara de enfeitar a casa com flores. Do campo.
Desceu a escada de dois em dois, como era mania.
O sol estava forte, mas um vento gostoso bateu em seu rosto, jogando o cabelo para trás. Sorriu enquanto caminhava para a floricultura. Amava o vento, ele costumava sussurrar em seu ouvido o que precisava escutar.
Aliás, gostava de vento, chuva, sol, frio ou calor.
Enfermaria
21/01/2017 | 18h53
Enfermaria
Cândida Albernaz
Olha doutor, estou acompanhando a filha do meu marido, o Zé Irineu, que teve uma virose daquelas muito bravas. Agora tudo o que aparece é virose. Ninguém sabe de onde vem ou como começa, mas faz uma desgraceira na gente, deixando prostrada e cheia de dor no corpo.
Minha idade? Tenho dezesseis anos e não, não tenho filhos. Antes de casar com ele engravidei três vezes. Mas tirei. Mamãe nunca quis filha buchuda dentro de casa. Sabe como é, para de render e passa a dar prejuízo.
Como assim? Ora, o senhor não é criança doutor, conhece as coisas da vida, mas vou explicar. Eu e minhas irmãs, tenho duas: a Maria Arlinda e a Maria do Carmo. Meu nome disse antes, mas não sei se o senhor prestou atenção, Maria do Rosário. Bem, quando completamos dez anos, sem festa de aniversário nem nada, porque isso eu só vi na casa dos outros, inclusive bem longe da minha, mamãe botava a gente na rua para aprender a ganhar a vida.
Fui primeiro porque sou a mais velha. A Maria do Carmo só no ano passado. Chorava muito no início, mas de que adiantava? Se chegasse sem dinheiro era pior, apanhava e ainda tinha que retornar para a rua. A gente acaba aprendendo rápido. Nunca gostei não. Digo isso para o senhor, porque a Maria Arlinda é safada. Andou fazendo até de graça. A mãe descobriu e deu um couro nela. Só pode se for por dinheiro, porque o corpo está ali é para trabalhar.
O marido que mamãe arrumou também já pegou a Maria Arlinda. Tentou com todas nós, mas só ela diz que gosta. Se a mãe descobre... Não, não ia fazer nada com ele. Mas com ela, é capaz até de expulsar. Se bem, agora que casei, são apenas duas levando dinheiro e a mamãe não vai querer perder essa mole.
Não voltei lá. O Zé Irineu não gosta e eu não quero. Tenho saudade da Do Carmo. Veio aqui duas vezes. Deu uma fugida. Perguntei se queria que arranjasse um emprego decente para ela. Disse que não, estava acostumada com a vida da rua e não tinha paciência para cuidar de criança e nem de casa dos outros. Mentira! Minha mãe é quem não deixa. Diz que isso não dá dinheiro. E ela morre de medo de mãe.
Na última vez que estivemos juntas, contou que o padrasto pegou ela também. O olho encheu de água. Nem doze anos doutor.
Queria chamar para morar comigo, mas meu marido não permite. Eu aceito.
Conheci o Zé na igreja. De vez em quando eu escapulia e ia rezar. Chorava muito. Tinha arrependimento. Um dia ele chegou perto e falou que andava reparando em mim fazia tempo e pediu para conversar. No principio ficava quieta, desconfiada, depois de algum tempo, falei, falei e contei minha vida para ele. Passamos a nos ver sempre. Depois de uns meses perguntou se eu queria mudar.
- Claro que quero!
Então me ajudou. Deu um dinheiro para mamãe e ela deixou que eu casasse com ele.
Foi direitinho, com papel passado e tudo. Ele é um pouco mais velho, tem uns quarenta. Não é bonito também não, mas é bom. Um coração enorme. E me tirou da vida. Aquilo estava me matando. Sou agradecida e por isso ajudo a cuidar da filha dele, já que era viúvo. Temos quase a mesma idade. Com ela é diferente, não tem maldade, é religiosa e o pai a protege de tudo. Tão bonito de ver. Queria ter pai assim. Não conheci porque mãe não faz ideia de quem é.
Tenho o Zé Irineu, é pai e marido. Depois, deitar com ele é diferente, cheira bem e é cuidadoso.
Vou esperar mais um pouco e vou insistir para trazer a Do Carmo. Quem sabe consigo. Deus quem botou ele no meu caminho. Rezo e agradeço toda noite. Não esqueço o que ele fez e nem quero, porque é para dar valor.
De volta para casa
21/01/2017 | 18h52
De volta para casa
Cândida Albernaz
A viagem será longa. O caminhão pequeno que consegui emprestado com o dono da quitanda estava abarrotado de coisas.
Os poucos móveis e utensílios da casa foram arrumados na carroceria de modo que ainda coubessem os dois meninos. Silas sentado numa ponta do colchonete e Serginho na outra.
Eu dirigia sem falar. Ao lado, Teresa com o rosto virado para a janela, secava o canto dos olhos com os dedos tentando disfarçar as lágrimas que escorriam.
Ontem cheguei a casa depois de ter procurado por emprego o dia todo. Na calçada em frente, minha mulher parada com um filho em cada mão teimava em fixar o chão. Em volta deles tudo o que antes mobiliava nossa residência.
Sabia que seríamos despejados, mas pensei que conseguiria um novo emprego antes disso.
Aproximei-me e avisei que passaria na mercearia para falar com seu Francisco. Voltei uma hora depois com o caminhão e comecei a colocar o que estava na rua dentro dele. Ficamos em um quarto que nos arrumou e no dia seguinte seguimos viagem. Teresa ligara para o pai.
Nos últimos tempos não tínhamos muito que comer e a mulher de seu Francisco aparecia de vez em quando com alguma comida quentinha dizendo que “errei a mão outra vez fazendo uma quantidade exagerada e como não gosto de desperdício, trouxe para vocês”.
Minha mulher agradecia e sempre procurava ajudá-la na limpeza da casa.
Teresa era uma guerreira. Nunca disse isso a ela, não sou homem de afagos. Lecionava quando a conheci, mas depois que nos casamos não permiti que trabalhasse.
- Mulher minha não trabalha.
Tirei-a da casa dos pais aos dezoito anos. Quando tivemos nosso primeiro filho, o Silas, a mãe dela havia morrido há pouco e não teve quem a ajudasse. Ele não foi um bebê com muita saúde e ela precisou ficar noites e noites sem pregar o olho.
Anos depois saímos da cidade em que nascemos. No início foi bom, porque consegui um trabalho onde ganhava bem e possuíamos um lugar ajeitado para morar. Um dia o patrão avisou que não precisaria mais de meu serviço porque um parente assumiria o lugar. Daí em diante nossa vida mudou.
Nessa época nasceu Serginho. Foi um período ruim, até conseguir um novo emprego onde fiquei por quatro anos. Novamente fui dispensado e desta vez alegaram “contenção de despesa”. Muitos colegas saíram da firma no mesmo período.
Nunca mais nossa vida foi a mesma. Pulei de emprego em emprego. Sempre a mesma história de contenção. Acho que é a palavra que mais odeio.
Agora estamos voltando para nossa antiga cidade. Ficaremos numa pequena acomodação no mesmo quintal do meu sogro.
- Não está em muito bom estado, mas daremos um jeito. – ele afirmou.
Teresa ainda não sabe, mas quando for devolver o caminhão ao seu Francisco, não voltarei.
Não posso viver de favor ao pai dela. Quando saímos dali estávamos cheios de esperança e agora entrego a filha dele sofrida, com aquele olhar sem brilho, parecendo uma velha apesar de ainda não ter completado trinta e um anos.
Seu Francisco ficou de me arranjar qualquer coisa. O pai dela cuidará deles, não vai deixar a filha e os netos passarem fome. Como eu deixei.
Pronto, chegamos! O velho estava no portão. Abraçou Teresa, as crianças e mal me olhou. Sabia bem o que pensava. Eu era um incompetente sem capacidade de criar os meus. Também não falei nada. Não tinha o que falar.
Já na sala, vi minha mulher sorrindo como há muito não fazia. Recordações, acredito. Foi direto para a cozinha enquanto descarregávamos a mudança e quando terminamos, uma comida quentinha estava sobre a mesa.
Depois de lavarmos as mãos, sentamos e o velho começou:
- Sabe de uma coisa Pedro, estive pensando nesses anos todos em que vivi aqui sozinho cuidando do armarinho e da casa, sem a única filha que tenho e sem minha mulher que se foi cedo demais. Sempre quis os netos por perto, no entanto mal os vi crescer. Estou velho, cansado e preciso de ajuda na loja. Pensei que talvez você pudesse.
A mão de Teresa sobre a minha fez uma leve pressão. Levantei o rosto e vi no dela um brilho que a tornava mais jovem. Lembrei de quando nos conhecemos
Não sabia o que dizer. Tenho orgulho e não pretendo depender do sogro.
- Vou pensar.
Dois dias depois, no caminhão, ainda não havia dado uma resposta.
Despedi dos meninos e da mulher. Eles não imaginavam que talvez demorasse um bom tempo antes de nos vermos novamente.
Fazia a manobra para dobrar a esquina quando o pai de Teresa surgiu na minha frente.
Veio até a janela:
- Sei o que está na sua cabeça. Sou um velho chucro que só viveu no interior, mas também sou homem. Conheço nosso orgulho e onde ele pode nos levar. Não estou lhe oferecendo ajuda. Eu preciso que me ajude, pois estou cansado. Não faça o que está planejando. Coloquei no bolso de sua calça esta noite o dinheiro da passagem de volta. Não seja tonto. Sua mulher e seus filhos necessitam de você.
Em seguida deu-me as costas.
Durante o caminho de volta, mexi no bolso e veio-me um sorriso. Talvez não precisasse mesmo ficar longe da minha Teresa e dos garotos.
Sobre o autor
Candida Albernaz
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