Não pensar, não lembrar: adormecer
Não pensar, não lembrar: adormecer.
Cândida Albernaz
Falar, falar, falar... e não precisar pensar, porque pensar às vezes dói como uma lâmina cortando fundo e fino.
O bar está cheio e o som das vozes se mistura com a música que o cantor desconhecido canta, na esperança de que alguém o escute. A maioria veio para beber e rir de tudo e nada, assim como eu. O grupo de amigos à minha volta presta atenção numa piada que Mário conta com uma interpretação irrepreensível: qualquer coisa sobre argentinos e brasileiros, onde é claro, o argentino se ferra. Todos rimos.
Olho para Henrique, os olhos parados fixos em um ponto que só ele vê. Deveria puxar conversa e escutá-lo, mas não preciso de mais problemas, bastam os meus.
A mulher de Henrique saiu de casa há dois meses. Tentou explicar-lhe que não teve como evitar a paixão repentina pelo aluno quinze anos mais novo. Que poderia ser a última chance para viver esse sentimento. Que não era mais criança e suas rugas não importavam ao rapaz e que a juventude dele fazia com que se sentisse jovem também. Que precisava compreendê-la, desculpá-la, e quem sabe arrumar uma garota? Ele? E o hábito de tantos anos ao lado da mesma mulher, agora não sabendo o que fazer de si mesmo?
Não penso, não lembro, não sofro: durmo.
Em casa, evito acender as luzes, não resolveria: vou tropeçar nos móveis de qualquer forma. Bebi demais e a cabeça gira como tudo à volta.
Tomo um banho e na cama, massageio os pés com as pontas dos dedos: mania, todas as noites faço assim. Antes de deitar, ligo a televisão e quando não aguento mais manter os olhos abertos, durmo. Pela manhã prometo que não vou mais deixá-la ligada por toda a noite.
Os hábitos me ajudam a sobreviver: vêm de forma mecânica, sem que precise fazer esforço.
Há meses tento não sentir a ausência, principalmente de Vítor. Até suas repreensões e olhares de raiva me fazem falta. Procuro chegar a casa o mais tarde possível, porque assim, com o corpo exausto e o excesso de bebida, não há como não dormir. Se houver sonhos, não importa, não me lembro deles mesmo.
Por mais que faça, algo me persegue: culpa.
Um ano depois a culpa transpassa meu corpo como uma lança.
Não chovia, não era noite. Estávamos os três saindo de casa e você insistiu para que eu não dirigisse. Teimosa como sempre, não abri mão. Sentei ao volante e por mais que tentasse, gritei que se não quisesse ir, podia ficar em casa. Iríamos eu e nosso filho Vítor, para a praia, como havíamos combinado no dia anterior.
Sabia que não deixaria que fosse sozinha com ele, o problema seria a volta, depois que já tivesse bebido o suficiente para me divertir.
Juro que procurei fazer direito. Sabia que você estava cansado de mim e pensava estar tentando o melhor possível. Quando na curva, virei para trás e brinquei com Vítor, estava na verdade querendo que você visse o quanto podia ser amiga e amorosa com ele. Foi o suficiente para que perdesse a direção e o carro saísse da estrada.
Nosso menino foi jogado longe, batendo com a cabeça no asfalto: não resistiu.
Você foi embora de casa: não resistiu.
Eu tento sobreviver: não sei se vou resistir.
Não queria pensar, pois pensar às vezes dói como uma lâmina cortando fundo e fino...