Confissão
candida 10/09/2015 11:33
Confissão Cândida Albernaz Faz ano que não venho aqui. Sabe como é, seu padre, com três filhos para criar e um marido na cadeira de rodas não sobra muito tempo. Ontem mesmo tinha pensado em vir, mas Antônio, meu marido, o senhor se lembra? falei dele outras vezes. Pois é, como ia dizendo, o Antônio ontem deu um trabalhão. Botou na cabeça que ia dar cabo da vida. Fiquei igual a uma doida. Não é que conseguiu que comprassem chumbinho para ele? Disse para o menino que era para matar um rato que havia aparecido em nossa casa. Se com os dois gatos que tenho, algum rato ia se bandear por lá. Tive que vigiar o dia inteiro até que consegui pegar o pacote da mão dele. Sentou em cima só para me botar dificuldade. Em casa é assim, cada dia tem uma novidade. Semana passada foi o Andrezinho quem me deu canseira com uma catarreira danada. Esse é o mais novo, lembra? Já falei dele para o senhor também. Foi por causa do André que Antônio foi parar numa cadeira de rodas. Quando tinha dois anos, viu o portão aberto e disparou para a rua. Vinha um ônibus e o pai correu para tirar ele. Empurrou o filho, mas foi pego de jeito! Resultado: ficou aleijado. Aleijado e mal humorado! Tomou implicância com o menino, coitadinho. Nem teve culpa, era muito pequeno. E o senhor pensa que adianta eu falar alguma coisa? Vivia explicando que o filho tem amor por ele, que foi um gesto bonito, e que Deus não gosta que a gente guarde raiva no coração. Nem falo mais, desisti. Só tiro o garoto de perto, pois tenho medo que faça algo. Às vezes pego os olhos dele fitando o Andrezinho com tanto ódio que chega a brilhar. Pena ter ficado assim. Era tão divertido meu marido! Mas olhe eu enrolando o senhor. Vim mesmo para confessar. Tem dois anos que quero falar sobre o que aconteceu. Seu padre tem que me dar o perdão. Faço a penitência que mandar, mas não quero ir para o inferno. Lembra da Matilde? Vinha confessar todo mês. Fingida que só ela. Metida a santa com a blusa fechada até o pescoço e aquela saia abaixo do joelho. Tudo falsidade, seu padre. Eu até gostava daquela menina. Deixava as crianças na casa dela quando precisava sair porque com o Antônio não podia contar. Pois é, a Matilde parecia tão boazinha, prestativa, havia dias em que eu ia pegar meus filhos na escola e eles já estavam em casa de banho tomado e a janta na mesa. Não entendia para que jantar tão cedo. E o Antônio, que não era de fazer graça, arriscava uns sorrisos. Ela alegrava o lugar com as histórias que contava. Fiquei reparando nela. Começou a visitar a gente mais vezes. Sempre que eu chegava do trabalho estava lá com as crianças e Antônio com aquela cara de bobo escutando o que ela falava. Primeiro eu disse para a Matilde que não precisava mais se preocupar com meus meninos porque eu consegui sair mais cedo do serviço. Não adiantou muito não. Chegava a casa e ela estava. Desculpe eu estar me alongando, seu padre, mas é que quero que o senhor entenda tudo direitinho, para ver se não tive razão e me perdoar. Mas como estava dizendo, a disfarçada da Matilde foi se enfiando cada vez mais na vida da minha família. E eu ali, precisando trabalhar e sem paciência nenhuma. Até o dia que cheguei e ela estava fazendo a barba do meu Antônio. Que ele é aleijado, eu sei, mas das pernas. Os braços sempre foram bons e barba, o safado podia fazer sozinho. Desculpe pelo safado, seu padre, mas é que me dá nos nervos lembrar. Olhei para ela e perguntei o que estava fazendo. Com a cara mais limpa do mundo, respondeu. Como se eu precisasse de resposta, estava vendo. Ah! Perdi a noção e avancei na direção da folgada. Agarrei a gilete e fui direto ao rosto dela. Se queria fazer a barba de alguém, eu faria a dela. Antônio ainda tentou me segurar, mas a cadeira virou e ele foi parar no chão. Com um corte no meio da bochecha, a sirigaita me desarmou. O senhor lembra os dentes branquinhos da Matilde? Quebrei os dois da frente com um pote de vidro que estava em cima da pia. Ela saiu correndo e chorando. Graças a Deus não deu parte na polícia, porque Antônio disse que ela podia fazer isso e eu ia me dar mal. Depois de um tempo, soube que ela dava risada com a mão na boca e que o rosto ficou com cicatriz. Olha seu padre, preciso do seu perdão, porque eu estava defendendo o que era meu. Não posso dizer que estou arrependida de todo, mas fiquei com pena dela. Hoje, quando me vê na rua, atravessa para o outro lado. É bom mesmo, porque se pensar a se meter de besta comigo de novo, arrebento os dentes que sobraram. O senhor pede para Deus me perdoar, seu padre?

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

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