Quase rotina
Quase rotina
Cândida Albernaz
Todos os dias antes de sair de casa costumava limpar o carro por fora e aspirar o estofado colocando um sachê sobre o painel para deixá-lo perfumado.
O terço, lado a lado com a fita do Senhor do Bonfim, pendia do espelho retrovisor. Era melhor não facilitar e pedir a proteção de todos.
No porta luvas o adesivo de “Por favor não fume” ficava próximo a foto de minhas duas meninas e da imagem de Nosso Senhor.
Tinha ainda o cuidado de forrar o banco em que sentava com uma capa de bolinhas de madeira, para proteger a coluna. Ouvi alguém falar que “ninguém usa mais isso”, mas insistia.
Evitava trabalhar à noite apesar de algumas vezes receber chamadas de passageiros conhecidos e despencar de casa de madrugada. Sabia que era perigoso, vi muitos colegas serem assaltados e um deles apareceu morto há pouco tempo bem longe de casa. De qualquer forma, àquele horário da noite não pegava ninguém que não conhecesse.
Apesar do trânsito, que inúmeras vezes me deixava nervoso, gostava do trabalho. Rendia bem e pensava em comprar outro carro e colocá-lo na rua. O cunhado estava desempregado e trabalharia comigo.
Aquele dia não foi diferente dos outros. Antes de sair do quarto das filhas que ainda dormiam, beijei-as e fiz a oração do anjo da guarda para que as protegesse.
A mulher na cozinha havia feito o café bem forte, do jeito que gostava, e o pão no forno. Fazia questão de tomar o café da manhã com calma junto dela. Na maioria das vezes não almoçávamos no mesmo horário e só voltávamos a nos ver à noite. Graças a Deus desde que mudamos para o Rio tinha bastante serviço.
Beijava-a na saída. Gostava de sentir o gosto do café misturado à pasta de dentes que ficava na boca.
No início da manhã estava sempre tranquilo. Duro mesmo era no final da tarde, quando já cansado, enfrentava engarrafamentos.
Estava no túnel Rebouças, e para variar, os carros mal andavam. Ouvi uma batida no vidro e vi um homem perguntando se podia entrar, ia para casa, mas resolvi pegá-lo.
Comecei a puxar conversa falando dos jogos da copa malhando o Parreira, depois o Felipão e agora Dunga. O outro não era muito de falar, apena concordava com um resmungo de vez em quando. Não importava. Do mesmo jeito que ouvia monólogos dos passageiros, no fim do dia gostava de fazer o meu. Falava sozinho e isso ajudava o tempo a passar.
Estávamos parados no endereço que o cara indicou quando fomos abordados por dois homens. Antes que pudesse descer do carro, empurraram-no para o meio e cada um sentou ao lado dele. Ordenaram-me que seguisse em frente com uma arma grudada no pescoço.
Os três discutiam alto enquanto vez ou outra eu arriscava um olhar pelo retrovisor. O do meio chorava e pedia desculpas. Quando ouvi um grito, assustei-me e o carro quase saiu da estrada. Haviam enfiado uma faca na barriga do sujeito. Senti aumentar com força a pressão da arma no pescoço ao mesmo tempo em que ouvi um “cuidado idiota!”.
Andamos por mais uns vinte minutos, então mandaram que parasse. Entramos num terreno abandonado e tirando o cara do carro o jogaram no chão. O tiro veio em seguida. Começaram a revistá-lo. Certamente não encontraram o que procuravam, porque falaram palavrões e um deles deu um chute na cara do sujeito morto.
Voltaram para dentro do táxi e disseram que retornasse pelo caminho em que viemos. Desceram numa esquina qualquer e pensei que iam acabar comigo.
Era meu dia de sorte. Deixaram que fosse embora enquanto andavam devagar pela rua escura.
Chegando a casa, abracei minha mulher com força. As pernas estavam moles e as mãos tremiam. Chorava feito uma criança e lembrei-me de outro choro: o do passageiro.
Os olhos dele revelavam medo e desespero. Os meus deviam estar igual. O consolo era que para mim ainda haveria a possibilidade de ver refletido neles os olhos de minhas filhas que dormiam no quarto ao lado. Nos dele, só a escuridão do nada.