Frases nem tão soltas XXIV
Frases nem tão soltas XXIV
Cândida Albernaz
Um passo, depois outro e outro, bem devagar desviando de cada mina plantada no chão. Assim vão correndo os dias, aos poucos, se safando e resistindo em não parar.
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Amo demais, penso demais, sofro demais. Transbordo-me em exageros.
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Queria chorar um choro que não acontecia. Precisava que a dor se diluísse em água.
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Diante daquele mar com os pés cobertos pela espuma branca e espessa, a areia grossa com pedaços de conchas espalhadas, voltei num tempo de gritos e risos misturados a algazarra que só a infância provoca. Via novamente minha mãe fechando o nariz com os dedos (como eu ainda faço) para que a água não entrasse durante o mergulho, e o seu passar de mãos no pouco cabelo molhado. Meus olhos assustados com a onda gigante que se formava enquanto irmãos e primos sem medo algum se jogavam no meio dela. Naquele dia voltei a um tempo que deixa saudades e que é responsável por grande parte do que sou hoje. O gosto forte de sal daquele mar absorveu outro que era mistura de sal e doce, este escorrido dos olhos.
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Os medos no breu se deliciam. Ali eles encontram o calor que precisam para crescer.
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Havia o som alto dos pássaros, havia o vento no milharal, havia o ruído dos pés pisando nas folhas secas caídas do bambuzal. Havia uma placidez que só a natureza oferece. Havia um sorrir interno.
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Preciso de asas que me levem até onde o pensamento não me alcance.
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Como João e Maria jogaram miolo de pão para encontrar o caminho de volta, eu vou jogando flores para que o meu, caso me perca, tenha cores e cheiro de alegrias.
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Em meio a segredos a noite vai crescendo devagar. Ela chega murmurando que a escuridão tem a luz que permitimos enxergar.
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Com um lápis de cor desenhei um sorriso no rosto para que não vissem que a boca permanecia fechada.
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A noite chegou escura como breu, mas com o fechar de olhos ela se transforma e vejo luz onde antes era negro. Decido colorir minha noite com as cores que imagino. Eu a quero vermelha como sangue, a quero escarlate como a paixão, a quero. A noite é minha e a enxergo do meu jeito.
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Se colo meu corpo ao seu, estou entregando tudo o que a boca não diz.
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Que mulher é essa que traz na dor da perda a força para seguir adiante? Ela tem nome: mãe.
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Observando os pontos de luz no céu escuro, tinha a certeza de que eram os olhos daquela que se foi e que voltava todas as noites, incansavelmente, para que se sentisse protegida.
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Ô gastura de uns e outros, sô!