Enfermaria
candida 30/07/2015 16:17
Enfermaria Cândida Albernaz Olha doutor, estou acompanhando a filha do meu marido, o Zé Irineu, que teve uma virose daquelas muito bravas. Agora tudo o que aparece é virose. Ninguém sabe de onde vem ou como começa, mas faz uma desgraceira na gente, deixando prostrada e cheia de dor no corpo. Minha idade? Tenho dezesseis anos e não, não tenho filhos. Antes de casar com ele engravidei três vezes. Mas tirei. Mamãe nunca quis filha buchuda dentro de casa. Sabe como é, para de render e passa a dar prejuízo. Como assim? Ora, o senhor não é criança doutor, conhece as coisas da vida, mas vou explicar. Eu e minhas irmãs, tenho duas: a Maria Arlinda e a Maria do Carmo. Meu nome disse antes, mas não sei se o senhor prestou atenção, Maria do Rosário. Bem, quando completamos dez anos, sem festa de aniversário nem nada, porque isso eu só vi na casa dos outros, inclusive bem longe da minha, mamãe botava a gente na rua para aprender a ganhar a vida. Fui primeiro porque sou a mais velha. A Maria do Carmo só no ano passado. Chorava muito no início, mas de que adiantava? Se chegasse sem dinheiro era pior, apanhava e ainda tinha que retornar para a rua. A gente acaba aprendendo rápido. Nunca gostei não. Digo isso para o senhor, porque a Maria Arlinda é safada. Andou fazendo até de graça. A mãe descobriu e deu um couro nela. Só pode se for por dinheiro, porque o corpo está ali é para trabalhar. O marido que mamãe arrumou também já pegou a Maria Arlinda. Tentou com todas nós, mas só ela diz que gosta. Se a mãe descobre... Não, não ia fazer nada com ele. Mas com ela, é capaz até de expulsar. Se bem, agora que casei, são apenas duas levando dinheiro e a mamãe não vai querer perder essa mole. Não voltei lá. O Zé Irineu não gosta e eu não quero. Tenho saudade da Do Carmo. Veio aqui duas vezes. Deu uma fugida. Perguntei se queria que arranjasse um emprego decente para ela. Disse que não, estava acostumada com a vida da rua e não tinha paciência para cuidar de criança e nem de casa dos outros. Mentira! Minha mãe é quem não deixa. Diz que isso não dá dinheiro. E ela morre de medo de mãe. Na última vez que estivemos juntas, contou que o padrasto pegou ela também. O olho encheu de água. Nem doze anos doutor. Queria chamar para morar comigo, mas meu marido não permite. Eu aceito. Conheci o Zé na igreja. De vez em quando eu escapulia e ia rezar. Chorava muito. Tinha arrependimento. Um dia ele chegou perto e falou que andava reparando em mim fazia tempo e pediu para conversar. No principio ficava quieta, desconfiada, depois de algum tempo, falei, falei e contei minha vida para ele. Passamos a nos ver sempre. Depois de uns meses perguntou se eu queria mudar. - Claro que quero! Então me ajudou. Deu um dinheiro para mamãe e ela deixou que eu casasse com ele. Foi direitinho, com papel passado e tudo. Ele é um pouco mais velho, tem uns quarenta. Não é bonito também não, mas é bom. Um coração enorme. E me tirou da vida. Aquilo estava me matando. Sou agradecida e por isso ajudo a cuidar da filha dele, já que era viúvo. Temos quase a mesma idade. Com ela é diferente, não tem maldade, é religiosa e o pai a protege de tudo. Tão bonito de ver. Queria ter pai assim. Não conheci porque mãe não faz ideia de quem é. Tenho o Zé Irineu, é pai e marido. Depois, deitar com ele é diferente, cheira bem e é cuidadoso. Vou esperar mais um pouco e vou insistir para trazer a Do Carmo. Quem sabe consigo. Deus quem botou ele no meu caminho. Rezo e agradeço toda noite. Não esqueço o que ele fez e nem quero, porque é para dar valor.

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

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