De volta para casa
De volta para casa
Cândida Albernaz
A viagem será longa. O caminhão pequeno que consegui emprestado com o dono da quitanda estava abarrotado de coisas.
Os poucos móveis e utensílios da casa foram arrumados na carroceria de modo que ainda coubessem os dois meninos. Silas sentado numa ponta do colchonete e Serginho na outra.
Eu dirigia sem falar. Ao lado, Teresa com o rosto virado para a janela, secava o canto dos olhos com os dedos tentando disfarçar as lágrimas que escorriam.
Ontem cheguei a casa depois de ter procurado por emprego o dia todo. Na calçada em frente, minha mulher parada com um filho em cada mão teimava em fixar o chão. Em volta deles tudo o que antes mobiliava nossa residência.
Sabia que seríamos despejados, mas pensei que conseguiria um novo emprego antes disso.
Aproximei-me e avisei que passaria na mercearia para falar com seu Francisco. Voltei uma hora depois com o caminhão e comecei a colocar o que estava na rua dentro dele. Ficamos em um quarto que nos arrumou e no dia seguinte seguimos viagem. Teresa ligara para o pai.
Nos últimos tempos não tínhamos muito que comer e a mulher de seu Francisco aparecia de vez em quando com alguma comida quentinha dizendo que “errei a mão outra vez fazendo uma quantidade exagerada e como não gosto de desperdício, trouxe para vocês”.
Minha mulher agradecia e sempre procurava ajudá-la na limpeza da casa.
Teresa era uma guerreira. Nunca disse isso a ela, não sou homem de afagos. Lecionava quando a conheci, mas depois que nos casamos não permiti que trabalhasse.
- Mulher minha não trabalha.
Tirei-a da casa dos pais aos dezoito anos. Quando tivemos nosso primeiro filho, o Silas, a mãe dela havia morrido há pouco e não teve quem a ajudasse. Ele não foi um bebê com muita saúde e ela precisou ficar noites e noites sem pregar o olho.
Anos depois saímos da cidade em que nascemos. No início foi bom, porque consegui um trabalho onde ganhava bem e possuíamos um lugar ajeitado para morar. Um dia o patrão avisou que não precisaria mais de meu serviço porque um parente assumiria o lugar. Daí em diante nossa vida mudou.
Nessa época nasceu Serginho. Foi um período ruim, até conseguir um novo emprego onde fiquei por quatro anos. Novamente fui dispensado e desta vez alegaram “contenção de despesa”. Muitos colegas saíram da firma no mesmo período.
Nunca mais nossa vida foi a mesma. Pulei de emprego em emprego. Sempre a mesma história de contenção. Acho que é a palavra que mais odeio.
Agora estamos voltando para nossa antiga cidade. Ficaremos numa pequena acomodação no mesmo quintal do meu sogro.
- Não está em muito bom estado, mas daremos um jeito. – ele afirmou.
Teresa ainda não sabe, mas quando for devolver o caminhão ao seu Francisco, não voltarei.
Não posso viver de favor ao pai dela. Quando saímos dali estávamos cheios de esperança e agora entrego a filha dele sofrida, com aquele olhar sem brilho, parecendo uma velha apesar de ainda não ter completado trinta e um anos.
Seu Francisco ficou de me arranjar qualquer coisa. O pai dela cuidará deles, não vai deixar a filha e os netos passarem fome. Como eu deixei.
Pronto, chegamos! O velho estava no portão. Abraçou Teresa, as crianças e mal me olhou. Sabia bem o que pensava. Eu era um incompetente sem capacidade de criar os meus. Também não falei nada. Não tinha o que falar.
Já na sala, vi minha mulher sorrindo como há muito não fazia. Recordações, acredito. Foi direto para a cozinha enquanto descarregávamos a mudança e quando terminamos, uma comida quentinha estava sobre a mesa.
Depois de lavarmos as mãos, sentamos e o velho começou:
- Sabe de uma coisa Pedro, estive pensando nesses anos todos em que vivi aqui sozinho cuidando do armarinho e da casa, sem a única filha que tenho e sem minha mulher que se foi cedo demais. Sempre quis os netos por perto, no entanto mal os vi crescer. Estou velho, cansado e preciso de ajuda na loja. Pensei que talvez você pudesse.
A mão de Teresa sobre a minha fez uma leve pressão. Levantei o rosto e vi no dela um brilho que a tornava mais jovem. Lembrei de quando nos conhecemos
Não sabia o que dizer. Tenho orgulho e não pretendo depender do sogro.
- Vou pensar.
Dois dias depois, no caminhão, ainda não havia dado uma resposta.
Despedi dos meninos e da mulher. Eles não imaginavam que talvez demorasse um bom tempo antes de nos vermos novamente.
Fazia a manobra para dobrar a esquina quando o pai de Teresa surgiu na minha frente.
Veio até a janela:
- Sei o que está na sua cabeça. Sou um velho chucro que só viveu no interior, mas também sou homem. Conheço nosso orgulho e onde ele pode nos levar. Não estou lhe oferecendo ajuda. Eu preciso que me ajude, pois estou cansado. Não faça o que está planejando. Coloquei no bolso de sua calça esta noite o dinheiro da passagem de volta. Não seja tonto. Sua mulher e seus filhos necessitam de você.
Em seguida deu-me as costas.
Durante o caminho de volta, mexi no bolso e veio-me um sorriso. Talvez não precisasse mesmo ficar longe da minha Teresa e dos garotos.