De volta para casa
candida 23/07/2015 12:44
De volta para casa Cândida Albernaz A viagem será longa. O caminhão pequeno que consegui emprestado com o dono da quitanda estava abarrotado de coisas. Os poucos móveis e utensílios da casa foram arrumados na carroceria de modo que ainda coubessem os dois meninos. Silas sentado numa ponta do colchonete e Serginho na outra. Eu dirigia sem falar. Ao lado, Teresa com o rosto virado para a janela, secava o canto dos olhos com os dedos tentando disfarçar as lágrimas que escorriam. Ontem cheguei a casa depois de ter procurado por emprego o dia todo. Na calçada em frente, minha mulher parada com um filho em cada mão teimava em fixar o chão. Em volta deles tudo o que antes mobiliava nossa residência. Sabia que seríamos despejados, mas pensei que conseguiria um novo emprego antes disso. Aproximei-me e avisei que passaria na mercearia para falar com seu Francisco. Voltei uma hora depois com o caminhão e comecei a colocar o que estava na rua dentro dele. Ficamos em um quarto que nos arrumou e no dia seguinte seguimos viagem. Teresa ligara para o pai. Nos últimos tempos não tínhamos muito que comer e a mulher de seu Francisco aparecia de vez em quando com alguma comida quentinha dizendo que “errei a mão outra vez fazendo uma quantidade exagerada e como não gosto de desperdício, trouxe para vocês”. Minha mulher agradecia e sempre procurava ajudá-la na limpeza da casa. Teresa era uma guerreira. Nunca disse isso a ela, não sou homem de afagos. Lecionava quando a conheci, mas depois que nos casamos não permiti que trabalhasse. - Mulher minha não trabalha. Tirei-a da casa dos pais aos dezoito anos. Quando tivemos nosso primeiro filho, o Silas, a mãe dela havia morrido há pouco e não teve quem a ajudasse. Ele não foi um bebê com muita saúde e ela precisou ficar noites e noites sem pregar o olho. Anos depois saímos da cidade em que nascemos. No início foi bom, porque consegui um trabalho onde ganhava bem e possuíamos um lugar ajeitado para morar. Um dia o patrão avisou que não precisaria mais de meu serviço porque um parente assumiria o lugar. Daí em diante nossa vida mudou. Nessa época nasceu Serginho. Foi um período ruim, até conseguir um novo emprego onde fiquei por quatro anos. Novamente fui dispensado e desta vez alegaram “contenção de despesa”. Muitos colegas saíram da firma no mesmo período. Nunca mais nossa vida foi a mesma. Pulei de emprego em emprego. Sempre a mesma história de contenção. Acho que é a palavra que mais odeio. Agora estamos voltando para nossa antiga cidade. Ficaremos numa pequena acomodação no mesmo quintal do meu sogro. - Não está em muito bom estado, mas daremos um jeito. – ele afirmou. Teresa ainda não sabe, mas quando for devolver o caminhão ao seu Francisco, não voltarei. Não posso viver de favor ao pai dela. Quando saímos dali estávamos cheios de esperança e agora entrego a filha dele sofrida, com aquele olhar sem brilho, parecendo uma velha apesar de ainda não ter completado trinta e um anos. Seu Francisco ficou de me arranjar qualquer coisa. O pai dela cuidará deles, não vai deixar a filha e os netos passarem fome. Como eu deixei. Pronto, chegamos! O velho estava no portão. Abraçou Teresa, as crianças e mal me olhou. Sabia bem o que pensava. Eu era um incompetente sem capacidade de criar os meus. Também não falei nada. Não tinha o que falar. Já na sala, vi minha mulher sorrindo como há muito não fazia. Recordações, acredito. Foi direto para a cozinha enquanto descarregávamos a mudança e quando terminamos, uma comida quentinha estava sobre a mesa. Depois de lavarmos as mãos, sentamos e o velho começou: - Sabe de uma coisa Pedro, estive pensando nesses anos todos em que vivi aqui sozinho cuidando do armarinho e da casa, sem a única filha que tenho e sem minha mulher que se foi cedo demais. Sempre quis os netos por perto, no entanto mal os vi crescer. Estou velho, cansado e preciso de ajuda na loja. Pensei que talvez você pudesse. A mão de Teresa sobre a minha fez uma leve pressão. Levantei o rosto e vi no dela um brilho que a tornava mais jovem. Lembrei de quando nos conhecemos Não sabia o que dizer. Tenho orgulho e não pretendo depender do sogro. - Vou pensar. Dois dias depois, no caminhão, ainda não havia dado uma resposta. Despedi dos meninos e da mulher. Eles não imaginavam que talvez demorasse um bom tempo antes de nos vermos novamente. Fazia a manobra para dobrar a esquina quando o pai de Teresa surgiu na minha frente. Veio até a janela: - Sei o que está na sua cabeça. Sou um velho chucro que só viveu no interior, mas também sou homem. Conheço nosso orgulho e onde ele pode nos levar. Não estou lhe oferecendo ajuda. Eu preciso que me ajude, pois estou cansado. Não faça o que está planejando. Coloquei no bolso de sua calça esta noite o dinheiro da passagem de volta. Não seja tonto. Sua mulher e seus filhos necessitam de você. Em seguida deu-me as costas. Durante o caminho de volta, mexi no bolso e veio-me um sorriso. Talvez não precisasse mesmo ficar longe da minha Teresa e dos garotos.    

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

    Sobre o autor

    Candida Albernaz

    [email protected]

    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

    BLOGS - MAIS LIDAS