Agora era jamais
candida 06/08/2015 17:43
Agora era jamais                                                                                                                               Cândida Albernaz Sentada no primeiro degrau da escada, abaixou o corpo para frente, deixando que a cabeça pendesse entre os joelhos. Não queria chorar. Escorrer lágrimas pelo rosto deixava-a irritada. Se não fosse por borrar a maquiagem, seria por ficar com os olhos inchados, o que detestava de qualquer forma. Passou a mão na calça retirando uma poeira inexistente e levantou. Subiu um, dois, trinta, quarenta degraus. Uma droga esse negócio de não ter elevador. Verdade que em um prédio de três andares não havia muita necessidade. Pensando bem, melhor assim, caso contrário o condomínio seria mais caro. Nem pensar em aumento de despesas. Esquecera que deixara a sala tão bagunçada. Calcinha sobre a mesa era um pouco demais. Mas fora por um bom motivo. Que se transformou numa péssima lembrança agora. Na cozinha ainda havia a sobra de um jantar de dois dias atrás. É isso que dá jogar tudo para cima e fingir que o mundo não existe. Começou lavando a louça suja. Deixaria secando enquanto tomava coragem para entrar no quarto. Caramba! Fizera uma desordem com suas coisas. E essa taça estilhaçada no chão? Recolher cacos não era o que mais gostava de fazer. Muito menos quando os de cristal vêm com porções suas. Estava acostumada. Não se acostumaria nunca. Nessa ventania interna, fragmentos seus também eram quebrados em pequenas partes fazendo cacos voarem sem rumo espalhando pedaços que não se colariam mais. Pelo menos foi vidro que se partiu, ao ser atirado longe na hora da raiva. Pior seria ter machucado a si própria. O que não deixou de acontecer de qualquer jeito. Depois de três anos decidiu! e dessa vez não voltaria atrás. Hora de seguir adiante sozinha. Mais uma vez. Quando descobriu que ele tivera um caso com outra mulher, tentou desistir, mas conversaram e apaixonada que estava, teve medo e achou covardia não dar nova chance ao que viviam. Continuava envolvida. Até mais do que antes. Mas não daria a cara para bater duas vezes. Agora era jamais. Não haveria volta ou nova conversa. Conhecia a garota, mas isso não era o mais importante. Nunca gostou de dividir. Não sabia também ela se dividir. Inteira ou nada. Nesse caso: nada. Ao lado da cama encontrou a foto que rasgara durante a discussão. Recolheu e abrindo a gaveta retirou algumas que mandara revelar. Todas para a mesma lixeira. Ainda encontraria restos do que viveram, mas não pretendia guardá-los e nem procurar por eles naquele momento. À proporção que se deparasse, um a um seriam afastados de sua visão. A blusa amarela, a sandália preta, a gravata que numa noite depois de uma festa, em que terminaram como sempre na cama, foi usada por eles, tudo junto na mesma sacola. Daria ao porteiro. Pareciam ter tamanhos iguais. Pronto! Quarto novamente do seu jeito. Arrumado, lençóis trocados, perfume levemente espalhado. Na mesinha, um retrato onde um sorriso estampava alegria numa viagem com amigos. Aliás, hora de ligar para algum deles. Quem sabe programar uma escapada para o fim de semana? Precisava rir e nada melhor do que com seus, em qualquer ocasião, aliados. Claro que ainda doeria por um bom tempo. Não seria fácil. Nunca o era. Mas se havia uma necessidade urgente, era fazer as pazes consigo mesma. Resolveu comprar flores. Sempre gostara de enfeitar a casa com flores. Do campo. Desceu a escada de dois em dois, como era mania. O sol estava forte, mas um vento gostoso bateu em seu rosto, jogando o cabelo para trás. Sorriu enquanto caminhava para a floricultura. Amava o vento, ele costumava sussurrar em seu ouvido o que precisava escutar. Aliás, gostava de vento, chuva, sol, frio ou calor.

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

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