Prédio histórico do Hotel Flávio é demolido na segunda-feira de Carnaval
Ingrid Silva e Rodrigo Gonçalves 12/02/2024 10:51 - Atualizado em 13/02/2024 10:37
Mais um patrimônio histórico de Campos deixa de existir no Centro. A Defesa Civil de Campos demoliu, nesta segunda-feira de Carnaval (12), o antigo Hotel Flávio, que estava interditado e teve sua parte interna destruída por um incêndio. A energia da região foi desligada para que fosse feito o trabalho. O orgão começou a demolição, aos poucos, de cima para baixo. O fim do prédio causa indignação, principalmente entre os defensores da história campista.
Em nota, a Prefeitura de Campos informou "que procedeu a demolição do antigo Hotel Flavio, por risco iminente de desmoronamento, risco à vida e também a toda parte elétrica do Centro, pois a estrutura cairia, inevitavelmente, sobre ela".
Segundo o subsecretário da Defesa Civil, major Edson Pessanha, aconteceu uma reunião entre o Conselho de Preservação do Patrimônio Histórico e Cultural de Campos (Coppam), e as secretarias da Defesa Civil e de Obras e Infraestrutura do município até chegar a essa decisão (veja o vídeo abaixo). A demolição deve ser de fato iniciada nesta tarde, já que foi necessário colocar caminhões de entulhos em uma área ao lado para que o braço da máquina consiga atingir o topo do prédio. Ainda segundo o major, o trabalho não termina todo nesta segunda, mas dever ser feito o suficiente para liberar a energia na área.
Genilson Pessanha
Na madrugada de 19 de novembro de 2022, um incêndio de grandes proporções atingiu o prédio. O fogo se espalhou rapidamente tomando os três andares do edifício e destruindo quase que completamente a estrutura do imóvel que é tombado pelo patrimônio histórico. Enquanto nada se resolvia, trecho da rua Carlos de Lacerda, bem no centro histórico e comercial, seguia interditado.

O prédio desativado foi tombado pelo Patrimônio Histórico, em 2013. Em abril do ano passado, houve uma tratativa do Coppam com herdeiros. O escoramento da fachada ficou marcado para acontecer em novembro também de 2023, mas nada foi feito. 


— Mais uma ruína que se acumula em uma cidade que não valoriza seu patrimônio por não ter conhecimento, e não tem conhecimento por não valorizar. São sucessivos governos que tiveram uma enormidade de recursos em caixa e nunca fizeram uma política pública séria em patrimônio histórico — lamentou o blogueiro do Folha1 e jornalista, Edmundo Siqueira, conhecedor e defensor do patrimônio de histórico de Campos.

De acordo com ele, a situação em que o hotel se encontrava era possível de recuperar a fachada e usar seu interior. “Mas demolir era mais fácil e um alívio para muitos. Talvez para a maioria. A decisão de demolir no Carnaval se justifica por diminuir o risco e os danos, e para quem passa por ali todos os dias também se fazia necessário uma solução para elementar esse risco (...) Para mudar essa realidade, e não perdermos todos os patrimônios que restam, é preciso muito, é muito tempo. Mas mudar a lógica do Coppam e criar uma política pública é emergencial. Tanto quanto era o Hotel Flávio", explica.
Também por nota, a Prefeitura afirmou que "os laudos da Defesa Civil e da secretaria de Obras embasaram a decisão técnica, pois já faz mais de 6 meses que a Prefeitura busca mediar uma solução amigável junto aos proprietários. A Prefeitura lamenta que tenha chegado a esse ponto e afirma que está fazendo os trabalhos em dia de feriado para que não cause ainda mais transtorno aos cidadãos que transitam pelo local e aos comerciantes do Centro".
A estudante de Arquitetura Luiza Souza Barbosa é uma das que foi acompanhar de perto o trabalho da Defesa Civil e viu com perplexidade o fim do prédio histórico.
— Eu acho uma vergonha, o descaso que a gente vê o poder público tendo com os patrimônios históricos da nossa cidade, porque a gente está virando uma cidade sem memória, sem história. E é mais triste ainda ver as pessoas aplaudindo e usando como desculpa a demolição. É só mais um ciclo que acontece na nossa cidade há anos, descaso com patrimônio, incêndio, aí fecha a rua e fala que é para o bem do comércio demolir porque vai abrir a rua. E acontece isso, a gente vai virar uma cidade cheia de caixas de metal igual, cheia de estacionamentos e sem história e sem memória. E existem possibilidades, por isso que é triste — comentou Luiza.
Outro que também viu com descontentamento a situação foi o arquiteto e urbanista Renato Siqueira.
— Episódio que se soma aos já lamentáveis assemelhados, que envolvem não só o descaso, que é notório, mas, a ausência de política pública de preservação do patrimônio histórico. O Museu Olavo Cardoso e o Solar dos Airizes, são possivelmente os mais prováveis a engrossarem a lista de baixas. O simples desconto no IPTU é insuficiente para sustentar investimentos que façam frente às necessidades da correta preservação. Este caso, embora com aparente embasamento técnico na decisão de demolição, alerta para a necessária e urgente regulamentação dos instrumentos de gestão previstos no Plano Diretor, como a Outorga Onerosa e a Transferência do Potencial Construtivo, de modo que não aumente a contabilidade negativa do ainda valioso patrimônio histórico da cidade — avaliou Siqueira.
O presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Campos, Genilson Soares, que também ocupa uma cadeira no Coppam, deixou claro sua indignação e tristeza, nesta segunda, segundo ele, com a ruína que está acontecendo com o patrimônio histórico de Campos. Visivelmente emocionado, ressaltou: "estou aqui presenciando a demolição de mais um prédio tombado pelo patrimônio histórico".
Genilson disse que a situação do imóvel se arrastava há muito tempo na justiça e, que, o Coppam já havia deliberado com os herdeiros. "O Coppamdeliberou que os proprietários se responsabilizem pelo imóvel e fizessem o escoramento. A segunda deliberação, era que se os proprietários não fizessem o escoramento, o município ia fazer o escoramento da fachada e cobrar dos proprietários esses serviços. Se omitiram (os herdeiros responsáveis), dizendo que não teriam dinheiro. Então caberia o que? A prefeitura fazer o escoramento e colocar eles na dívida ativa. Mas, pelo que vi, foi deliberado,fora com Conselho de Patrimônio, que seria feita a demolição", ressaltou.
 
Antes - Em agosto do ano passado, a Prefeitura de Campos informou que "o Coppam estava atuando pela conservação das partes remanescentes do imóvel, principalmente sua fachada". A nota havia ressaltado, ainda, que foram realizadas reuniões com a família proprietária do imóvel, dentre as quais o COPPAM determinou um prazo para a realização das obras de escoramento da fachada. “E, por último, em um trâmite interno realizado após o decurso do prazo definido, o governo está avaliando técnica e juridicamente a possibilidade de adoção de medidas para que as obras de escoramento sejam feitas pelo próprio poder público, com lançamento dos custos em dívida ativa, fazendo cumprir o disposto na Lei Municipal nº 8487/2013", concluiu.
Veja os vídeos:
 

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