Arthur Soffiati - Os manguezais da restinga de Paraíba do Sul: rio Guaxindiba
* Arthur Soffiati - Atualizado em 09/08/2023 09:11
Como se sabe, manguezal é um ecossistema intertropical constituído basicamente por plantas completas adaptadas a ambientes sujeitos às influências das marés. Geralmente ocorre em estuários, ou seja, no encontro de água do mar (salgada) com água do rio (doce), mas pode ocorrer também em praias com salinidade mais reduzida e energia amena.
Existem naturalmente cinco saídas de água doce para o mar na restinga de Paraíba do Sul: o rio Guaxindiba, o rio Paraíba do Sul, as lagoas de Gruçaí e Iquipari e o rio Iguaçu. Somente os rios Guaxindiba e Paraíba do Sul são independentes. As lagoas de Gruçaí e Iquipari integravam o grande delta do Paraíba do Sul, hoje reduzido aos braços de Atafona e Gargaú, mesmo assim com um deles sujeito à vedação pelo mar. A abertura do canal de Quitingute cortou a ligação do rio Paraíba do Sul com as duas lagoas. Com enchentes excepcionais, a ligação pode ser restabelecida, mas sempre de maneira insuficiente. Quanto ao rio Iguaçu, a abertura do canal da Flecha, ligando seu estirão inicial ao mar, transformou-o na lagoa do Açu. Em todos os cinco pontos, desenvolveram-se manguezais cujas dimensões e saúde dependem das condições em que se encontra o ecossistema hídrico.
O pequenino rio Guaxindiba nasce na zona serrana, nas adjacências de Morro do Coco, e corta uma área de tabuleiros. Durante a segunda fase do Holoceno, a partir de 5.100 anos antes do presente até a chegada dos portugueses, toda a região era coberta por mata estacional semidecidual. Os povos pioneiros encontravam nessa mata o alimento necessário à vida. O colonizador europeu entendia que essa cobertura florestal ocupava o espaço que poderia ser utilizado para lavouras e pastagens. Mesmo assim, ainda no século XIX, naturalistas europeus que por ela passaram descrevem sua beleza e a diversidade de sua fauna.
No trecho final, o rio Guaxindiba corta a ponta norte da restinga de Paraíba do Sul. A vegetação típica de restinga e manguezais ornava suas margens de forma mais pujante que atualmente. O mais antigo registro cartográfico conhecido do rio Guaxindiba foi feito por Manoel Martins do Couto Reis, em 1785 (COUTO REIS, Manoel Martins do. “Manuscritos de Manoel Martins do Couto Reis – 1785: Descrição geográfica, política e cronográfica do Distrito dos Campos Goitacazes”. Campos dos Goytacazes: Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima; Rio de Janeiro: Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro, 2011). Desde então, a bacia hídrica sofrerá quatro grandes impactos.
O primeiro deles foi o secular processo de remoção da floresta para abrir espaço a lavouras e pastos. A madeira de lei e a lenha eram usadas pelo proprietário rural ou vendida e escoada pelo canal de Cacimbas, construído no século XIX. Ele ligava o rio Paraíba do Sul à lagoa do Macabu, no Sertão das Cacimbas. Outro método muito comum era o uso do fogo, sacrificando a madeira nobre. A remoção da mata deixou o solo à mercê das intempéries. Chuvas e ventos provocaram erosão e o transporte de sedimentos para o leito dos rios formadores da bacia, o que gerou assoreamento. Exposto ao sol, o solo foi laterizado, ou seja, rachado. Da grande floresta, restaram alguns pequenos fragmentos, sendo o maior deles a conhecida Mata do Carvão, que acabou protegida pela Estação Ecológica Estadual de Guaxindiba recentemente.
O segundo impacto foi causado pelas barragens construídas por proprietários rurais para reter o que eles próprios contribuíram para esgotar: a água. O regime hídrico dos rios não é mais o mesmo. Até esses rios foram desviados de seu curso, transformando-se em pântanos. Com as chuvas torrenciais, contudo, eles voltam com força e se transformam em torrentes. As estradas municipais e estaduais também barram a bacia. A RJ 224 corta o Guaxindiba em vários dos seus afluentes. A RJ 196 — rodovia litorânea — seccionou o manguezal do rio Guaxindiba, obrigando-o a correr por estreita manilha tubular acima do nível das marés. Assim, a água do mar não alcança mais o fragmento do mangue situado a montante da estrada, submetendo-o a estresse permanente.
O terceiro impacto mutilou a bacia em seu trecho final. Um projeto do Departamento Nacional de Obras e Saneamento (DNOS) concebido para ligar a lagoa do Campelo ao mar, antes de sua foz, rasgou o canal Engenheiro Antonio Resende até o oceano no ponto da foz do Guaxindiba. Este rio passou, assim, a ser afluente do canal. Para drenar o brejo do Espiador, trecho alagado do Guaxindiba, o DNOS abriu o canal de Guaxindiba, que também deflui no canal Engenheiro Antonio Resende. Atualmente, muitos moradores do local consideram este canal como sendo o rio Guaxindiba.
O grande canal abriu espaço para o avanço do manguezal, que ganhou área para expandir-se. Ele entrou pouco no canal Guaxindiba, onde a dominância fica por conta da vegetação de restinga. Mas sinais de estresse aparecem no manguezal como um todo. Um deles é a emissão de raízes adventícias anômalas com pneumatóforos emergindo acima do nível d’água, ou seja, raízes anormais em plantas de mangue. Outro é o crescimento vertical de exemplares apinhados de mangue branco de forma retilínea. O barramento das marés que transportem sementes (propágulos) para outros pontos faz com que elas germinem de forma concentrada em área exígua e cresçam em busca do sol. É o resultado de uma grande competição.
O quarto impacto é causado pela urbanização desordenada de Guaxindiba e de Sossego, respectivamente, na margem esquerda e direita do complexo hídrico. Existem áreas do mangue com casas e ruas em seu interior. E não são casas de pessoas de baixa renda. No rio Guaxindiba, hoje restrito a um filete de água, há casas de alvenaria com dois pavimentos.
Mas também existem habitações de baixa renda, sobretudo na margem esquerda do canal Engenheiro Antonio Resende. Este foi aberto com fins de drenagem e estabilização da lâmina d’água da lagoa do Campelo para evitar oscilações. Ela é ligada ao rio Paraíba do Sul pelo canal do Vigário. O plano de estabilizar o leito da lagoa com os dois canais não apresentou o resultado pretendido, sobretudo pelas longas estiagens e por intervenções locais que não consideram o conjunto da obra, como barragens e aterros.
A areia retirada da restinga para a abertura do canal foi depositada na margem direita do mesmo, impedindo que o manguezal se expanda. Ele consegue chegar a seis quilômetros a montante da foz, mas se restringe a uma estreita franja. A urbanização está crescendo de forma acelerada e desordenada. Na margem esquerda do canal de Guaxindiba, ergue-se agora um loteamento.
Três espécies de mangue foram encontradas no complexo hídrico: mangue vermelho (“Rhizophora mangle”), siribeira (“Avicennia germinans”) e mangue branco (“Laguncularia racemosa”). A bióloga Gabriele Paiva Chagas encontrou também um exemplar de outra espécie de siribeira (“Avicennia schaueriana”). O Registro foi feito em sua monografia de graduação (“Estrutura e distribuição das espécies no manguezal do complexo rio Guaxindiba/canal Engenheiro Antonio Rezende, São Francisco de Itabapoana, RJ”. Campos dos Goytacazes: Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, 2011).
Uma das características da grande restinga de Paraíba do Sul é a acentuada salinidade natural, talvez pela falta de obstáculos pedregosos na costa e pelos ventos constantes e fortes. Trata-se de uma restinga nova (com cerca de 2 mil anos). Formada pelo mar e pelos rios, que atuaram como espigões hídricos, essa restinga ainda não foi intensamente lavada pelas chuvas. Por outro lado, obstáculos ao longo dos cursos d'água vêm sofrendo barramentos para reservação e transposição de água. Considere-se ainda que canais de acesso foram abertos em zonas arenosas, como os canais da Flecha, Engenheiro Antonio Resende e Guaxindiba, facilitando a penetração da língua salina numa costa de alta energia oceânica. Por fim, há que se considerar a elevação do nível do mar como efeito das mudanças climáticas antrópicas da atualidade.
As plantas de manguezal são tolerantes à salinidade desde que ela não seja muito elevada.
Legenda: 1- rio Guaxindiba original; 2- canal Engenheiro Antonio Resende; 3- canal Guaxindiba
Legenda: 1- rio Guaxindiba original; 2- canal Engenheiro Antonio Resende; 3- canal Guaxindiba / Foto: Divulgação
Rua no interior do manguezal do rio Guaxindiba separando as casas do mangue
Rua no interior do manguezal do rio Guaxindiba separando as casas do mangue / Foto: Divulgação
Canal Engenheiro Antonio Resende na maré baixa. Margem direita ocupada por mangue; margem esquerda ocupada por habitações de baixa renda
Canal Engenheiro Antonio Resende na maré baixa. Margem direita ocupada por mangue; margem esquerda ocupada por habitações de baixa renda / Foto: Divulgação

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