Inundação em Santo Eduardo: a tragédia que tem história
Antenora Siqueira, Adriana Dutra, Érica Tavares 27/03/2024 14:40 - Atualizado em 27/03/2024 15:07
Campos dos Goytacazes
Campos dos Goytacazes / Foto: Lenilson Werneck
Os desastres no norte e noroeste fluminense apresentam uma dinâmica diferente do que ocorre em outras regiões do estado, onde há enxurradas e deslizamentos de terra marcados por mortes e às vezes perdas totais de residências. Não ter vítimas fatais, na maior parte dos casos, é uma dimensão positiva do norte e noroeste, favorecidos por aspectos físicos em seu relevo que tornaram possível a formação das cidades em áreas planas, em especial no norte fluminense. É o caso de Campos dos Goytacazes, que tem seu território constituído sobre uma extensa planície. Apesar disso, os desastres relacionados à água acumulam um histórico de tempestades, com alagamentos, inundações e vendavais, que vêm sendo acompanhados há anos pelo Núcleo de Pesquisas e Estudos Socioambientais (Nesa) da Universidade Federal Fluminense (UFF), parceiro do INCT Observatório das Metrópoles.

Apesar da baixa ocorrência de mortes, os dados revelam que as perdas e danos humanos são devastadores em diversas localidades da região, como Ururaí, Morro do Coco, Três Vendas, Santo Eduardo etc. Nas ciências humanas e sociais, os desastres desse tipo geralmente são compreendidos como desastres do cotidiano ou desastres invisibilizados, uma vez que a atenção da sociedade e do poder público geralmente ocorre apenas durante ou logo após o acontecimento trágico.

A tragédia em Santo Eduardo, que teve seu ápice entre os dias 22 e 23 de março de 2024, foi anunciada pelos órgãos federais e estaduais durante os dias anteriores de modo bem genérico para regiões de três estados do sudeste, entre eles o estado do Rio de Janeiro. Mas esse distrito do extremo norte de Campos, situado na divisa com o estado do Espírito Santo, apresenta um histórico expressivo de perdas, danos e demandas não atendidas que aprofundam os impactos das chuvas. O Observatório dos Desastres Ambientais do Norte Fluminense (ODAm), a partir de extensa pesquisa realizada na localidade entre 2020 e 2023, envolvendo levantamento de dados, aplicação de questionários e entrevistas com a população, mostra que houve inundações nos anos de 1975, 1985, 1997, 2005, 2006, 2009 e 2023.
Santo Eduardo corresponde, na divisão territorial do município, a um distrito específico. Sua sede, a cerca de 70 km do Centro de Campos, é a mais distante da área central. No levantamento do Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) da Prefeitura de Campos de 2018, foram computados 1.150 imóveis residenciais. No ano de 2022, em pesquisa realizada pelo NESA/UFF, foram entrevistadas 54 famílias (envolvendo 150 pessoas) da rua principal (considerada o centro local) e das áreas conhecidas como Departamento, Rua da Lama, São Sebastião e 69. Nessa pesquisa, a população reconheceu a relação entre as inundações e problemas como a falta ou insuficiência de infraestrutura de saneamento ambiental (esgoto, drenagem, destinação de resíduos sólidos), assoreamento do ribeirão Santo Eduardo, dentre outros, como as chuvas e vendavais extremos em curto espaço de tempo. Além disso, a comunidade atribuiu responsabilidades sobre a ocorrência dos desastres, em primeiro lugar, à ausência de atuação do poder público, em seguida às causas naturais e, em terceiro lugar, às ações da população local.
Os moradores entrevistados em 2022 também informaram que, em geral, não identificam a atuação de profissionais do poder público para busca de soluções relativas aos problemas estruturais das inundações. Quando essa atuação ocorre, os serviços são de caráter emergencial durante ou logo após as inundações, considerados insuficientes, restritos à doação de gêneros de primeira necessidade (que são importantes), limpeza e drenagem. Quanto aos danos vivenciados pelas famílias, as principais perdas com as inundações são de móveis, utensílios domésticos e veículos, assim como prejuízos nos imóveis – casas, estabelecimentos comerciais, propriedades etc. Também foram relatadas perdas de objetos afetivos, instrumentos de trabalho e documentos. Alguns respondentes informaram que a ocorrência das inundações provocou problemas de saúde física e/ou emocional nos membros das famílias.
As medidas efetivas para lidar com as decorrências das inundações já pesquisadas acabam ficando restritas ao âmbito da família e ao apoio de vizinhos e parentes, como pequenas obras e reparos na casa, edificação de muros, contenção no portão, construção em andar superior, escada etc.
Sobre a avaliação dos serviços públicos na localidade àquela época, a principal demanda da população entrevistada nas áreas de ocorrência de inundação foram os serviços de saneamento básico relacionados a esgoto, abastecimento de água, coleta de lixo e drenagem. Ações de limpeza urbana, como a manutenção das margens e fundo do ribeirão Santo Eduardo, que corta a localidade, também foram apresentadas como urgentes.
É preciso pontuar que, apesar das recorrentes perdas, a percepção sobre estar em uma área de risco é bem variada e polêmica. Há os que compreendem estarem em uma área de risco, enquanto outros não. Em geral, a alteração de percepção está relacionada com a proximidade de suas moradias ao ribeirão e situações pretéritas de inundações que tenham atingido as residências. Em ambos os casos, observa-se uma forte vinculação dos moradores a Santo Eduardo, os quais reivindicam condições de permanência no lugar em que cresceram, formaram laços de amizade, constituíram suas famílias e com o qual possuem grande identificação.
O que aconteceu nos anos anteriores está sendo evidenciado em maiores proporções na inundação deste penúltimo final de semana de março de 2024, ainda a ser estudada com maior detalhe. A magnitude dessa inundação recente realmente não parece ter precedente na história local, uma vez que atingiu praticamente toda a localidade, conforme observações que fizemos e segundo relatos dos próprios moradores. A água atingiu o teto de algumas residências e algumas pessoas foram resgatadas pelo telhado. Apesar disso, em várias entrevistas realizadas antes dessa última inundação, os residentes já relataram que se sentem abandonados pelo poder público, como registrado no documentário “Esquecidos”, elaborado entre 2020 e 2021, que pode ser conferido aqui.
A vinculação afetiva com Santo Eduardo aparece atravessada pelas reclamações dos moradores, que muitas vezes acabam recorrendo a outros municípios por não encontrarem no seu território os serviços necessários para atendimento de suas demandas. Santo Eduardo atualmente não conta com Núcleo de Proteção e Defesa Civil, desativado há mais de dez anos, tampouco com qualquer equipamento da assistência social. Vale lembrar que defesa civil e assistência social constituem políticas públicas primordiais para o atendimento em situações de desastres.
A população local tem um histórico de luta pelos bens coletivos desse espaço de vida e trabalho, onde quem saiu mantem vínculos com o lugar e os que moram querem permanecer. Que essa última tragédia, tanto pela sua magnitude como pelo histórico de suas origens, motive canais de diálogo e ação permanente entre moradores e governos para que haja a resolução dos problemas estruturais que intensificam as consequências dos desastres.


Antenora Siqueira é professora da UFF Campos, pesquisadora do PPGDAP e do Núcleo de Pesquisas e Estudos Socioambientais (NESA), coordena o ODAm-Observatório dos Desastres Ambientais

Adriana Dutra é professora da UFF Campos, pesquisadora do PPGPS e do Núcleo de Pesquisas e Estudos Socioambientais (NESA)

Érica Tavares é professora da UFF Campos, pesquisadora do PPGDAP, do Núcleo de Pesquisas e Estudos Socioambientais (NESA) e do INCT Observatório das Metrópoles

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