Férias frustradas do Homem-Aranha
- Atualizado em 08/07/2019 19:16
(Homem Aranha: Longe de casa) —
A curiosidade sobre os novos rumos da Marvel após o catártico “Vingadores Ultimato” é grande. O que fazer depois de um plano tão ambicioso e extremamente bem-sucedido? “Homem-Aranha: Longe de casa” poderia trazer algumas pistas do que vem por aí.
O novo filme do amigão da vizinhança foi vendido como a última parte da saga mencionada, praticamente um epílogo. Uma decisão que me parece equivocada, e infelizmente, essa é somente uma delas em um longa sem personalidade, que traz o personagem em uma situação diferente e não consegue explorar essas possibilidades, ao mesmo tempo que carece demais do passado recente do estúdio.
Na trama, após a volta dos blipados (termo terrível dado às pessoas que desapareceram e retornaram após o estalar de dedos), as coisas começam a se acertar, sem maiores consequências, e o jovem Peter Parker e seus amigos vão sair em viagem pela Europa em uma excursão escolar. No Velho Continente, começam a surgir criaturas elementais, causando vários estragos. Eis que Nick Fury surge a um novo herói, chamado Mystério, e, juntos, eles precisam deter essa nova e misteriosa ameaça.
A ideia de tirar o autoproclamado amigão da vizinhança de seu território já não é uma das mais felizes, mas traz uma série de possibilidades que poderiam dar um novo ar ao personagem, ou pelo menos a essa aventura, ao no mínimo construir uma narrativa diferente, visto que o personagem é muito atrelado a Nova York. Não é o que acontece.
O roteiro escrito por Chris McKenna e Erik Sommers, mesma dupla responsável pelo longa anterior do personagem, traz todos os mesmos elementos do longa anterior. Tem o protagonista tentando conquistar uma garota, viagem escolar, ele precisando lidar com algo muito maior e a presença exagerada do Homem de Ferro (mesmo após os eventos do último filme, o personagem, de várias maneiras, permeia todo o longa).
O filme tenta internacionalizar o personagem, mas acaba funcionando como um “guia de viagens” ruim, em que a escolha por essa trama nunca se justifica. Principalmente na primeira metade, o filme é construído basicamente por diversas coincidências convenientes que, após uma revelação no meio da história, começam a fazer algum sentido, mas não tornam tudo menos cansativo.
As cenas de ação, em sua maioria, carecem de criatividade. Os seres elementais são uma ideia extremamente preguiçosa, os rumos da trama justificam mais problemas do que desenvolvem os personagens. A cena seguinte após a já mencionada revelação é de dar vergonha, não condiz com a forma sutil com que a Marvel vem trabalhando seus personagens. É um texto extremamente expositivo onde, ao final, só falta mesmo a gargalhada maligna do vilão.
Mystério, nos quadrinhos, sempre foi um péssimo personagem, fato que nunca impediu a Marvel de criar contrapartes cinematográficas interessantes e, mesmo com um excelente ator como Jake Gyllenhaal, as motivações do personagem e o texto não permitem que nos identifiquemos de nenhuma forma com ele. Até mesmo o visual cafona do vilão (merece destaque o figurino, que conseguiu atenuar o visual sem descaracterizar o personagem) é deixado de lado no ato final.
De destaque, ficam o elenco e principalmente a interação dos atores principais no elenco juvenil. Tom Holland, mais uma vez, se mostra um Peter Parker muito interessante. Ele consegue reproduzir (com as devidas modernizações) o espírito do personagem, principalmente do início, lá da década de 1960. Mesmo que o humor não funcione como no filme anterior (muito devido ao texto), o filme é eficiente em amadurecer um pouco mais o personagem, um elemento importante para o seu papel futuro dentro ou não da Marvel.
Outro destaque é Zendaya, que ganha consideravelmente mais espaço nesse filme. Não é uma personagem fácil, pois sua personalidade vai contra ser simpática, mas a atriz consegue conquistar o público com seu jeito diferente, e a química com Holland faz das cenas do casal parte bem agradável do filme.
Vale menção também às cenas de ilusão imersivas criadas pelo vilão contra o protagonista. Mesmo que pareçam ter saído diretamente de um jogo de vídeo-game, são criativas e intensas, sendo a primeira delas a melhor cena do longa.
“Homem-Aranha: Longe de casa” é um filme dispensável, que não agrega muito ao personagem e tem em sua primeira cena pós-crédito o seu momento mais marcante, característica que só reafirma os diversos problemas do longa. É realmente uma pena acompanhar um personagem tão querido em uma aventura tão carente de personalidade, ainda mais depois da excelente animação “Aranhaverso”, fator que enfraquece ainda mais a experiência.

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