Alguém vai ajudar
21/01/2017 | 18h44
Alguém vai ajudar
Cândida Albernaz
Minha filha olha essa água entrando por baixo da porta. Pega logo o saco de areia. Ai meu Deus, não quero morrer afogada.
E eu que nem posso ajudar. Entrevada nessa cama há tantos anos. Por que as pernas não me obedecem mais?
A bacia daqui do quarto está cheia e vai transbordar. Joga fora essa água. Tantas vezes ficamos sem uma gota em casa para preparar a comida ou lavar a roupa. E agora esse esbanjamento. Quando foi que pensei que ia mandar jogar água fora? Lembra daquela semana em que você andava até o poço na outra rua e enfrentava uma fila danada, só para conseguir um balde? E precisava durar bastante. Sempre gostei de ser limpinha e tive que ficar sem banho por três dias, só lavando “as partes”.
A goteira agora está em cima do rádio. Tenho pena de você, agindo tudo sozinha e eu aqui sem prestar para nada.
E essa chuva que não pára. Vou rezar mais uma vez, porque é só o que posso fazer.
Pede ajuda ao vizinho. Ele é forte e empurra o fogão e a geladeira para um lugar mais seguro.
Do jeito que está entrando água, vamos perder tudo. Não fica aí parada me olhando. Ele não está mais em casa? E os outros? Será que se esqueceram de nós?
A água está chegando perto do colchão. Não tem jeito, sai e pede ajuda. Vai logo, porque eu não queria falar, mas estou com um medo danado. Chora não, filha. Anda logo e volta com alguém.
Preciso que me carreguem. Nunca odiei tanto as minhas pernas. Sabia que já foram bonitas? Seu pai se encantou por elas. Dizia que na nossa área não existiam mais perfeitas. E não é para me gabar, mas ele tinha razão. Usava uns vestidos curtos, não iguais aos de hoje, que são uma indecência, mas o suficiente para que aparecessem os joelhos. Agora estão mortas, arriadas nessa cama, finas e sem forma.
Desculpe filha, você precisando ir e eu falando do passado.
Não, nem pense em tentar me levar sem ajuda porque você não aguenta.
Vai logo que já estou sentindo o colchão molhado. Não fique preocupada em me deixar sozinha. Isso não vai adiantar. Corre o mais rápido que puder e volte logo.
Ajude minha filha, Senhor, que nós não merecemos passar por isso. Nunca fiz mal a ninguém, e nem ela, coitada. Nem mesmo se casou, para tomar contar de mim. Coração bom está ali. Ela está com medo que não dê tempo de me tirarem daqui. Eu também, Senhor, mas vou encontrar força se for preciso.
Já me arrastei para a cabeceira da cama, mas não adianta, a água subiu ainda mais. Minhas pernas imprestáveis já estão cobertas. Está gelada e começo a sentir frio. Vou fechar os olhos que não quero nem ver.
O que é isso? Soltem. É muita mão me puxando.
Filha, você conseguiu. Obrigada por estar comigo.
Perdemos tudo, meu Deus.
Não chora meu amor. Deus vai ajudar a gente. Não sei como, mas vai.
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Conversa vai, conversa vem
21/01/2017 | 18h44
Conversa vai, conversa vem
Cândida Albernaz
- Cheguei mais cedo ontem e estava aquela bagunça!
- Pelo que sei sua mulher sempre foi cuidadosa.
- Isso mesmo, foi! Agora vive exausta, diz que jogo tudo em suas costas.
- E é lógico que você não faz isso...
- E não faço mesmo. Pago alguém para ajudá-la.
- Mas agora vocês têm um filho, dá mais trabalho.
- Ele é a minha cara! Precisa ver dando risada.
- Conheço seu menino. Parece muito com você.
- Sangue forte o meu. Semana passada comprei uma bola e a roupa completa do time para ele.
- Não acha que é muito pequeno para isso?
- Que nada. É para ir se acostumando. Você sabe que minha sogra é fanática por futebol.
- Sei.
- E o time dela não é o mesmo meu.
- Sei, sei.
- Então, ela está sempre lá em casa, e se resolver fazer a cabeça do meu filho?
- Ele tem seis meses.
- Tem que saber o que é bom desde pequeno.
- Você deve estar certo...
- O que foi? Estou falando demais?
- Nem tanto.
-Você também acha que eu colaboro para ela ficar cansada. Porque vive assim.
- Eu só acho que você deveria entender melhor o que acontece com ela.
- Entender que quero sair e está cansada. Quero que me dê atenção e continua cansada, quero... você sabe, cansada de novo!
- Por que não contrata uma babá?
- Para quê? Ela não faz nada o dia inteiro, apenas cuida do bebê.
- De qual dos bebês você fala?
- Como assim? Só temos um.
- Não sei, não.
- O que quer dizer?
- Quero dizer que você é o outro. Reclama se suas roupas não estão em ordem, discute porque o almoço não ficou bom, mesmo que tenha acontecido uma única vez em um mês, passa o dedo nos móveis para ver se tem poeira, que eu sei...
- Você está exagerando.
- ...briga porque quer assistir ao jogo na TV e seu filho está chorando...
- Com relação a isso, não tem conversa.
- ...enche a casa de amigos no fim de semana e bebem até não aguentar...
- Ei! O que está havendo? Está falando igual a ela.
- Mas se é assim que você é.
- Não falo mais nada para você. Desabafei e olha aí no que deu. Resolveu jogar na minha cara.
- Não estou jogando nada. Estou defendendo sua mulher.
- Você tinha que estar do meu lado e não do dela.
- Não estou do lado de ninguém, mas é um marido chato. Exigente, egoísta e resmungão.
- Eu sou resmungão? Está me chamando de velho?
- Por dentro é um pouco.
- Se eu sou tudo isso que falou, porque estamos aqui?
- Era para ficarmos juntos, mas falou tanto sobre sua vida em casa, que agora preciso ir embora.
- Nossa! São duas horas.
- Meu horário de almoço terminou.
- Calma, não posso ir embora com essa saudade de você.
- Mas vai.
- Temos tempo.
- Coisa nenhuma. Nem tempo e nem vontade mais.
- Só porque falei um pouquinho.
- Acho que precisa de um analista.
- Eu? Não seja boba. Preciso de você. Está se arrumando?
- Colocando a sandália.
- Está zangada?
- Zangada? Não.
- Então por que essa carinha?
- Estou cansada, como sua mulher.
- Olha, não vem não.
- E nem filho tenho.
- Não diz isso.
- Acerte logo essa conta. E vamos combinar uma coisa.
- Amanhã?
- Nada disso. Vamos combinar que vai pagar uma babá para sua mulher, fazer uma viagem só os dois, ajudar com o filho de vocês, e em vez de colocar aquele bando de folgados em sua casa no fim de semana, alugar um filme e assistir com ela bebendo um vinho ou o que preferir.
- Você não me quer. É isso?
- Quero que resolva os problemas que tem em casa. E só me procure depois disso.
- Quer que eu fique bem com minha mulher?
- Quero você com a cabeça tranquila. Caso contrário, acabo me tornando sua mulher e não a “namorada”.
- Nem um beijo?
- Um só que é para lembrar que vale a pena se esforçar.
- Vou ligar para você.
- Só depois ...
- Ligo semana que vem...
17/5/2011
Não gosto de ser contrariado
21/01/2017 | 18h44
Não gosto de ser contrariado
Cândida Albernaz
Aqui onde moro, cidade pequena, o tempo parece passar de forma mais lenta. Eu costumo ocupar o meu com um copo ou outro de cachaça.
Perdi o emprego de novo. Ainda bem que não me casei, caso contrário, estaria ouvindo ladainha de mulher. Aliás, quando preciso de uma, pago o mais barato que consigo e tenho o que quero.
Sou baixo, franzino, com cabelos pretos e ralos e com aparência de muito mais velho.
Minha mãe, com quem eu morava, morreu há pouco menos de um ano, coração fraco. Tinha paciência comigo. Praticamente era obrigada a isso, ou podia me zangar de verdade. De vez em quando descontava nela a minha raiva.
Hoje não tenho amigos, foram se afastando aos poucos.
O primeiro que perdi, tive uma parcela de culpa.
Estávamos no bar e notei que não tinha dinheiro para mais nenhuma. Pedi que pagasse uma dose para mim, não se incomodou e me ofereceu. Quando pedi a quinta, resolveu me dar uma lição de moral e disse que eu deveria procurar trabalho para sustentar o vício. Sorri e não insisti. À nossa volta, alguns deram risada, o que fez com que ele prolongasse um pouco mais seu discurso. Saímos do bar abraçados.
No dia seguinte meu amigo foi encontrado morto, com vários cortes profundos de faca. Fui preso, mas nunca provaram nada. As pessoas passaram a me olhar com mais respeito.
É engraçado como a gente toma gosto pela coisa.
Mais dois caras foram encontrados mortos da mesma forma em lugares diferentes. Disseram que me viram pedindo cigarro a um deles e o sujeito na hora, me mandou comprá-los. Três dias depois apareceu o corpo. Ninguém descobriu quem foi.
Percebi que tenho um problema sério ao ser contrariado.
Quem me conhece sem beber, vê logo que sou um homem de pouca fala e sorriso aberto. Gosto de ajudar quando precisam e trabalho com vontade.
O problema todo tá na danada da bebida. Reconheço, mas não paro. Tentei algumas vezes. Aliás, desde que minha mãe se foi, não coloco um gole na boca.
Na mesma semana em que ela teve o ataque de coração, vi que chorava enquanto lavava uma camisa minha manchada de vermelho. Eu disse que era vinho vagabundo, mas me olhou com olhos de quem sabe a verdade.
Não me acho ruim, a cachaça é que me arrebenta. Passei hoje à tarde na casa de uma tia. Ela e os filhos lanchavam. Viram-me e ficaram quietos quando entrei. Nenhum deles se lembrou de me oferecer um café. Peguei eu mesmo a garrafa e me servi. Estava quente e forte, como eu gosto.
Aproximei-me da tia e beijei sua testa. Notei que ficou tensa na hora. Um primo puxou meu braço e me abraçando, me levou até a porta. Entendi que estava incomodando.
Saí andando. O bar do outro lado da rua acendeu as luzes. Qualquer dia desses volto a me sentar num deles. Talvez amanhã. E se fosse até lá agora? Só um pouquinho?
Sabe que te amo
21/01/2017 | 18h44
Sabe que te amo
Cândida Albernaz
As coisas estão no lugar, do jeito que gosta. Detesta poeira, desordem ou portas abertas. Demorou para que a mulher aprendesse isso.
Acordou cedo como em todos os dias, mas permitiu que ela dormisse um pouco mais. Não é sempre que age assim. Prefere que ela acorde antes dele e deixe o café pronto. Tem um defeito, detesta esperar. Precisar falar duas vezes a mesma coisa também não aceita. Um tanto impaciente, reconhece.
Foi mimada pelos pais e não se esforça muito. Apenas cuida dele e da casa e nem assim faz o que pede direito.
Há dois dias quando chegou do trabalho mais cedo do que o costume encontrou-a no telefone com a mãe, segundo ela afirmou. Ainda conseguiu ouvir “não aguento mais, estou com medo”. Pensou continuar escutando, mas a mulher notou sua presença e se despediu dizendo que ligava depois. Ligar depois por quê? Não aguentava mais o quê? E aquela ligação quem ia pagar? Não era ele? Se era com a mãe que falava por que desligou quando viu que ele chegou? O que estava escondendo dele?
Ajudou a mulher a se levantar quando viu que depois do soco, caiu batendo o rosto na ponta da mesa. Sangrava na altura da sobrancelha.
Tirou a camisa e tentou estancar o sangue, mas ela afastou sua mão. Não queria auxílio. Não compreendia que se preocupava e que nunca quis machucá-la.
Só não suportava erros. Admitia que algumas vezes exigia demais, mas sabia pedir desculpas. Não era tão orgulhoso.
Na mesma noite quando sentaram para jantar, enquanto o servia, ela falou de forma suave e baixinho que ele devia procurar um médico. Disse que estava sempre nervoso e isso podia fazer mal. Olhou dentro do olho dela quando puxou seu rosto para perto do dele e explicou que o dia hoje havia sido difícil. Ela não compreendia porque não fazia nada. Nem filhos tinham porque quando engravidou há alguns anos, perdeu o bebê, teve uma infecção e foi obrigada a retirar o útero. Não poderia mais dar filhos para ele que sempre sonhou ser pai de dois garotos. Não era sua a culpa daquela casa vazia, e sim, dela. Soltou o rosto que mantivera seguro entre as mãos. A mulher abaixou a cabeça e comeu quieta o frango que preparou.
Perguntou se o corte estava doendo, quer que pegue um analgésico para você? Respondeu que não, mas foi buscar e deu a ela com um copo de água que tomou o remédio e agradeceu.
Gosta quando entende que tudo o que faz é para o bem dela. Precisou ensinar, porque quando solteira, não fazia nada em casa. Tinha empregados! Hoje não necessitavam de gente estranha à volta deles, era tão pouco o que fazer. As roupas, por exemplo, lavavam fora. Ele levava e pegava na lavanderia. Para poupá-la.
Sabia que talvez estivesse mais irritado ultimamente. Os negócios não iam muito bem. Verdade que semana passada, não se aguentou quando viu a porcaria de almoço que a mulher havia feito. Quando reclamou, ela quis discutir dizendo que colocara menos sal por que ele pedira, e que por isso a comida ficou sem gosto. Colocou aquilo para comer e tentou convencê-lo de que a culpa era dele. Sua reação foi rápida e o tapa atingiu o lado direito do rosto. Levantou e começou a gritar como uma louca, que não suportava mais viver daquele jeito. Ele perdeu a cabeça e com a faca que estava sobre a mesa, avançou. Não pensou realmente em ferir, mas ela suspendeu o braço e o rasgo foi feio. O sangue não estancava e precisou ir para o hospital, onde levou alguns pontos. No carro voltando, prometeu que não a magoaria mais.
Resolveu ir até o quarto para saber se ela havia acordado. Viu que ainda mantinha os olhos fechados. No lençol que a cobria, a mancha aumentou. Não se recordava de como a briga na noite anterior começou. Só lembrava a voz dela repetindo que ia embora. No dia seguinte a mãe estaria ali para buscá-la. A mala estava pronta e escondida. Não ia falar nada, mas não o suportava mais. Tinha nojo dele!, nojo dele!, nojo dele! Aquela tesoura tão próxima...
A campainha tocou. Pensou em abrir a porta, mas não conseguia se mover. Precisava que o desculpasse, afinal, como poderia viver sem ela?
2-5-2011
A melhor parte em escrever é poder criar tantas vidas diferentes da sua como se estivesse dentro de cada uma delas.
21/01/2017 | 18h44
Como tantas outras afinal
21/01/2017 | 18h44
Como tantas outras afinal
Cândida Albernaz
Ela entrou no restaurante e olhou em volta escolhendo a mesa. Apesar de cheio àquela hora, havia uma próxima à janela. Poderia olhar a agitação da rua enquanto esperava o pedido. Dirigiu-se até lá.
Ele pôde observar que tinha pernas bonitas quando ao andar, o vestido que usava movia deixando à mostra parte do início das coxas. Os ombros quase nus, cobertos apenas por duas alças finas revelavam a pele muito clara.
Sentando, escolheu uma taça de vinho tinto que chegou acompanhado de pães e azeite.
Notou que ela fitava algum ponto do lado de fora e mal piscava.
Viu quando mergulhou um pedaço de pão, depois de retirado o miolo, no azeite que despejara no prato. Parecia sentir cada movimento lento que fazia com a boca.
Virou-se e pegando a bolsa que estava na cadeira ao lado, recolheu um papel amassado de dentro dela. Talvez pela quantidade de vezes que lera e desistira de jogar fora. Colocou diante de si e à proporção que seus olhos se moviam, enchiam também de lágrimas. Retornou para onde o pegara como se fosse um lixo qualquer. Disfarçou e usou o guardanapo que estava no colo para secar o canto dos olhos e impedir que escorresse pelo rosto.
Costumava frequentar aquele lugar e era a primeira vez que a via. Sempre almoçava sozinho e habituara-se a escolher alguém para analisar e tirar suas conclusões.
Aquela mulher em especial chamou sua atenção porque era bonita, vestia-se bem, e trazia estampado algo como se estivesse confusa. Não demonstrava tristeza, apesar das poucas lágrimas há pouco. Lembrava alguém que tinha perguntas e procurava respostas.
O celular tocou e atendeu com uma voz baixa. Apesar da proximidade das mesas, não conseguiu escutar mais do que “não me sinto capaz” ou “ você sempre soube”.
Teve vontade de saber mais, conhecer, escutar o que ela tinha para dizer, ajudar a esclarecer, mostrar um caminho que não a deixasse com essa expressão inquieta.
Sua comida chegou e a dela em seguida.
Verificou que o papel estava em cima da mesa. Desviou a atenção enquanto se servia e ela deve ter pego então.
Entre uma garfada e outra, ela alisava a pequena folha e lia, o que tinha certeza, estava decorado. Voltou a falar ao celular e sua voz agora não soava mais tão baixa. “Tomei uma decisão...não, não precisamos... não pretendo mudar de idéia...”. Desligou e chamando o garçom, pediu a conta.
Fez o mesmo.
Ela pagou e antes de levantar, ergueu a folha mais uma vez. Parecia que ia colocá-la na bolsa, mas desistiu. Segurando com as duas mãos, rasgou em três pedaços, apertou entre os dedos, jogou sobre a mesa e saiu. Sua face não remetia a qualquer sentimento de confusão. Ao contrário, mostrava serenidade mesclada com firmeza.
Ele viu que o rapaz voltava para limpar ou trocar a toalha. Levantou e pegou rapidamente as tiras emboladas que ela deixou.
Na rua juntou os pedaços:
Sei que prometi ficar com você e isso vai acontecer um dia, mas não nesse momento. Não posso deixá-la porque ela ainda precisa de mim. Nós estamos juntos há três anos e preciso de você. Te amo.
Sorriu ao ler. Mais uma história como tantas outras afinal.
Precisava andar rápido. Demorara mais do que pretendia no almoço. Culpa da mulher bonita que chamara sua atenção. Tinha um compromisso e estava atrasado. Se queria ver Denise, tinha que ser naquele horário. À noite, sua mulher o estaria esperando.
Jogou aquele bilhete remendado na primeira lixeira que encontrou.
Acendeu um cigarro, vício que o perseguia, e apressou o passo.
Tive escolha
21/01/2017 | 18h44
Tive escolha
Cândida Albernaz
Havia acabado de fazer dezessete anos quando entrou na pequena igreja vestida de noiva. O homem que estava ao lado e colocava uma aliança em seu dedo era muito mais velho. Alto, com uma barriga que cobria o cinto da calça que usava, uma calvície acentuada e trinta anos mais do que ela.
Os pais conseguiram convencê-la a se casar com seu Osvaldo.
Nasceu naquela fazenda, como os cinco irmãos. Moravam numa das casas construídas para os empregados. Recordava uma infância divertida, onde montava em cavalos, apenas os que o patrão permitia que fossem usados por eles, mergulhava num lago da propriedade e corria livre por entre os pastos.
Seu Osvaldo era casado, tinha dois filhos e perdeu a mulher para um câncer que tomara conta de seus ossos. Seus pais contavam que ela sofreu muito e ele também, vendo a mulher definhar daquele jeito.
No dia em que foi até a sede levar uma camisa que a mãe prendera alguns botões, é que notou um olhar diferente vindo daquele senhor.
Estava na cozinha comendo uma fatia de bolo de milho e conversava com Clotilde, a cozinheira, quando ele entrou querendo café. Sentou na cadeira em frente à dela, que tentou levantar pedindo licença. Disse que precisava ir. Sentiu que reparou nela e teve medo. Sua mãe dizia que as mulheres têm instinto. O seu afirmava que deveria se afastar dali.
Dias depois ele apareceu procurando o pai. Os dois saíram juntos, mas não antes de pedir um cafezinho. Entregou a xícara na mão dele, que aproveitou para apertar seus dedos contra os dela.
Em seis meses estava casada com o patrão dos pais. Sua família mudou-se para uma casa maior e com salário melhor. Um acordo foi feito entre eles e ela aceitou. Havia também o irmão mais novo que precisava de cuidados especiais, o que foi prontamente oferecido por seu Osvaldo. Necessitava se submeter a uma cirurgia no pé direito e usar um aparelho durante alguns anos. Coisa cara se quisessem ter sucesso. O bom homem que era seu Osvaldo pagou para que ele fosse atendido por um especialista e comprou tudo o que precisava. Todos estavam agradecidos, inclusive ela.
Os problemas só começaram depois que a porta do quarto da casa principal foi fechada.
Nunca conseguiu gostar daquele homem sem paciência alguma. Grosseiro e exigente costumava impor suas vontades.
Um ano depois, quando o primeiro dos nove filhos que tiveram nasceu, sentiu-se melhor. Agora havia alguém para amar.
Mesmo sendo gerado com violência, porque se recusara a se entregar e ele parecia ter satisfação em provocá-la para que reagisse, aquele menino fez com que sorrisse inúmeras vezes. Enquanto cuidava das crianças, conseguia se esquecer das noites em que era obrigada a se sujeitar àquele homem que a machucava e violentava por puro prazer.
Após alguns anos e alguns filhos, deixou de lutar. Apesar de com isso ele ter se tornado ainda mais agressivo, fechava os olhos e praticamente sem se mover, cedia.
Estavam crescidos, uns casados e outros que ainda moravam com ela. Os pais já não existiam mais e via os irmãos raramente, a não ser o caçula que continuou vivendo ali.
Mal reparou que os cabelos brancos cobriam parte de sua cabeça e as rugas desenhavam seu rosto. Não possuía vaidade alguma.
Com o passar do tempo, Osvaldo como enfim aprendera a chamá-lo, deixou de ter o mesmo vigor. Ainda era forte apesar da idade e acreditava que com a saúde que tinha, ela iria antes dele.
Habituara-se a não lamentar e podia dizer que hoje tinha uma vida tranqüila. Não gostava de pensar no passado.
Outro dia, uma das filhas sentada ao seu lado, perguntou por que aguentou tudo calada. Por que não foi embora?
Não precisou pensar muito para responder.
- Uma época diferente da sua. Talvez eu pudesse ter ido depois que o primeiro ou o segundo filho nasceu. Mas não me arrependo. Tive escolha e escolhi o amor. De vocês.
11-4-2011
Uma realidade só sua
21/01/2017 | 18h44
Uma realidade só sua
Cândida Albernaz
No bar, em volta das mesas, ela dançava como se jovem fosse. Nos olhos a falta de brilho era compensada por movimentos sensuais, buscando no tempo perdido e em seus devaneios, momentos passados de uma juventude onde soubera ser notada. Os cabelos com tons dourados e brancos pela tintura mal feita, estavam presos em um coque de onde alguns fios se soltavam.
Michele se sentia importante, não se preocupando com os risos e o deboche a sua volta. Naquele momento ela era a atração principal e recebia de bom grado os aplausos e assovios. Agradecendo com as mãos para o alto e soltando beijos esquecia-se do quarto imundo e escuro onde sobrevivia.
Dos filhos que um dia deve ter tido, nunca mais ouviu falar. Dos netos que talvez tenham sido concebidos jamais tomou conhecimento.
Sua alegria era real, tirada do seu imaginário, do sonho que escolhera viver. Não importava. Ela não precisava da realidade, fazia a sua.
Sentia-se repleta de sedução no corpo enrugado e encurvado pelo tempo.
Não havia problema se não a conheciam ou reconheciam pelo seu passado, onde fora alguém em que o tido como normal era o mais importante. Não se enganassem quanto a ser feliz ou insatisfeita. Sua loucura era escolhida e a completava. Ela hoje era tudo o que precisava.
Satisfazia-se e na sua mente reinava absoluta por onde passava, isso era o maior bem que possuía.
Talvez não tivesse sido sempre assim. De vez em quando vinham imagens que não sabia distinguir se foram fatos que um dia aconteceram ou apenas um exercício de sua criatividade.
Como quando pensa se recordar da noite em que seu pai entrou no quarto e pediu que o abraçasse. As mãos dele sempre foram afáveis, mas nesse dia exigiu que as apertasse entre suas coxas. Não entendeu muito bem. Talvez ele estivesse com frio, mas aquelas mãos subiram um pouco mais e fizeram com que ela sentisse um arrepio por seu corpo. Tal qual sentia agora. Sua imaginação às vezes ia longe demais.
Teria sido casada mesmo? Em alguns momentos tinha certeza que sim, como quando deitada na cama de uma clínica lhe entregaram um bebê, muito feio e murchinho. De cara, gostou dele. Principalmente quando sugou seu seio com força. Pensou lembrar da emoção que sentia a cada vez que o colocava no colo com o corpo quente contra o seu.
Onde estaria aquele bebê agora? Será que um dia fora seu realmente? Quem seria aquele jovem que costumava visitá-la e a olhava com compaixão? Talvez fosse o menino que crescera.
O hospital onde passou boa parte da sua vida tinha paredes encardidas, que um dia talvez tivessem sido brancas. Esse mesmo rapaz sempre estava por lá. Parece estar vendo agora o dia em que ele chegou com uma caixa de bombons. Adorava bombons. Ele ficou sentado na sua frente sem falar nada, vendo-a comer todo o chocolate de uma só vez.
Algumas vezes tinha certeza de que era a mesma criança que amamentara. Seu filho com Amaro. Por que esse nome agora? Não gostava de nomes. Eles davam certeza de existência e preferia não conhecer a realidade. Muito menos agora em que só sobrara a solidão.
Quando recebeu alta, esse filho instalou-a em um quarto com banheiro e depois de duas ou três visitas nunca mais o viu.
Ainda parece ouvir a conversa onde ele disse que se mudaria para outra cidade. Ou teria sido estado? Ou país?
Recebeu uma carta... quem sabe alguém veio pessoalmente contar sobre o acidente onde o rapaz perdera a vida? Falou não saber de quem se tratava. Afinal nunca tivera família. Sempre fora sozinha nesse mundo tão pequeno que cabia naquele cômodo.
Desistiram de tentar convencê-la sobre um possível filho que nascera dela.
Não conhecia ninguém e queria continuar do mesmo jeito.
Enrolou o xale bordado nos ombros e recomeçou a dançar. As pessoas a olhavam, riam e faziam comentários.
Sorriu para eles. Não sabiam o quanto era feliz!
Crônica de um quase amor
21/01/2017 | 18h44
Crônica de um quase amor
Cândida Albernaz
O coração está apertando de um jeito que parece vai implodir.
Lágrimas escorrem sem comando algum e desenha até o queixo um fio de água desfazendo parte da maquiagem.
Limpa com as mãos o rosto molhado, mas não adianta. Tem que esperar que passe a angústia que está sentindo.
Gostaria de saber exatamente o porquê. Talvez hoje a saudade dos filhos que foram morar e estudar numa outra cidade esteja mais forte. Seguem o caminho que ela mesma incentivou, porque é assim que todos-devemos-agir. Quase uma piada criarmos filhos tão juntos de nós e depois entendermos que não são nossos.
Ou ainda por acreditar que muitas situações pelas quais passou foram em vão, porque só deixaram marcas nela e ninguém mais se recorda?
Poderia ser pelo, quem sabe, amor que deixou escapar e poderia ter vivido se não tivesse tanto medo de se entregar?
Nunca antes havia dançado com alguém no meio da rua, escutando a música imaginada cantada em seu ouvido, e para seu próprio espanto, adorado!
Não se lembrava mais há quanto tempo não acontecia, mas andaram por uma praça de mãos dadas e sentando num banco tomaram sorvete enquanto tentavam descobrir através de longas conversas o que cada um deles pensava.
Ele não era um homem bonito para muitos. Mas quem precisa de beleza perfeita, quando braços fortes enlaçam sua cintura e a obrigam seguir um ritmo e sentir todo o corpo grudado no seu?
Sabia agora porque chorava e não adiantava disfarçar para si o que queria.
Rir, rir muito, de tudo ou de quase tudo. Sentir a pele, o gosto, o cheiro. Precisava.
Experimentava a falta daquela voz cheia de cuidados no falar enquanto tocava seu rosto e olhava firme dentro dos olhos sem permitir que desviasse os seus.
Vivia a necessidade de amar, ser amada, estar junto, fazer carinho e ver nos olhos a urgência do outro.
Quando as lembranças vêm, doem tanto que parecem vão nos deixar sangrar. Depois o tempo vai fazendo com que elas tenham mais e mais distância de nosso corpo e mente. Mas permitiu que elas voltassem, e agora se tornavam incontroláveis e doídas de novo.
Pensando bem, não foram tantos os momentos que viveram, mas quando estiveram juntos, foram completos.
Sentia nele o medo de amar e se entregar. Vivia ela própria esse medo. Não planejaram.
Ela decidiu ir embora, não voltar, não procurar. Telefonemas sem respostas. Ele cansou após ter deixado uma longa e decepcionada mensagem. Cortaram laços com uma tesoura cega, que foi rasgando aos poucos a memória do que viveram.
Queria que fosse noite, para se enfiar debaixo da coberta, esperando o sono chegar e conseguir não pensar.
Faltavam ainda algumas horas para isso acontecer.
Pegou o celular, procurou um nome e pensou ligar. Se não atendesse ou estivesse com outra pessoa? Se não chamasse de volta ou desligasse na sua cara? Mandaria uma mensagem, era mais fácil.
O nome no visor parecia ter vida e pulsava diante de seus olhos.
Deixou o aparelho sobre a cama e foi até o banheiro. Pensar, pensar. Lavou o rosto, retirando o que sobrara do batom ou sombra que usava.
De uma coisa tinha certeza, se não tentasse jamais saberia o que ainda poderia vir a viver.
Recostou o corpo nas almofadas da cama e ligou. Ouviu o toque chamando uma, duas, três vezes.
- Alô...
Velha história
21/01/2017 | 18h42
Velha história
Cândida Albernaz
- Tem certeza, cara?
- Não agüento mais, vou sair fora.
- Vai se arrepender.
- Que nada. Já estou cheio dessa vida.
- São vinte e dois anos...
- Vivendo no inferno.
- Não exagere.
- Exagero!? Porque não é com você.
- Tive sorte com a Marta. É compreensiva.
- E você abusa.
- Deixe quieto. Nem vou abusar mais. Amo minha mulher.
- Sei.
- Amo!
- Não estou duvidando que a ame e sim de que não vai abusar e precisar de perdão outra vez.
- Não vou.
- Na última você extrapolou. Esquecer a calcinha da garota dentro do carro?
- Esqueci nada. A vagabunda colocou lá de propósito. Poxa, dessa vez tive medo que ela me largasse. Não faço mais, vou me emendar.
- Tá...
- Mas não era sobre mim que falávamos.
- Vou embora. A Lúcia só sabe reclamar. É a toalha molhada sobre a cama, o jeito que puxo o lençol durante a noite, o jornal que não dobro direito...
- Isso não é motivo. Mulher é assim mesmo. Outro dia a Marta reclamou porque tomei café num copo, quando a xícara estava ao meu lado. Olhei em sua direção e continuei tomando meu café onde queria. Depois dei um beijo nela e me levantei. É assim que faço. Deixo entrar num ouvido e sair no outro.
- A Marta é uma santa.
- Sei que sou difícil, mas de santa não tem nada.
- Se fosse a Lúcia, enquanto não colocasse o café na xícara, não parava de falar.
- Tem que entender as mulheres, são mais complicadas que a gente.
- A minha parece ter a tal da tpm todos os dias.
- Você é exagerado, Gilson. Vai largar sua mulher porque ela reclama de vez em quando?
- Já disse que não é só de vez em quando. E tem outra coisa...
- Mulher! Sabia! Você não ia sair de casa, da comodidade em que vive à toa.
- Conheci uma garota.
- Garota?
- É, deve ter uns vinte anos.
- Você tem cinqüenta e cinco!
- E daí? Sou inteiro, me cuido.
- Vai arranjar problema.
-Gosto dela.
- Imagino. Garota nova, cheia de fôlego, atrás de novidade, achando lindo se envolver com um cara maduro. Sair de casa por causa disso? Vai se estrepar, Gilson.
- Ela me ama.
- Hoje. E daqui há alguns anos? Você será um velho e ela não.
- Não quero pensar nisso.
- Não seja bobo. Fique com ela, mas não saia de casa.
- Quer casar, ter filhos.
- E um apartamento, um carro, segurança ...
- Dá um tempo, cara. Eu amo a garota.
- Eu sei o que você ama nessa menina. Não seja idiota. Se souber fazer direito, a Lúcia não vai descobrir.
- Não tem jeito, me deu um ultimato.
- Tá ferrado!
- ...
- Vai sair do domínio da Lúcia e entrar nas garras dessa aí. E pode ter certeza que devem ser afiadas. Novinha, com muita energia. Estou com pena de você.
- Chega! Não falei com você sobre isso para me encher o saco. Só queria desabafar.
- Como não comentou nada antes? Eu a conheço?
- É uma funcionária que entrou na firma há um ano.
- Está bem. Sou seu amigo e o que fizer estou ao seu lado. Quando vai falar com a Lúcia?
- Hoje à noite. Tenho um prazo até amanhã, caso contrário não quer me ver mais. Queria que pedisse a Marta para dar apoio lá em casa.
- Lúcia vai sofrer um bocado. Com todo o temperamento difícil que tem, ama você. E muito.
- Sei, sei. Pior vai ser falar com os meninos.
- Ela tem a idade do seu caçula.
- Não precisa me lembrar disso.
- Gilson, Gilson ...Ainda está em tempo.
- Já decidi. Esta noite converso com ela e saio de casa.
- Estou do seu lado, você sabe.
- Vou pagar para ver.
- E vai ter um preço, cara.
- Estou indo. Converse com a Marta, mas livra a minha cara, ameniza a coisa.
- Não sei como. Ela gosta da Lúcia, vai tentar ajudar. Pense bem.
- Está pensado. Apaixonado...
Sobre o autor
Candida Albernaz
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