Crônica de um quase amor
Crônica de um quase amor
Cândida Albernaz
O coração está apertando de um jeito que parece vai implodir.
Lágrimas escorrem sem comando algum e desenha até o queixo um fio de água desfazendo parte da maquiagem.
Limpa com as mãos o rosto molhado, mas não adianta. Tem que esperar que passe a angústia que está sentindo.
Gostaria de saber exatamente o porquê. Talvez hoje a saudade dos filhos que foram morar e estudar numa outra cidade esteja mais forte. Seguem o caminho que ela mesma incentivou, porque é assim que todos-devemos-agir. Quase uma piada criarmos filhos tão juntos de nós e depois entendermos que não são nossos.
Ou ainda por acreditar que muitas situações pelas quais passou foram em vão, porque só deixaram marcas nela e ninguém mais se recorda?
Poderia ser pelo, quem sabe, amor que deixou escapar e poderia ter vivido se não tivesse tanto medo de se entregar?
Nunca antes havia dançado com alguém no meio da rua, escutando a música imaginada cantada em seu ouvido, e para seu próprio espanto, adorado!
Não se lembrava mais há quanto tempo não acontecia, mas andaram por uma praça de mãos dadas e sentando num banco tomaram sorvete enquanto tentavam descobrir através de longas conversas o que cada um deles pensava.
Ele não era um homem bonito para muitos. Mas quem precisa de beleza perfeita, quando braços fortes enlaçam sua cintura e a obrigam seguir um ritmo e sentir todo o corpo grudado no seu?
Sabia agora porque chorava e não adiantava disfarçar para si o que queria.
Rir, rir muito, de tudo ou de quase tudo. Sentir a pele, o gosto, o cheiro. Precisava.
Experimentava a falta daquela voz cheia de cuidados no falar enquanto tocava seu rosto e olhava firme dentro dos olhos sem permitir que desviasse os seus.
Vivia a necessidade de amar, ser amada, estar junto, fazer carinho e ver nos olhos a urgência do outro.
Quando as lembranças vêm, doem tanto que parecem vão nos deixar sangrar. Depois o tempo vai fazendo com que elas tenham mais e mais distância de nosso corpo e mente. Mas permitiu que elas voltassem, e agora se tornavam incontroláveis e doídas de novo.
Pensando bem, não foram tantos os momentos que viveram, mas quando estiveram juntos, foram completos.
Sentia nele o medo de amar e se entregar. Vivia ela própria esse medo. Não planejaram.
Ela decidiu ir embora, não voltar, não procurar. Telefonemas sem respostas. Ele cansou após ter deixado uma longa e decepcionada mensagem. Cortaram laços com uma tesoura cega, que foi rasgando aos poucos a memória do que viveram.
Queria que fosse noite, para se enfiar debaixo da coberta, esperando o sono chegar e conseguir não pensar.
Faltavam ainda algumas horas para isso acontecer.
Pegou o celular, procurou um nome e pensou ligar. Se não atendesse ou estivesse com outra pessoa? Se não chamasse de volta ou desligasse na sua cara? Mandaria uma mensagem, era mais fácil.
O nome no visor parecia ter vida e pulsava diante de seus olhos.
Deixou o aparelho sobre a cama e foi até o banheiro. Pensar, pensar. Lavou o rosto, retirando o que sobrara do batom ou sombra que usava.
De uma coisa tinha certeza, se não tentasse jamais saberia o que ainda poderia vir a viver.
Recostou o corpo nas almofadas da cama e ligou. Ouviu o toque chamando uma, duas, três vezes.
- Alô...