Crônica de um quase amor
candida 31/03/2011 02:11
                                   Crônica de um quase amor         Cândida Albernaz  O coração está apertando de um jeito que parece vai implodir.  Lágrimas escorrem sem comando algum e desenha até o queixo um fio de água desfazendo parte da maquiagem.  Limpa com as mãos o rosto molhado, mas não adianta. Tem que esperar que passe a angústia que está sentindo.  Gostaria de saber exatamente o porquê. Talvez hoje a saudade dos filhos que foram morar e estudar numa outra cidade esteja mais forte. Seguem o caminho que ela mesma incentivou, porque é assim que todos-devemos-agir. Quase uma piada criarmos filhos tão juntos de nós e depois entendermos que não são nossos. Ou ainda por acreditar que muitas situações pelas quais passou foram em vão, porque só deixaram marcas nela e ninguém mais se recorda? Poderia ser pelo, quem sabe, amor que deixou escapar e poderia ter vivido se não tivesse tanto medo de se entregar?  Nunca antes havia dançado com alguém no meio da rua, escutando a música imaginada cantada em seu ouvido, e para seu próprio espanto, adorado!  Não se lembrava mais há quanto tempo não acontecia, mas andaram por uma praça de mãos dadas e sentando num banco tomaram sorvete enquanto tentavam descobrir através de longas conversas o que cada um deles pensava.  Ele não era um homem bonito para muitos. Mas quem precisa de beleza perfeita, quando braços fortes enlaçam sua cintura e a obrigam seguir um ritmo e sentir todo o corpo grudado no seu?  Sabia agora porque chorava e não adiantava disfarçar para si o que queria.  Rir, rir muito, de tudo ou de quase tudo. Sentir a pele, o gosto, o cheiro. Precisava.  Experimentava a falta daquela voz cheia de cuidados no falar enquanto tocava seu rosto e olhava firme dentro dos olhos sem permitir que desviasse os seus.  Vivia a necessidade de amar, ser amada, estar junto, fazer carinho e ver nos olhos a urgência do outro.  Quando as lembranças vêm, doem tanto que parecem vão nos deixar sangrar. Depois o tempo vai fazendo com que elas tenham mais e mais distância de nosso corpo e mente. Mas permitiu que elas voltassem, e agora se tornavam incontroláveis e doídas de novo.  Pensando bem, não foram tantos os momentos que viveram, mas quando estiveram juntos, foram completos.  Sentia nele o medo de amar e se entregar. Vivia ela própria esse medo. Não planejaram.  Ela decidiu ir embora, não voltar, não procurar. Telefonemas sem respostas. Ele cansou após ter deixado uma longa e decepcionada mensagem. Cortaram laços com uma tesoura cega, que foi rasgando aos poucos a memória do que viveram.  Queria que fosse noite, para se enfiar debaixo da coberta, esperando o sono chegar e conseguir não pensar.   Faltavam ainda algumas horas para isso acontecer.  Pegou o celular, procurou um nome e pensou ligar. Se não atendesse ou estivesse com outra pessoa? Se não chamasse de volta ou desligasse na sua cara? Mandaria uma mensagem, era mais fácil.  O nome no visor parecia ter vida e pulsava diante de seus olhos.  Deixou o aparelho sobre a cama e foi até o banheiro. Pensar, pensar. Lavou o rosto, retirando o que sobrara do batom ou sombra que usava.  De uma coisa tinha certeza, se não tentasse jamais saberia o que ainda poderia vir a viver.  Recostou o corpo nas almofadas da cama e ligou. Ouviu o toque chamando uma, duas, três vezes.  - Alô...

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

    Sobre o autor

    Candida Albernaz

    [email protected]

    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

    BLOGS - MAIS LIDAS