Como tantas outras afinal
Como tantas outras afinal
Cândida Albernaz
Ela entrou no restaurante e olhou em volta escolhendo a mesa. Apesar de cheio àquela hora, havia uma próxima à janela. Poderia olhar a agitação da rua enquanto esperava o pedido. Dirigiu-se até lá.
Ele pôde observar que tinha pernas bonitas quando ao andar, o vestido que usava movia deixando à mostra parte do início das coxas. Os ombros quase nus, cobertos apenas por duas alças finas revelavam a pele muito clara.
Sentando, escolheu uma taça de vinho tinto que chegou acompanhado de pães e azeite.
Notou que ela fitava algum ponto do lado de fora e mal piscava.
Viu quando mergulhou um pedaço de pão, depois de retirado o miolo, no azeite que despejara no prato. Parecia sentir cada movimento lento que fazia com a boca.
Virou-se e pegando a bolsa que estava na cadeira ao lado, recolheu um papel amassado de dentro dela. Talvez pela quantidade de vezes que lera e desistira de jogar fora. Colocou diante de si e à proporção que seus olhos se moviam, enchiam também de lágrimas. Retornou para onde o pegara como se fosse um lixo qualquer. Disfarçou e usou o guardanapo que estava no colo para secar o canto dos olhos e impedir que escorresse pelo rosto.
Costumava frequentar aquele lugar e era a primeira vez que a via. Sempre almoçava sozinho e habituara-se a escolher alguém para analisar e tirar suas conclusões.
Aquela mulher em especial chamou sua atenção porque era bonita, vestia-se bem, e trazia estampado algo como se estivesse confusa. Não demonstrava tristeza, apesar das poucas lágrimas há pouco. Lembrava alguém que tinha perguntas e procurava respostas.
O celular tocou e atendeu com uma voz baixa. Apesar da proximidade das mesas, não conseguiu escutar mais do que “não me sinto capaz” ou “ você sempre soube”.
Teve vontade de saber mais, conhecer, escutar o que ela tinha para dizer, ajudar a esclarecer, mostrar um caminho que não a deixasse com essa expressão inquieta.
Sua comida chegou e a dela em seguida.
Verificou que o papel estava em cima da mesa. Desviou a atenção enquanto se servia e ela deve ter pego então.
Entre uma garfada e outra, ela alisava a pequena folha e lia, o que tinha certeza, estava decorado. Voltou a falar ao celular e sua voz agora não soava mais tão baixa. “Tomei uma decisão...não, não precisamos... não pretendo mudar de idéia...”. Desligou e chamando o garçom, pediu a conta.
Fez o mesmo.
Ela pagou e antes de levantar, ergueu a folha mais uma vez. Parecia que ia colocá-la na bolsa, mas desistiu. Segurando com as duas mãos, rasgou em três pedaços, apertou entre os dedos, jogou sobre a mesa e saiu. Sua face não remetia a qualquer sentimento de confusão. Ao contrário, mostrava serenidade mesclada com firmeza.
Ele viu que o rapaz voltava para limpar ou trocar a toalha. Levantou e pegou rapidamente as tiras emboladas que ela deixou.
Na rua juntou os pedaços:
Sei que prometi ficar com você e isso vai acontecer um dia, mas não nesse momento. Não posso deixá-la porque ela ainda precisa de mim. Nós estamos juntos há três anos e preciso de você. Te amo.
Sorriu ao ler. Mais uma história como tantas outras afinal.
Precisava andar rápido. Demorara mais do que pretendia no almoço. Culpa da mulher bonita que chamara sua atenção. Tinha um compromisso e estava atrasado. Se queria ver Denise, tinha que ser naquele horário. À noite, sua mulher o estaria esperando.
Jogou aquele bilhete remendado na primeira lixeira que encontrou.
Acendeu um cigarro, vício que o perseguia, e apressou o passo.