Não gosto de ser contrariado
candida 11/05/2011 23:42
 Não gosto de ser contrariado                                                                                                             Cândida Albernaz               Aqui onde moro, cidade pequena, o tempo parece passar de forma mais lenta. Eu costumo ocupar o meu com um copo ou outro de cachaça.             Perdi o emprego de novo. Ainda bem que não me casei, caso contrário, estaria ouvindo ladainha de mulher. Aliás, quando preciso de uma, pago o mais barato que consigo e tenho o que quero.             Sou baixo, franzino, com cabelos pretos e ralos e com aparência de muito mais velho.             Minha mãe, com quem eu morava, morreu há pouco menos de um ano, coração fraco. Tinha paciência comigo. Praticamente era obrigada a isso, ou podia me zangar de verdade. De vez em quando descontava nela a minha raiva.             Hoje não tenho amigos, foram se afastando aos poucos.             O primeiro que perdi, tive uma parcela de culpa.             Estávamos no bar e notei que não tinha dinheiro para mais nenhuma. Pedi que pagasse uma dose para mim, não se incomodou e me ofereceu. Quando pedi a quinta, resolveu me dar uma lição de moral e disse que eu deveria procurar trabalho para sustentar o vício. Sorri e não insisti. À nossa volta, alguns deram risada, o que fez com que ele prolongasse um pouco mais seu discurso. Saímos do bar abraçados.             No dia seguinte meu amigo foi encontrado morto, com vários cortes profundos de faca. Fui preso, mas nunca provaram nada. As pessoas passaram a me olhar com mais respeito.             É engraçado como a gente toma gosto pela coisa.             Mais dois caras foram encontrados mortos da mesma forma em lugares diferentes. Disseram que me viram pedindo cigarro a um deles e o sujeito na hora, me mandou comprá-los. Três dias depois apareceu o corpo. Ninguém descobriu quem foi.             Percebi que tenho um problema sério ao ser contrariado.             Quem me conhece sem beber, vê logo que sou um homem de pouca fala e sorriso aberto. Gosto de ajudar quando precisam e trabalho com vontade.             O problema todo tá na danada da bebida. Reconheço, mas não paro. Tentei algumas vezes. Aliás, desde que minha mãe se foi, não coloco um gole na boca.             Na mesma semana em que ela teve o ataque de coração, vi que chorava enquanto lavava uma camisa minha manchada de vermelho. Eu disse que era vinho vagabundo, mas me olhou com olhos de quem sabe a verdade.             Não me acho ruim, a cachaça é que me arrebenta. Passei hoje à tarde na casa de uma tia. Ela e os filhos lanchavam. Viram-me e ficaram quietos quando entrei. Nenhum deles se lembrou de me oferecer um café. Peguei eu mesmo a garrafa e me servi. Estava quente e forte, como eu gosto.             Aproximei-me da tia e beijei sua testa. Notei que ficou tensa na hora. Um primo puxou meu braço e me abraçando, me levou até a porta. Entendi que estava incomodando.             Saí andando. O bar do outro lado da rua acendeu as luzes. Qualquer dia desses volto a me sentar num deles. Talvez amanhã. E se fosse até lá agora? Só um pouquinho?

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

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