Velha história
Velha história
Cândida Albernaz
- Tem certeza, cara?
- Não agüento mais, vou sair fora.
- Vai se arrepender.
- Que nada. Já estou cheio dessa vida.
- São vinte e dois anos...
- Vivendo no inferno.
- Não exagere.
- Exagero!? Porque não é com você.
- Tive sorte com a Marta. É compreensiva.
- E você abusa.
- Deixe quieto. Nem vou abusar mais. Amo minha mulher.
- Sei.
- Amo!
- Não estou duvidando que a ame e sim de que não vai abusar e precisar de perdão outra vez.
- Não vou.
- Na última você extrapolou. Esquecer a calcinha da garota dentro do carro?
- Esqueci nada. A vagabunda colocou lá de propósito. Poxa, dessa vez tive medo que ela me largasse. Não faço mais, vou me emendar.
- Tá...
- Mas não era sobre mim que falávamos.
- Vou embora. A Lúcia só sabe reclamar. É a toalha molhada sobre a cama, o jeito que puxo o lençol durante a noite, o jornal que não dobro direito...
- Isso não é motivo. Mulher é assim mesmo. Outro dia a Marta reclamou porque tomei café num copo, quando a xícara estava ao meu lado. Olhei em sua direção e continuei tomando meu café onde queria. Depois dei um beijo nela e me levantei. É assim que faço. Deixo entrar num ouvido e sair no outro.
- A Marta é uma santa.
- Sei que sou difícil, mas de santa não tem nada.
- Se fosse a Lúcia, enquanto não colocasse o café na xícara, não parava de falar.
- Tem que entender as mulheres, são mais complicadas que a gente.
- A minha parece ter a tal da tpm todos os dias.
- Você é exagerado, Gilson. Vai largar sua mulher porque ela reclama de vez em quando?
- Já disse que não é só de vez em quando. E tem outra coisa...
- Mulher! Sabia! Você não ia sair de casa, da comodidade em que vive à toa.
- Conheci uma garota.
- Garota?
- É, deve ter uns vinte anos.
- Você tem cinqüenta e cinco!
- E daí? Sou inteiro, me cuido.
- Vai arranjar problema.
-Gosto dela.
- Imagino. Garota nova, cheia de fôlego, atrás de novidade, achando lindo se envolver com um cara maduro. Sair de casa por causa disso? Vai se estrepar, Gilson.
- Ela me ama.
- Hoje. E daqui há alguns anos? Você será um velho e ela não.
- Não quero pensar nisso.
- Não seja bobo. Fique com ela, mas não saia de casa.
- Quer casar, ter filhos.
- E um apartamento, um carro, segurança ...
- Dá um tempo, cara. Eu amo a garota.
- Eu sei o que você ama nessa menina. Não seja idiota. Se souber fazer direito, a Lúcia não vai descobrir.
- Não tem jeito, me deu um ultimato.
- Tá ferrado!
- ...
- Vai sair do domínio da Lúcia e entrar nas garras dessa aí. E pode ter certeza que devem ser afiadas. Novinha, com muita energia. Estou com pena de você.
- Chega! Não falei com você sobre isso para me encher o saco. Só queria desabafar.
- Como não comentou nada antes? Eu a conheço?
- É uma funcionária que entrou na firma há um ano.
- Está bem. Sou seu amigo e o que fizer estou ao seu lado. Quando vai falar com a Lúcia?
- Hoje à noite. Tenho um prazo até amanhã, caso contrário não quer me ver mais. Queria que pedisse a Marta para dar apoio lá em casa.
- Lúcia vai sofrer um bocado. Com todo o temperamento difícil que tem, ama você. E muito.
- Sei, sei. Pior vai ser falar com os meninos.
- Ela tem a idade do seu caçula.
- Não precisa me lembrar disso.
- Gilson, Gilson ...Ainda está em tempo.
- Já decidi. Esta noite converso com ela e saio de casa.
- Estou do seu lado, você sabe.
- Vou pagar para ver.
- E vai ter um preço, cara.
- Estou indo. Converse com a Marta, mas livra a minha cara, ameniza a coisa.
- Não sei como. Ela gosta da Lúcia, vai tentar ajudar. Pense bem.
- Está pensado. Apaixonado...