Velha história
candida 24/03/2011 17:50
Velha história                                                                                                                                                         Cândida Albernaz             - Tem certeza, cara?             - Não agüento mais, vou sair fora.             - Vai se arrepender.             - Que nada. Já estou cheio dessa vida.             - São vinte e dois anos...             - Vivendo no inferno.             - Não exagere.             - Exagero!? Porque não é com você.             - Tive sorte com a Marta. É compreensiva.                  - E você abusa.             - Deixe quieto. Nem vou abusar mais. Amo minha mulher.             - Sei.             - Amo!             - Não estou duvidando que a ame e sim de que não vai abusar e precisar de perdão outra vez.             - Não vou.             - Na última você extrapolou. Esquecer a calcinha da garota dentro do carro?             - Esqueci nada. A vagabunda colocou lá de propósito. Poxa, dessa vez tive medo que ela me largasse. Não faço mais, vou me emendar.             - Tá...             - Mas não era sobre mim que falávamos.             - Vou embora. A Lúcia só sabe reclamar. É a toalha molhada sobre a cama, o jeito que puxo o lençol durante a noite, o jornal que não dobro direito...             - Isso não é motivo. Mulher é assim mesmo. Outro dia a Marta reclamou porque tomei café num copo, quando a xícara estava ao meu lado. Olhei em sua direção e continuei tomando meu café onde queria. Depois dei um beijo nela e me levantei. É assim que faço. Deixo entrar num ouvido e sair no outro.             - A Marta é uma santa.             - Sei que sou difícil, mas de santa não tem nada.             - Se fosse a Lúcia, enquanto não colocasse o café na xícara, não parava de falar.             - Tem que entender as mulheres, são mais complicadas que a gente.             - A minha parece ter a tal da tpm todos os dias.             - Você é exagerado, Gilson. Vai largar sua mulher porque ela reclama de vez em quando?             - Já disse que não é só de vez em quando. E tem outra coisa...             - Mulher! Sabia! Você não ia sair de casa, da comodidade em que vive à toa.             - Conheci uma garota.             - Garota?             - É, deve ter uns vinte anos.             - Você tem cinqüenta e cinco!             - E daí? Sou inteiro, me cuido.             - Vai arranjar problema.             -Gosto dela.             - Imagino. Garota nova, cheia de fôlego, atrás de novidade, achando lindo se envolver com um cara maduro. Sair de casa por causa disso? Vai se estrepar, Gilson.             - Ela me ama.             - Hoje. E daqui há alguns anos? Você será um velho e ela não.             - Não quero pensar nisso.             - Não seja bobo. Fique com ela, mas não saia de casa.             - Quer casar, ter filhos.             - E um apartamento, um carro, segurança ...             - Dá um tempo, cara. Eu amo a garota.             - Eu sei o que você ama nessa menina. Não seja idiota. Se souber fazer direito, a Lúcia não vai descobrir.             - Não tem jeito, me deu um ultimato.             - Tá ferrado!             - ...             - Vai sair do domínio da Lúcia e entrar nas garras dessa aí. E pode ter certeza que devem ser afiadas. Novinha, com muita energia. Estou com pena de você.             - Chega! Não falei com você sobre isso para me encher o saco. Só queria desabafar.             - Como não comentou nada antes? Eu a conheço?             - É uma funcionária que entrou na firma há um ano.             - Está bem. Sou seu amigo e o que fizer estou ao seu lado. Quando vai falar com a Lúcia?             - Hoje à noite. Tenho um prazo até amanhã, caso contrário não quer me ver mais. Queria que pedisse a Marta para dar apoio lá em casa.             - Lúcia vai sofrer um bocado. Com todo o temperamento difícil que tem, ama você. E muito.             - Sei, sei. Pior vai ser falar com os meninos.             - Ela tem a idade do seu caçula.             - Não precisa me lembrar disso.             - Gilson, Gilson ...Ainda está em tempo.             - Já decidi. Esta noite converso com ela e saio de casa.             - Estou do seu lado, você sabe.             - Vou pagar para ver.             - E vai ter um preço, cara.             - Estou indo. Converse com a Marta, mas livra a minha cara, ameniza a coisa.             - Não sei como. Ela gosta da Lúcia, vai tentar ajudar. Pense bem.             - Está pensado. Apaixonado...

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

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