Conversa vai, conversa vem
Conversa vai, conversa vem
Cândida Albernaz
- Cheguei mais cedo ontem e estava aquela bagunça!
- Pelo que sei sua mulher sempre foi cuidadosa.
- Isso mesmo, foi! Agora vive exausta, diz que jogo tudo em suas costas.
- E é lógico que você não faz isso...
- E não faço mesmo. Pago alguém para ajudá-la.
- Mas agora vocês têm um filho, dá mais trabalho.
- Ele é a minha cara! Precisa ver dando risada.
- Conheço seu menino. Parece muito com você.
- Sangue forte o meu. Semana passada comprei uma bola e a roupa completa do time para ele.
- Não acha que é muito pequeno para isso?
- Que nada. É para ir se acostumando. Você sabe que minha sogra é fanática por futebol.
- Sei.
- E o time dela não é o mesmo meu.
- Sei, sei.
- Então, ela está sempre lá em casa, e se resolver fazer a cabeça do meu filho?
- Ele tem seis meses.
- Tem que saber o que é bom desde pequeno.
- Você deve estar certo...
- O que foi? Estou falando demais?
- Nem tanto.
-Você também acha que eu colaboro para ela ficar cansada. Porque vive assim.
- Eu só acho que você deveria entender melhor o que acontece com ela.
- Entender que quero sair e está cansada. Quero que me dê atenção e continua cansada, quero... você sabe, cansada de novo!
- Por que não contrata uma babá?
- Para quê? Ela não faz nada o dia inteiro, apenas cuida do bebê.
- De qual dos bebês você fala?
- Como assim? Só temos um.
- Não sei, não.
- O que quer dizer?
- Quero dizer que você é o outro. Reclama se suas roupas não estão em ordem, discute porque o almoço não ficou bom, mesmo que tenha acontecido uma única vez em um mês, passa o dedo nos móveis para ver se tem poeira, que eu sei...
- Você está exagerando.
- ...briga porque quer assistir ao jogo na TV e seu filho está chorando...
- Com relação a isso, não tem conversa.
- ...enche a casa de amigos no fim de semana e bebem até não aguentar...
- Ei! O que está havendo? Está falando igual a ela.
- Mas se é assim que você é.
- Não falo mais nada para você. Desabafei e olha aí no que deu. Resolveu jogar na minha cara.
- Não estou jogando nada. Estou defendendo sua mulher.
- Você tinha que estar do meu lado e não do dela.
- Não estou do lado de ninguém, mas é um marido chato. Exigente, egoísta e resmungão.
- Eu sou resmungão? Está me chamando de velho?
- Por dentro é um pouco.
- Se eu sou tudo isso que falou, porque estamos aqui?
- Era para ficarmos juntos, mas falou tanto sobre sua vida em casa, que agora preciso ir embora.
- Nossa! São duas horas.
- Meu horário de almoço terminou.
- Calma, não posso ir embora com essa saudade de você.
- Mas vai.
- Temos tempo.
- Coisa nenhuma. Nem tempo e nem vontade mais.
- Só porque falei um pouquinho.
- Acho que precisa de um analista.
- Eu? Não seja boba. Preciso de você. Está se arrumando?
- Colocando a sandália.
- Está zangada?
- Zangada? Não.
- Então por que essa carinha?
- Estou cansada, como sua mulher.
- Olha, não vem não.
- E nem filho tenho.
- Não diz isso.
- Acerte logo essa conta. E vamos combinar uma coisa.
- Amanhã?
- Nada disso. Vamos combinar que vai pagar uma babá para sua mulher, fazer uma viagem só os dois, ajudar com o filho de vocês, e em vez de colocar aquele bando de folgados em sua casa no fim de semana, alugar um filme e assistir com ela bebendo um vinho ou o que preferir.
- Você não me quer. É isso?
- Quero que resolva os problemas que tem em casa. E só me procure depois disso.
- Quer que eu fique bem com minha mulher?
- Quero você com a cabeça tranquila. Caso contrário, acabo me tornando sua mulher e não a “namorada”.
- Nem um beijo?
- Um só que é para lembrar que vale a pena se esforçar.
- Vou ligar para você.
- Só depois ...
- Ligo semana que vem...
17/5/2011