Conversa vai, conversa vem
candida 19/05/2011 00:56
 Conversa vai, conversa vem                                               Cândida Albernaz                                                                                                            - Cheguei mais cedo ontem e estava aquela bagunça!             - Pelo que sei sua mulher sempre foi cuidadosa.             - Isso mesmo, foi! Agora vive exausta, diz que jogo tudo em suas costas.             - E é lógico que você não faz isso...             - E não faço mesmo. Pago alguém para ajudá-la.             - Mas agora vocês têm um filho, dá mais trabalho.             - Ele é a minha cara! Precisa ver dando risada.             - Conheço seu menino. Parece muito com você.             - Sangue forte o meu. Semana passada comprei uma bola e a roupa completa do time para ele.             - Não acha que é muito pequeno para isso?             - Que nada. É para ir se acostumando. Você sabe que minha sogra é fanática por futebol.             - Sei.             - E o time dela não é o mesmo meu.             - Sei, sei.             - Então, ela está sempre lá em casa, e se resolver fazer a cabeça do meu filho?             - Ele tem seis meses.             - Tem que saber o que é bom desde pequeno.             - Você deve estar certo...             - O que foi? Estou falando demais?             - Nem tanto.             -Você também acha que eu colaboro para ela ficar cansada. Porque vive assim.             - Eu só acho que você deveria entender melhor o que acontece com ela.             - Entender que quero sair e está cansada. Quero que me dê atenção e continua cansada, quero... você sabe, cansada de novo!             - Por que não contrata uma babá?             - Para quê? Ela não faz nada o dia inteiro, apenas cuida do bebê.             - De qual dos bebês você fala?             - Como assim? Só temos um.             - Não sei, não.             - O que quer dizer?             - Quero dizer que você é o outro. Reclama se suas roupas não estão em ordem, discute porque o almoço não ficou bom, mesmo que tenha acontecido uma única vez em um mês, passa o dedo nos móveis para ver se tem poeira, que eu sei...             - Você está exagerando.             - ...briga porque quer assistir ao jogo na TV e seu filho está chorando...             - Com relação a isso, não tem conversa.             - ...enche a casa de amigos no fim de semana e bebem até não aguentar...             - Ei! O que está havendo? Está falando igual a ela.             - Mas se é assim que você é.             - Não falo mais nada para você. Desabafei e olha aí no que deu. Resolveu jogar na minha cara.             - Não estou jogando nada. Estou defendendo sua mulher.             - Você tinha que estar do meu lado e não do dela.             - Não estou do lado de ninguém, mas é um marido chato. Exigente, egoísta e resmungão.             - Eu sou resmungão? Está me chamando de velho?             - Por dentro é um pouco.             - Se eu sou tudo isso que falou, porque estamos aqui?             - Era para ficarmos juntos, mas falou tanto sobre sua vida em casa, que agora preciso ir embora.             - Nossa! São duas horas.             - Meu horário de almoço terminou.             - Calma, não posso ir embora com essa saudade de você.             - Mas vai.             - Temos tempo.             - Coisa nenhuma. Nem tempo e nem vontade mais.             - Só porque falei um pouquinho.             - Acho que precisa de um analista.             - Eu? Não seja boba. Preciso de você. Está se arrumando?             - Colocando a sandália.             - Está zangada?             - Zangada? Não.             - Então por que essa carinha?             - Estou cansada, como sua mulher.             - Olha, não vem não.             - E nem filho tenho.             - Não diz isso.             - Acerte logo essa conta. E vamos combinar uma coisa.             - Amanhã?             - Nada disso. Vamos combinar que vai pagar uma babá para sua mulher, fazer uma viagem só os dois, ajudar com o filho de vocês, e em vez de colocar aquele bando de folgados em sua casa no fim de semana, alugar um filme e assistir com ela bebendo um vinho ou o que preferir.             - Você não me quer. É isso?             - Quero que resolva os problemas que tem em casa. E só me procure depois disso.             - Quer que eu fique bem com minha mulher?             - Quero você com a cabeça tranquila. Caso contrário, acabo me tornando sua mulher e não a “namorada”.             - Nem um beijo?             - Um só que é para lembrar que vale a pena se esforçar.             - Vou ligar para você.             - Só depois ...             - Ligo semana que vem...                                                                                                           17/5/2011

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

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