Alguém vai ajudar
candida 26/05/2011 02:18
 Alguém vai ajudar                                                                                               Cândida Albernaz             Minha filha olha essa água entrando por baixo da porta. Pega logo o saco de areia. Ai meu Deus, não quero morrer afogada.             E eu que nem posso ajudar. Entrevada nessa cama há tantos anos. Por que as pernas não me obedecem mais?             A bacia daqui do quarto está cheia e vai transbordar. Joga fora essa água. Tantas vezes ficamos sem uma gota em casa para preparar a comida ou lavar a roupa. E agora esse esbanjamento. Quando foi que pensei que ia mandar jogar água fora? Lembra daquela semana em que você andava até o poço na outra rua e enfrentava uma fila danada, só para conseguir um balde? E precisava durar bastante. Sempre gostei de ser limpinha e tive que ficar sem banho por três dias, só lavando “as partes”.             A goteira agora está em cima do rádio. Tenho pena de você, agindo tudo sozinha e eu aqui sem prestar para nada.             E essa chuva que não pára. Vou rezar mais uma vez, porque é só o que posso fazer.             Pede ajuda ao vizinho. Ele é forte e empurra o fogão e a geladeira para um lugar mais seguro.             Do jeito que está entrando água, vamos perder tudo. Não fica aí parada me olhando. Ele não está mais em casa? E os outros? Será que se esqueceram de nós?              A água está chegando perto do colchão. Não tem jeito, sai e pede ajuda. Vai logo, porque eu não queria falar, mas estou com um medo danado. Chora não, filha. Anda logo e volta com alguém.             Preciso que me carreguem. Nunca odiei tanto as minhas pernas. Sabia que já foram bonitas? Seu pai se encantou por elas. Dizia que na nossa área não existiam mais perfeitas. E não é para me gabar, mas ele tinha razão. Usava uns vestidos curtos, não iguais aos de hoje, que são uma indecência, mas o suficiente para que aparecessem os joelhos. Agora estão mortas, arriadas nessa cama, finas e sem forma.             Desculpe filha, você precisando ir e eu falando do passado.             Não, nem pense em tentar me levar sem ajuda porque você não aguenta.             Vai logo que já estou sentindo o colchão molhado. Não fique preocupada em me deixar sozinha. Isso não vai adiantar. Corre o mais rápido que puder e volte logo.             Ajude minha filha, Senhor, que nós não merecemos passar por isso. Nunca fiz mal a ninguém, e nem ela, coitada. Nem mesmo se casou, para tomar contar de mim. Coração bom está ali. Ela está com medo que não dê tempo de me tirarem daqui. Eu também, Senhor, mas vou encontrar força se for preciso.             Já me arrastei para a cabeceira da cama, mas não adianta, a água subiu ainda mais. Minhas pernas imprestáveis já estão cobertas. Está gelada e começo a sentir frio. Vou fechar os olhos que não quero nem ver.             O que é isso? Soltem. É muita mão me puxando.             Filha, você conseguiu. Obrigada por estar comigo.             Perdemos tudo, meu Deus.             Não chora meu amor. Deus vai ajudar a gente. Não sei como, mas vai.

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

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