Realismo Ingênuo e Sebastianismo batem à porta dos quartéis
Edmundo Siqueira 22/11/2022 21:57 - Atualizado em 22/11/2022 21:59

Embora os manifestantes que ocupam estradas e acampam na porta de quartéis militares sejam chamados de “golpistas” com certa razão — pois pedem uma intervenção injustificada para mudar um processo eleitoral democrático —, o desejo real não é a ruptura, é sim a manutenção do messias no poder.

A ideia de perder a eleição, para boa parte dessas pessoas, significa ser governado por um inimigo; alguém indigno, imoral. E em última análise, significa ser contra as "leis de Deus", devendo os "fiéis" resistirem, como uma provação que lhes foi imposta. Qualquer sacrifício é visto como uma "purificação".

Para além do viés religioso que envolve a questão, existe um líder político que resolveu ficar encoberto. Se Bolsonaro escolheu o silêncio por estratégia ou incapacidade, o efeito, na prática, é o mesmo em seus apoiadores mais radicalizados. Na visão deles Bolsonaro não perdeu as eleições, está aguardando o momento certo, a conjuntura perfeita ou espera ter o apoio em número suficiente para agir e salvar o país da "ameaça comunista".

Na história, o movimento que se assemelha ao sumiço do presidente é o Sebastianismo. Dom Sebastião, que foi rei de Portugal em meados do século XVI, desapareceu do cenário da época, e seu país acabou derrotado sob domínio espanhol. Como não havia provas de que o rei havia morrido, a crença entre os portugueses era de que D. Sebastião ressurgiria, messianicamente, para salvar Portugal dos inimigos espanhóis.


Os bolsonaristas que resistem bravamente nas ruas, parecem esperar que Bolsonaro reapareça com uma solução mágica e definitiva que os livre da ideia de ser governado pelo PT. Ou pelo "comunismo", dentro da distopia estabelecida. E o silêncio de Bolsonaro favorece essa esperança. A ausência do líder carismático permite que o movimento fique com a responsabilidade de lhe dar voz novamente, lhe conferir a legitimidade necessária para manter-se no poder.

A distopia de quem ainda permanece em frente aos quartéis e agarrados em caminhões nas rodovias brasileiras, é um realismo ingênuo. Uma realidade paralela, criada para reforçar crenças, justificar atos violentos e definir quem pensa diferente como alguém enviesado, cego ou “louco”.
Nesse tipo de narrativa — nesse realismo ingênuo propositadamente reforçado — a realidade não pode ser aceita se ela discordar do que é defendido. Os fatos não importam, pois esses podem ser manipulados pelos “inimigos” — onde inclui-se a imprensa. Também faz parte do realismo ingênuo a crença que uma grave ameaça está para se concretizar, ou que tudo não se passa de um plano diabólico para dominar as pessoas e retirar delas a liberdade.

Nos EUA, quando algo semelhante aconteceu e o resultado eleitoral foi contestado, o presente derrotado, Donad Trump, liderou os manifestantes até invadirem o Capitólio, sede do Congresso americano. Estava vivo e presente nos atos golpistas, estava pedindo ajuda para impedir que uma fraude — a "grande mentira" — acontecesse.
Bolsonaro não seguiu a cartilha trumpista e contesta as eleições via seu partido, PL, em uma ação judicial impetrada hoje (22). Bolsonaro e o PL devem ter consciência que não há base sólida para que a iniciativa surja o efeito esperado, invalidando as eleições. Mas a ação é mais um combustível para manter os apoiadores ativos no realismo ingênuo e no sebastianismo.

Ao que tudo indica, o presidente eleito Lula irá tomar posse em 1º de janeiro. Caso permaneça em silêncio até lá, Bolsonaro reforçará a crença que esse dia não irá acontecer, que algo irá impedir a posse. Restará saber se o realismo ingênuo se concretizará em mais violência ou em um “Capitólio” invadido.
No mundo real, existe um Brasil que precisa ser repactuado em muitos aspectos, inclusive na relação com o judiciário. Nela, na realidade, o fato é “sua excelência” e o rei não é um messias, muito menos D. Sebastião.

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