Abocanhamos o espaço do outro como se fosse vital para nós, vociferando mais do que falando, falando mais do que ouvindo. Interrompendo o melhor da voz que, aos nossos ouvidos, tem muito a dizer. O debate é combate, o diálogo é digladio, a conversa é reversa, não flui. Na raridade de uma boa teia em que cada um tece a parte que lhe cabe, a melodia é diversa, na pausa a respiração da mente proporciona a compreensão. Quando dois ou mais falam ao mesmo tempo, é uma caixa cheia de baratas tontas querendo escapar, mas a tampa não permite. O ego se aferra à ideia primitiva, defende-a, defende-se, esperneia, rebate, faz de tudo para jogar ao chão aquele a quem elegeu adversário somente por pensar desigual, e finalizar, se possível com nocaute, é a melhor estratégia. Egos riscados são reativos, espinhos prontos para furar o balão do outro até que este, murcho, recolha-se ao escaninho dos medianos. Ao vencedor, abrigado em tendas virtuais ou nas mesas de bares e casas, a medalha embriagada da vitória, momentânea como toda vitória é, exceto a capital do estado do Espírito Santo. Voltemos ao bom bate-papo, a piada incorreta, mas livre, ao sorriso largo, ao trago, ao destravo, ao abraço. Andamos muito programados até os dentes, prontos para revidar. Sem perceber a canção que toca em cada um, sem ouvir as conchas que somos, iguais àquelas de quando éramos crianças, e mesmo distantes, sabíamos como era o som do mar. ( NinoBellieny)
