Adriano Moura: 'Os invisíveis são a mão de obra barata'
Matheus Berriel - Atualizado em 26/06/2020 22:54
Escritor campista publicou livro de contos sobre miséria e abandono
Escritor campista publicou livro de contos sobre miséria e abandono / Patrícia Bueno/Divulgação
“Na fila da sopa, soube da morte de Chiquinho. Temeu. Já tinha visto algo parecido no Rio e não eram boas as lembranças. Poderia ter sido ele. Bastaria estar no lugar certo, mas na hora errada. Mas não há lugares certos para os que moram na rua. Há apenas lugares e horas que parecem não ter fim”. Ricardo, de 25 anos, é um dos personagens de “Invisíveis”, quarto livro do escritor campista Adriano Moura, recém-publicado pela editora Patuá. Em 16 contos, Adriano mescla realidade e ficção para abordar histórias de miséria e abandono. Embora ainda não tenha sido oficialmente lançado, o livro já está sendo vendido em livrarias locais de Campos, pelo próprio autor e no site da editora, com entrega em todo o território nacional. Páginas: 112. Valor: R$ 40.
— Por um instante, a sensação era de folhear um jornal. Não um livro de ficção. Tamanha a realidade nua e crua jogada na minha cara conto após conto. Mas claro que não encontrei ali um texto frio, imparcial, sem o envolvimento do autor. Se “Invisíveis” faz pensar na proximidade com o jornalismo, é com aquele humanizado, que nos sensibiliza diante da dor do outro — descreveu a jornalista Marisa Loures, da Tribuna de Minas, no texto de apresentação do livro.
Ricardo, o da fila da sopa, é “O homem do cachorro”, título do segundo conto. Há outros personagens como Patativa, moradora de rua de Travessão que bebia para cantar, e cantava para esquecer a dor; Modelo, lavadora de carros que sonhava em ser madame; e Sueli, menina de Guandu levada à cidade para trabalhar na casa de uma família rica, onde foi submetida à semiescravidão. Racismo, homossexualidade e pobreza estão entre os temas abordados pelo autor, que também assina os livros “Liquidificador: poesia para vita mina” (Imprimatur/7Letras), “O julgamento de Lúcifer” (Novo Século) e “Todo verso merece um dedo de prosa” (Chiado), além de ter colaborado em duas antologias coletivas.
— As fronteiras entre ficção e realidade são sempre muito borradas. No âmbito da literatura, só existe a realidade da ficção, que toca o leitor de modo distinto da realidade empiricamente vivida. São modos diferentes de sentir. Na literatura, a linguagem desencadeia sentimentos e reflexões que, às vezes, passam despercebidos devido à banalização do olhar da vida cotidiana — afirma Adriano Moura.
“Invisíveis” foi escrito nos anos em que o autor morou em Juiz de Fora/MG, 2018 e 2019, a partir da observação e escuta sobre a vida de pessoas colocadas à margem da sociedade em virtude da condição social, cor e/ou do gênero. Retratos de um país que, nas palavras de Adriano, não gosta de se ver no espelho.
— A população pobre deste país constitui os corpos descartáveis. Nunca houve preocupação em criar condições para melhoria das condições de vida das pessoas, e isso faz parte de um projeto econômico que visa apenas o lucro de grandes empresas e dos chamados “investidores”, em detrimento do bem-estar comum. Os invisíveis são também a mão de obra barata; a que, caso morra ou adoeça, será facilmente substituída — denuncia Adriano, dando ênfase à vulnerabilidade da população de baixa renda em tempo de pandemia da Covid-19: — Para o município, estado e a federação, são apenas estatísticas, não pessoas. Se apenas a população pobre estivesse sendo afetada, certamente estaríamos na tão sonhada “normalidade”. O vírus não escolhe classe social, mas é o recorte sócio-econômico que, com o tempo, vai determinando onde morrerá mais gente, por falta de saneamento, moradia, hospitais, medicamentos.
Após o processo inicial de divulgação, Adriano Moura fará um lançamento virtual de “Invisíveis”, via Facebook e Instagram, ainda sem data definida. Também está previsto um lançamento físico para quando for encerrada a quarentena em Campos, que atualmente adota o lockdown parcial.
— O Brasil é muito plural. Acho que é nação a mais complexa do mundo em termos de elementos humanos formadores, não tem uma cara única. Aliás, nenhuma nação tem. O reflexo do Brasil em qualquer espelho será sempre um mosaico. O atual precisará juntar seus cacos deixados por um governo que tem total desprezo pela diversidade que nos constitui — lamenta o escritor.
'Invisíveis' já pode ser adquirido em todo o Brasil
'Invisíveis' já pode ser adquirido em todo o Brasil / Divulgação/Editora Patuá

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