Arthur Soffiati: Um intelectual diante da Covid-19
* Arthur Soffiati - Atualizado em 26/06/2020 21:15
Bruno Latour é um epistemólogo francês que reflete sobre a prática da ciência. No seu livro “Nunca fomos modernos”, ele levanta temas polêmicos, a começar pelo título. Confesso que ele não contribui muito para a minha formação intelectual por ignorar, durante muito tempo, a questão ambiental. Ela crescia a seu lado, mas os pensadores presos ao século XIX e XX não a percebiam.
Mas Bruno Latour e Isabelle Stanger, num determinado momento de suas vidas, descobriram a questão ambiental de uma forma que me pareceu ingênua. Eles escreviam o que já havia sido escrito. Os que os precederam já haviam feito análises mais abalizadas sobre a crise ambiental do nosso tempo a partir da década de 1970. Eles me pareceram chover no molhado, mas o nome do intelectual é sempre importante. Dizer que as mudanças climáticas vão causar problemas à humanidade é algo óbvio. Se uma pessoa comum o diz, a imprensa não lhe dará a mínima importância. Se um intelectual conceituado faz a mesma afirmação, ela pode merecer uma página inteira de jornal.
Bruno Latour não silenciou diante da crise sanitária causada pelo novo vírus no pequeno artigo “A crise sanitária incita a nos preparar para as mudanças climáticas”, divulgado em março de 2020. Como o novo vírus está atuando rapidamente e deixando os cientistas bastante perplexos, pode ser que Latour também tenha externado nova opinião, assim como fez Giorgio Agamben, que examinamos na semana passada.
Latour considera bem-vinda a reclusão imposta pela pandemia, chamando-a de ramadã laico, e afirmando que ela pode ser uma bela oportunidade para refletir sobre o que é importante e o que é insignificante. Sim, de fato, o isolamento físico pode representar uma oportunidade para repensar o caminho que o mundo ocidentalizado vem seguindo. Contudo, me parece ingênuo considerar que um recolhimento determinado mais por governantes (não todos) seja suficiente para repensar nossos rumos, do individual ao coletivo. Já podemos notar claramente que os governantes mais responsáveis estão sendo pressionados pelos imperativos econômicos, enquanto que a população se cansou da política de isolamento, sobretudo se for por motivos de sobrevivência.
Em outra passagem do artigo, Latour entende a pandemia como um ensaio geral para a próxima crise, que, segundo sua suposição, será a crise causada pelas mudanças climáticas. Cabe ressalvar que ele coloca essa suposição como hipótese. Literalmente, ele afirma: “O estado do social depende o tempo todo das associações entre muitos atores, a maioria dos quais não tem a forma humana. Isso vale para os micróbios – como sabemos desde Pasteur –, mas também para a internet, o direito, a organização dos hospitais, as capacidades do Estado e o clima.” Trata-se de uma observação pertinente. De fato, a humanidade não se limite aos humanos. Ela inclui as geringonças criadas pelas pessoas e a natureza não-humana. E não podemos considerar a interação entre humanos, seus inventos e a natureza não humana como uma realidade que se impôs depois da Segunda Guerra Mundial. Olhando para o mais remoto passado da humanidade, percebemos que essa interação sempre existiu. A novidade é a percepção dela.
O que me parece não se sustentar é a distinção que Latour faz entre a crise causada pelo novo vírus e a crise representada pelas mudanças climáticas. Os governantes, segundo ele, podem se limitar, no caso da pandemia, a proclamar para os governados, que eles os protegem e que eles, os governados, desejam ser protegidos. Trata-se de uma situação mais clara que a causada por atentados terroristas. Não sabemos quem o vírus vai atacar nem como, mas sabemos que ele está explicitamente ao nosso lado, diferentemente do que acontece com o terrorismo, que é assunto de polícia e de segurança. Em ambas as situações, o Estado precisa assumir caráter de exceção. Não vejo motivo para tanta celeuma por conta dessa excepcionalidade. O Estado de direito funciona bem quando tudo está bem. Em caso de perigo, o Estado precisa suspender temporariamente sua normalidade para atacar os problemas que ameaçam sua população. No caso do Brasil, reclamamos do presidente o desinteresse em tomar essas medidas de exceção, enquanto condenamos as ameaças que ele faz à democracia.
A distinção entre as atitudes governamentais de pandemia e mudanças climáticas parece crucial. Proclamar protocolos para a proteção da população contra o vírus não é tão radical quanto proclamar a decisão de medidas contra as mudanças climáticas. A pandemia se manifesta de forma clara e imediata. As populações e o setor econômico aceitam tais protocolos no início. Depois, pressionam para voltar ao antigo normal. O caso das mudanças climáticas é mais lábil. Elas não se manifestam com a mesma clareza e objetiva que a pandemia. Medidas contra elas gerariam protestos de todos: dos ricos aos pobres. Assim é que, com relação às mudanças climáticas, a humanidade vai tocando. Ninguém fez tanto em tão pouco tempo e para todos na redução das mudanças climáticas quanto o novo vírus.

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