Sérgio Arruda de Moura: Literatura e racismo
- Atualizado em 26/06/2020 18:46
Imaginem um cenário em que homens e mulheres declarem publicamente seu racismo, mesmo ocupando cargos oficiais aos quais devem um mínimo de decoro. Imaginem também hordas de manifestantes nas ruas e praças estendendo faixas reclamando um estado absolutista com direitos revogados. E tudo isso, assim, com descaramento, impunemente, como se a democracia e a salvaguarda dos direitos humanos e civis tivessem sido inventados apenas ontem, sem terem sido vividos e aperfeiçoados ao longo da história, sangrenta e injusta, que ainda teima em conduzir a carroça do estigma do racismo.
Esse mundo existe ainda hoje, não só no Brasil — provisoriamente, assim esperamos —, escancarado como realidade cotidiana, a nos ameaçar, a nos deixar tão atônitos que imaginamos estar sonhando ou vivendo um pesadelo ficcional... Só que não, é real mesmo, sem ficção.
Mas, eis que a ficção, o tempo todo, vem nos alertar, de forma bem clara e didática da contradição entre o que se diz e o que se pensa. Estou falando de “Tenda dos Milagres”, do mais que célebre escritor brasileiro, o baiano Jorge Amado, nascido em 1912 e morto em 2001. O romance é de 1969, pensado e criado no auge da ditadura financiada pela hegemonia anticomunista e racista, tolerada e apoiada também a partir das academias de ciência e universidades.
“Tenda dos Milagres” narra a trajetória apaixonante de Pedro Archanjo, na avaliação do seu criador, o seu personagem preferido. E olha que o concurso é acirrado, dadas as figuras igualmente apaixonantes de Pedro Bala, Dona Flor, Teresa Batista, Tieta, Rosa Palmeirão, Rosa de Oxalá, Guma, Quincas Berro d’Água...
Pedro Archanjo Ojuobá, mulato, pobre autodidata, olhos de Xangô, simples bedel da Faculdade de Medicina da Bahia, é um típico malandro, raparigueiro e cachaceiro contumaz, tantas amizades e admiradores, além de pródigo fazedor de filhos. Leitor e autodidata, foi a partir da tese do catedrático racista Nilo Argolo que ele foi a campo constituir sua própria visão da mestiçagem baiana, observando a vida e os costumes do povo. O resultado foi a constituição de uma pequena obra de quatro tomos apenas impressos na Tenda dos Milagres, espécie de oficina gráfico-editora e casa de cultura informal, de seu amigo e ilustrador Lídio Corró, na Ladeira do Tabuão em pleno Pelourinho. Interessante marcar a oposição entre a universidade oficial e esta outra, a universidade vital do Pelourinho, produtora do conhecimento e da real identidade do país, que a outra tentava apagar ou minimizar.
A obra de Archanjo, desconhecida no Brasil, chamou a atenção do Nobel de ciências, o norte-americano James Levenson, em Salvador, no ano do seu centenário de nascimento, para conhecer a cidade e os tipos, objeto de sua pesquisa etnográfica que tanto contribuiu metodologicamente para ampliar a visão das culturas afro-americanas.
A nata culta da cidade se surpreende. Como? A obra de um bedel, já morto há 25 anos? E ainda mais, objeto de livro do eminente Nobel intitulado “Pedro Archanjo, um criador de ciência”? Era demais, mas vá lá!
A narrativa se estende de forma não linear, em dois tempos:o atual e o da primeira metade do século, desde o nascimento de Archanjo, em 1868, até cem anos depois, quando a oficialidade, rendida, tenta prestar-lhe homenagens oficiais. Levenson, encantado com a morena curvilínea Ana Mercedes, contrata o seu marido Fausto Pena para colher dados biográficos de Archanjo para ilustrar um trabalho que escrevia.
Essa foi a oportunidade de Jorge Amado retornar certos aspectos de “O país do carnaval”, seu primeiro romance de 1932, quando meteu o malho na boçalidade da intelectualidade brasileira. Enquanto bedel da faculdade de medicina no início do século, Pedro Archanjo se inspira para a pesquisa etnográfica em uma atmosfera de profundo desprezo da intelectualidade contra a cultura negra. A intolerância é metaforizada na figura do catedrático Nilo Argolo. Arrogante e racista, tinha até uma teoria sobre a inferioridade do negro perante o branco, e rascunhava um projeto político de lei de salvação nacional que consistia na devolução dos negros e pardos à África, em um território que o governo brasileiro compraria no continente para este fim. Até lá, brancos estariam proibidos de casar-se com negros para que se estancasse a geração de pardos, a ruína do país.
Argolo, representando o Brasil racista e impiedoso, transforma a ciência, de onde fala, em um palco de mediocridade, levando para a academia uma falsa ciência, contaminada de rancores pessoais e atrasando a construção de uma ciência inclusiva e de uma identidade nacional.
O contexto do romance é, assim, o contexto do desconhecimento do Brasil sobre si próprio, protagonizado por acadêmicos, uns “sábios de merda”. Aqui e ali, eminentes doutores aspirantes à academia que, mesmo com alguma boa vontade, mostram-se incrédulos deste Brasil, contribuindo para o fosso descomunal entre as culturas que nos definem.
"Tenda dos Milagres" é um romance-denúncia, dos primeiros a aventar a discussão pública do racismo e da intolerância religiosa, num momento crucial em que até mesmo a oficialidade e as instituições a negam.

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