Sérgio Arruda de Moura: Retalhos de notícias
Sérgio Arruda de Moura - Atualizado em 19/06/2020 20:03
O mundo hoje em dia entra em casa, não pela porta da frente, mas pelas janelinhas iluminadas da TV, do tablet e do i-phone. Outrora era o viajante quem o trazia, ao retornar à casa prenhe de notícias, de novidades acumuladas desde paragens longínquas e desconhecidas.
No Olimpo, era Hermes quem levava e trazia as mensagens dos deuses aos homens. E como ele também era um deus não ficava bem ser apenas um moleque de recados – assim acumulou outras funções tais como o de controlador do vento e da velocidade. Cabia a ele também tarefas mais abstratas como interpretar os fatos. Conhecedor que era das artimanhas de Zeus e da capacidade dos homens de embromar, regatear, interpretar, buscar uma brecha na lei para transigir, a destreza mítica do deus houve de ser sempre muito bem cultivada. Afinal, para enfrentar o homem, só mesmo os deuses.
Para se ter uma ideia, Hermes trabalhou naquela peça Prometeu acorrentado, e não fez por menos o papel mais antipático do teatro grego, ao debochar do pobre titã, ao atormentá-lo e tirar dele a esperança, castigado por Zeus por ser amigo dos homens e de ter ensinado ciência a eles.
No chão comum dos mortais e na falta de meios mais práticos para enviar notícias, se mandava uma pessoa a conduzi-las. Ainda na Grécia, Milcíades enviou Fidípides de Maratona à Atenas para anunciar a vitória dos gregos contra os persas. Fidípides não aguentou a fadiga depois de fazer 42 quilômetros correndo e, depois de dar a notícia – e antes de dizer boa noite –, morreu.
O fato é que o homem sempre gostou de novidades. E gastou muita energia histórica para satisfazer esse capricho. Inventou o alfabeto e depois a escrita, o papiro e as tabuinhas de argila, o cilindro, depois o códex, a prensa móvel, depois o linotipo, o offset e não parou nunca de inventar – tudo para chegar na frente junto com os fatos.
É interessante como a opinião marchou com a história até virar mercadoria. Não fosse o jornal a fazer isso, seria o homem comum. De tanto viajar e conhecer, ofereceria seus serviços de noticiarista. Levaria até a casa das pessoas, de viva voz, as notícias, pago, talvez por hora. Se o comprador de novidades não tivesse muito dinheiro, pediria só meia hora, ou 15 minutos delas, a sua livre escolha.
Hoje em dia, as tecnologias estão tão avançadas que a notícia chega bem antes de o fato ter ocorrido. Diferentemente, na Idade Média as notícias demoravam tanto a chegar que, no caminho, viravam histórias cantadas em versos e prosa, e realimentava até mesmo a literatura.
O arauto, que era o jornalista daqueles tempos, trabalhava para o rei. Assim, o noticiário era seletíssimo. Os tempos modernos passaram a contar com formas mais efetivas de dar notícias. Os jornais de fato eram esses agentes. Hoje, eles contam com pessoas contratadas para contar notícias, casos, relatos. Especialistas e mais especialistas da notícia foram se acumulando nas redações e nasceu a mídia, que é o conjunto de tudo quanto existe que propaga notícias e opiniões.
É aqui que começa nosso inferno moderno, dizem uns. Na França da primeira metade do século XIX, era Balzac quem vivia à turras com os jornais e os jornalistas, consequentemente, com a imprensa. Escreveu ele, aturdido com o poder que tinha ela sobre todas as coisas: “Se a imprensa não existisse, seria preciso não inventá-la”.
Hoje em dia se reclama muito do poder que tem a imprensa como agente formador e difusor da opinião. De minha parte, vou reclamar do poder que têm hoje os retalhinhos de notícias que as melhores pessoas estão replicando, curtindo, compartilhando nas redes sociais.
Do dia pra noite, as notícias fabricadas por toda parte em sites de galhofa e humor, em blogs diversos, por agências midiáticas sustentadas por partidos para as replicarem, principalmente, as políticas, estão fazendo escola. O resultado é o surgimento espontâneo de especialistas de toda ordem. Os temas são os mais variados, mas principalmente os que emanam do conturbado maniqueísmo ideológico que tomou conta das praças.
Nunca é demais confirmar a avalanche de voluntarismo noticioso e opinativo entre os usuários de Facebook e WhatsApp.
De quase inocente sistema de troca de afetos e notícias semi-privadas, da esfera mesmo da intimidade entre parceiros e familiares, essas redes se transformaram em tribunas, redações de um jornal sem fronteiras e sem ideologia, uma ágora barulhenta plena de rancores e ressentimentos, folhas e gazetas políticas individuais das mais insatisfeitas e inquietas disposições.
Mesmo o público mais esclarecido entrou na onda dos retalhos de notícias divulgados a rodo no nosso querido e quase fundamental quesito de felicidade, o Facebook. O Brasil é movido a paixões, e o Face é aquela ferramenta que veio confirmar isso. No estágio atual em que nos encontramos, as redes cumprem esta função mais do que nunca.

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