Ethmar Filho: Bem na foto
Ethmar Filho - Atualizado em 18/06/2020 13:17
Capa do Jornal da BBC, em agosto de 2001: O maestro Daniel Barenboim quebrou um tabu e causou polêmica ao interpretar uma peça do compositor alemão Wagner, no Festival Anual de Israel. Wagner, que morreu em 1883, era o compositor predileto de Adolf Hitler, e sua música foi usada na propaganda nazista. No final do concerto daquele sábado, em Jerusalém, Baremboin avisou ao público que a orquestra iria interpretar uma peça da ópera de Wagner, "Tristão e Isolda", previamente combinada com os músicos e constante do programa. "Não quero ofender ninguém e se alguém se sentir desconfortável, por favor, fique à vontade para abandonar o auditório agora", disse o maestro, que é judeu e foi criado em Israel. A música foi aplaudida de pé pela maioria do público, mas algumas pessoas abandonaram o auditório onde estava sendo realizado o concerto, aos gritos de "fascista" e "fora daqui".
Seu maior amigo, o escritor palestino Edward Said, co-ideólogo e co-fundador da West East Divan Orchestra, conjunto orquestral dirigido por Baremboin, formado por músicos jovens judeus e árabes, escreveu um artigo, três meses depois, na revista “Le monde Diplomatique”, onde dava a sua versão sobre o que aconteceu, aproveitando para dar a sua opinião a respeito da obra e da pessoa de Richard Wagner. Vejam só, Said é palestino e defende a sua causa em relação a Israel acusando Wagner de ser “declaradamente antissionista” (leiam o artigo), em uma revista que, de acordo com suas outras manchetes e outros números, se mostra uma publicação um pouco mais à esquerda, o que talvez possa ter um significado pró-Palestina.
Daniel Baremboim, talvez o único ser humano sobre a face da terra com dupla cidadania israelense e palestina, antes do concerto, prega o respeito a todos os povos, a todas as religiões e, principalmente, à música como elemento catalizador universal da paz e do entendimento. Esses sentimentos norteiam exposições de fatos que podem estar muito mais próximos das opiniões do que da história. E sentimentos, que são como crianças: ninguém deixa dirigir o carro, mas também não permite que sejam levadas no porta-malas, são flechas cardíacas cegas que sempre passam longe do alvo do bom senso. Ao acusar Wagner de antissionista declarado, Said pode não estar sendo tão pró-sionista como parece ou como não deveria, e Wagner pode não estar sendo assim tão “holocautoso” como é pintado, na medida em que seu padrasto, Ludwig Geyer, era judeu e que, por sua vez, nunca teve culpa de ter sido cooptado para a trilha sonora particular de Adolf Hitler; talvez só porque seja alemão.
Baremboim, dono de uma mente brilhante, de uma memória extraordinária que o faz executar todas as peças de cabeça, fluente em sete línguas como se fosse nativo nas sete, revela sua genialidade a todo momento, pregando elegantemente a paz, dentro de um barril de pólvora, sem ser hipócrita e, principalmente, sem se comportar como bombeiro.
Edward Said usa o artigo, com palavras elegantes e frases duvidosas, para marquetear-se e sair bem na foto em que aparece junto com Baremboim, Arafat e Richard Wagner, tendo com fundo o Festival de música mais dodói e mais tradicional de Israel. No mesmo artigo ele escreve: “... Isso porque Richard Wagner (1813-1883) era, ao mesmo tempo, um grande compositor e um notório antissemita (e por esse motivo, profundamente repugnante). E porque, bem depois de sua morte, foi o músico preferido de Hitler, tendo sido, de uma maneira geral e não sem razão, associado ao regime nazista e ao terrível destino de milhões de judeus e de outros povos “inferiores” exterminados por esse regime.” Ao mesmo tempo em que escreve: “como admirar e interpretar sua música, dissociando-a de seus escritos odiosos e da utilização que deles fizeram os nazistas.” E continua, a respeito de Wagner: “um gênio, no que se refere ao teatro e à música. Revolucionou a concepção de ópera, transformou completamente o sistema tonal e criou dez grandes obras-primas, dez óperas que figuram no pináculo da música ocidental.”
No Brasil, ouvimos e cantamos a música de Wagner em todos os casamentos e aniversários sem saber que é dele. Nos casamentos, na sua forma instrumental, a marcha nupcial, ou a dele ou a de Felix Mendelssohn, e nos aniversários, o famoso, irritante e constrangedor “Com quem será”, ambas as situações sinônimas de paz e de amor tolerante.
 
Maestro Ethmar Filho – Mestre em Cognição e Linguagem.

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