Um tsunami chamado Wilson
Aldir Sales 02/11/2018 16:05 - Atualizado em 06/11/2018 14:44
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Se no primeiro turno a surpreendente onda envolvendo o ex-juiz federal Wilson Witzel (PSC) tomou conta do Estado do Rio de Janeiro, no segundo turno o tsunami varreu o interior e consolidou a vitória do outsider, que mostrou ter aprendido a surfar a popularidade bolsonariana mesmo sem o apoio formal do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL). O governador eleito superou Eduardo Paes (DEM), que teve as maiores fatias do dinheiro do fundo eleitoral e da propaganda no rádio e na televisão, além do apoio da grande maioria dos prefeitos. Mesmo assim, Witzel teve mais do dobro dos votos de Paes no primeiro turno e venceu com 59,9% no segundo.
O ex-prefeito da capital formou uma coligação com 11 partidos e compôs com a maior parte dos prefeitos do interior, nos mesmos moldes do MDB de Sérgio Cabral e Luiz Fernando Pezão nas últimas eleições. Porém, as ligações com os emedebistas pesaram na conta de Eduardo Paes. O ex-prefeito já aparecia nas primeiras pesquisas com pouca popularidade fora da Região Metropolitana, ficando atrás de Romário (Pode) nas sondagens. Ele não foi ultrapassado pelo “Baixinho”, de fato, porém, os resultados das urnas confirmaram o recado deixado pelo eleitor e que ele mesmo admitiu após a derrota. “Olha o que aconteceu na maioria das eleições no Brasil. Credito minha derrota muito mais ao fato de as pessoas quererem políticos novos”, justificou.
No primeiro turno, Paes ainda conseguiu ser o mais votado nos municípios de Quissamã, Laje do Muriaé, São José de Ubá, Trajano de Moraes, São Sebastião do Alto, Macuco, Comendador Levy Gasparian e Rio das Flores. No entanto, em todo o interior, no segundo turno o candidato do DEM saiu vencedor apenas na pequena Rio das Flores, cidade com aproximadamente 9 mil habitantes no Sul Fluminense. Ele também conseguiu virar o jogo na cidade do Rio e em Niterói. No entanto, Wilson Witzel teve uma votação expressiva em todo o estado e venceu, por exemplo, em todas as cidades do Norte e Noroeste Fluminense, Região dos Lagos, Baixada Litorânea, Região Serrana e Baixada Fluminense.
Para o cientista político da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), Hamilton Garcia, a onda que atingiu o Rio de Janeiro encontrou condições propícias no estado. “A onda que atingiu o Rio de Janeiro foi uma onda nacional, que encontrou aqui condições propícias: a crise do MDB, que protagonizou o maior escândalo da Federação em termos de corrupção; a inviabilização da candidatura do ex-governador Anthony Garotinho, por conta de condenação judicial; e o despreparo patente do Romário em sua postulação ao Estado”.
Garcia afirma ainda que faltou autocrítica de Eduardo Paes, que liderava as pesquisas de intenção de voto no primeiro turno e foi surpreendido no dia da votação com a onda de Witzel. “Cabe destacar também a falta de autocrítica do Eduardo Paes, que saiu do MDB, mas se coligou com ele sem admitir em nenhum momento os problemas associados a esse grupo político. Ele teria que ter escrito uma carta aos fluminenses se comprometendo a não dar cargo público para ninguém deste grupo, coisa que ele não fez. Tudo isso abriu caminho para o Witzel se consagrar nas urnas como opção renovadora”.
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Renovação surpreendeu também no Legislativo
As eleições de 2018 deixaram claro toda a insatisfação da população com grande parte da política tradicional. Apesar de mais de 25 anos como deputado, Jair Bolsonaro conseguiu personificar o sentimento contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o seu partido, o PT. Além dos cargos executivos, a onda conservadora tomou conta também do Legislativo. A bancada do Rio de Janeiro na Câmara Federal, por exemplo, terá 30 novos nomes entre os 46 deputados que representarão o estado na Câmara. Apenas 16 foram reeleitos este ano.
Um levantamento do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap) indicou que a taxa de renovação na Câmara Federal como um todo superou as expectativas e alcançou 52%. Com isso, 267 novos deputados federais vão assumir o mandato no próximo ano. É o maior índice de renovação dos últimos 20 anos, informa a pesquisa.
O instituto constatou que, dos 513 deputados federais atualmente em exercício, 79% disputaram a reeleição, sendo que 60% destes conseguiram novo mandato neste domingo. Portanto, dos 407 deputados que concorreram à reeleição, 246 foram reconduzidos ao cargo.
Discurso de Witzel foi como “canto da sereia”
Para o cientista político e professor da Universidade Federal Fluminense (UFF) em Campos, George Coutinho, o discurso contundente de Wilson Witzel sobre o combate à violência em um estado tomado pela insegurança, com a promessa de “abate” de bandidos portando fuzil, soou como o “canto da sereia” para o eleitor.
George Coutinho
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— Como se não bastasse, a contundência discursiva de Witzel funcionou para o eleitor fluminense como canto de sereia. A solução de questões de segurança pública que dialogam diretamente com o senso comum do cidadão mediano, permitindo uma polícia com licença para matar, se apresentou como um mote extremamente eficiente. Cabe sempre lembrar que estamos ainda no estado que vivencia uma intervenção federal prolongada expressa na presença do Exército na capital — opinou.
O acadêmico também pontuou que a demanda pelo novo fez com que candidatos considerados “outsiders” tivessem êxito. No entanto, Coutinho também considera que o “novo” dialogou com setores tradicionais da sociedade para alcançar o objetivo.
— Nestes termos, Witzel, não desconsiderando seus méritos, que ainda estão para serem conhecidos na gestão da máquina pública, encontrou um cenário francamente favorável. Eduardo Paes teve sua experiência e proximidade profissional com o poder, dadas as particularidades dessas eleições, contando negativamente. O eleitorado viu em Witzel o novo. Junto a isso, “o novo” dialogou com os setores tradicionais sem qualquer pudor. Marcelo Crivella (PRB), prefeito do Rio, foi um apoio importante, angariando o voto dos setores cristãos conservadores. Aliado a isso, a tentativa de simbiose da campanha de Witzel com a do clã Bolsonaro igualmente atraiu eleitores — disse.
Por fim, George que as particularidades desta eleição colocaram a prova a eficácia da velha estratégia com apoio dos prefeitos. “As particularidades da conjuntura do Rio explicam, inclusive a baixa eficácia dos prefeitos do interior em angariar votos para Eduardo Paes. Era algo que faria sentido em outros momentos da história eleitoral. Mas, não nesse. Tudo foi muito sui generis”.
Ex-juiz atropelou falta de apoio dos prefeitos
A vitória de Wilson Witzel foi avassaladora no interior. Entre os 32 municípios das regiões dos Lagos, Baixada Litorânea, Norte e Noroeste Fluminense, o ex-juiz teve menos de 65% da votação em apenas sete: Quissamã, São João da Barra, Cardoso Moreira, São José de Ubá, Miracema, Laje do Muriaé e Porciúncula. Porém, em SJB, por exemplo, o índice chegou 64,6%.
O ex-juiz conseguiu, ainda, avançar sobre redutos que mais votaram a Paes no primeiro turno, como em Quissamã, Laje e Ubá, além de São Sebastião do Alto, Trajano de Moraes e Macuco, na Região Serrana, e Comendador Levy Gasparian, no Centro-Sul. Todas foram cidades em que o ex-prefeito carioca foi o mais votado em 7 de outubro, mas que “viraram a casaca” no segundo turno.
Para o prefeito de Conceição de Macabu, Cláudio Linhares (sem partido), que apoio Paes, mas viu Witzel ser o mais votado no município, as companhias do candidato do DEM influenciaram no pleito. “A onda que pegou o Bolsonaro pegou ele (Witzel) também. Quando mostrava o Eduardo com retrato ao lado do Lula, do Sérgio Cabral, desanimava até nós que conhecemos ele. Até nós que temos uma relação de carinho, conhecemos ele, ficamos em dúvida, quanto mais a população que já está indignada, aborrecida. Isso foi crucial para o resultado que aconteceu”.
No entanto, Linhares vê com ressalvas a vitória do ex-juiz e prevê que ele terá dificuldades para governar. “Vejo com reserva, mas torço para que tudo ocorra bem. Sabemos que quando chegar janeiro vamos ter a real noção da situação do Estado, que deve estar muito mais lastimável do que a gente imagina. Acho que ele vai herdar um problema sem precedente. Esse negócio de falar que o estado está melhorando. Não está nada. Está um buraco sem fim e vai ser muito difícil ele conseguir”.

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