Conversa vai, conversa vem
21/01/2017 | 18h44
Conversa vai, conversa vem.                                                                                  Cândida Albernaz          Dona Marta, a senhora não imagina o que me aconteceu hoje antes de vir para cá. Sabe o meu caçula? O Claudinho, aquele que falei que ia dar para a senhora batizar, mas depois teve que ser a irmã do meu marido, porque ela se zangou. Então, o danado do menino viu a camisa do pai, que deixei em cima da mesa e pegou a droga do botão que estava solto e enfiou no nariz. Fiz de tudo e nada de sair. Levei para o posto de saúde e lá colocaram um troço nele e conseguiram tirar. O pior a senhora não sabe. Meu marido estava se arrumando para tentar um trabalho e teve que sair com a camisa sem botão, bem na barriga. E a senhora conhece ele, não é? Lembra do tamanho daquela pança. Pois é, o umbigo enorme que mais parece uma vala ficou aparecendo. Ridículo, claro. Quando voltou, estava zangado porque não conseguiu o serviço e quis botar a culpa em mim. Veio dizer que estava mal vestido e os homens da fábrica não deram o emprego por isso. Agora a senhora veja só! Ele bebe até cair, come feito um boi, engordou nesses últimos anos como uma porca e vem reclamar que a aparência dele está ruim por minha causa. O que a gente tem que ouvir de homem, né? Já estou ficando enjoada dessa vida. E o pior é que não posso fazer nada. Mudar, como? Ganho mal, não é sua culpa dona Marta, mas o salário mínimo não dá para nada. A casa onde moro é da família dele, e tô com quatro filhos. Vou fazer o quê? Aguentar firme, eu sei. Mas é que às vezes tenho uns sonhos bobos. Fico imaginando que se eu tivesse estudado poderia ser alguém nessa vida. Assim como a senhora, que sabe falar direito, se veste com cada roupa... e o cabelo? Macio feito algodão. Às vezes sonho que estou num salão de beleza e aquelas meninas cuidando de mim feito uma rainha. Acho que ia dormir com alguém mexendo no meu cabelo e nos meus pés ao mesmo tempo. Quando posso faço minhas unhas. Então lembro que tenho tanta roupa pra lavar e desisto de passar o esmalte. Não adiantaria nada mesmo, vou borrar e vai ficar horrível. Se eu fosse bonitona assim como a senhora, queria ver se meu marido ficaria de olho na vagabunda da nossa vizinha. Desculpe o jeito de falar, mas é que esse assunto me tira do sério. Só quebrando a cara dela. E eu sei que nem se interessa por ele de verdade. O que a sem-vergonha gosta, é de dinheiro e isso ele não tem. Bonito também tá longe de ser. O que ela quer mesmo é me provocar, rebolando daquele jeito e jogando o cabelo de um lado para o outro o tempo todo. O marido da tal se mandou com a irmã dela e ela ficou trau-ma-ti-za-da. É assim que se fala, não é? Eu não tenho nada com isso. Se a irmã era uma piranha, ela que botasse para correr. Não dá nem para ter pena, porque depois que foi abandonada, começou a dar para todo mundo. Deixe chegar perto. Que fique se mostrando de longe, porque se pego os dois juntos, aquela cabeleira dela vai sumir. Arranco fio por fio. Dona Marta, a senhora tá me olhando desse jeito... Já sei, tô falando muito outra vez, não é? Tava só explicando porque cheguei atrasada. Mas diga, o que faço para o almoço? Só não manda fazer frango de novo. Nem eu que não tenho luxo estou aguentando, quanto mais, seu Artur. Aliás, a senhora sabia que seu Artur ficou de arrumar emprego para o meu marido? Dá uma forcinha, fala com ele, porque a senhora ele escuta. Escuta não, obedece! Meu marido sabe fazer de tudo. Ele ontem... Desculpe dona Marta, já estou indo para a cozinha. Depois a gente termina a conversa.
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Ninguém tem asas para voar
21/01/2017 | 18h44
                        Ninguém tem asas para voar                                                                                                                Cândida Albernaz             Não conseguia se fazer entender. Por mais que imaginasse estar cedendo, para ele era sempre pouco.             Não compreendia que as meias palavras ditas por ela, significavam frases inteiras de uma entrega.             Não entendeu que quando o procurou, mesmo não falando exatamente o que ele insistia em ouvir, estava se rendendo.             Não quis sentir que o toque das mãos em seu pescoço provocou nela o desejo de se deixar levar.             Não mediu consequências quando usou de sedução diária para conquistá-la. Entranhou como vício e provocou tremores e pavor quando, de uma hora para outra, resolveu parar. Ela não vivera antes sintomas de abstinência.             Não enxergou que numa tarde de sol e frio, entre árvores e vinhos ela buscou encontrar a paz. Deixou-se encantar por palavras que falavam no depois e no depois.             Não tentou a paciência para fazer com que ela deixasse de temer.             Não ouviu as palavras que ela não falou, mas que gritavam a sua volta com atitudes que jamais teria tomado.             Não secou a lágrima que escorreu quando ela teve a certeza de que o melhor seria não mais.             Não percebeu na impaciência que ela demonstrava, o medo que tinha de não ter tempo de viver tudo o que imaginava, queria, esperava.             Não julgou que o que oferecia era muito pouco para o tanto que exigia.             Não notou que os dois eram tão similares quanto vinhos de uvas e safras diferentes.             Não soube quando estavam juntos, abraçados um ao outro, que ela precisava ouvir tão pouco. Apenas um sussurro na nuca, que cresceria como um som potente ao chegar a seu ouvido.             Não deixou de afirmar várias vezes que ela o acusava de culpas que não tivera.             Não imaginou que ela se julgava ainda mais culpada por não conseguir se expressar como gostaria.             Não reconheceu que até mesmo quando ela parecia não permitir, já estava indo muito além do que fora algum dia.             Não foi capaz de considerar que quando ela pediu que a tirasse de um chão pesado, onde permanecia presa por argolas de ferro, era um amigo quem procurava.             Não precisou falar duas vezes que não tinha asas para voar e, portanto não teria como fazer com que ela deixasse de sentir a angústia que espremia seu peito numa dor quase incontrolável.             Não tinha como prometer o que não sabia se dar.             Não buscou ver que ninguém, ninguém sabe voar.             Principalmente se não tentar.                                                                                                                            11-7-2011.
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Para casa não posso voltar
21/01/2017 | 18h44
Para casa não posso voltar                                                                                               Cândida Albernaz               Ele está olhando de novo. Se não conseguir desta vez, estou frito.             “E aí, tio? Não tem um trocado pra me dar?”             Vamos lá, abaixe esse vidro e dê a grana. Não percebe o Traíra do outro lado da rua?             Até agora o que juntei vai me garantir uma surra.             “Valeu tia.”             Droga! Não chega a um real. Esses ricaços estão ficando a cada dia pior. A gente pede um dinheirinho e quando dão, é essa mixaria.             Ontem apanhei feito um puto. Não consegui ganhar o que ele queria.               Traíra disse que está precisando de uma camisa nova e que sou eu quem vai dar a ele. A gola da antiga está puída, falou.             Com o frio que fez esta noite, pensei que fosse morrer congelado. Ainda bem que o Chamuca dividiu o cobertor comigo, e deixou que eu encostasse nele. Não sei se ia aguentar. Esse brother é o único que me trata bem. Os outros têm raiva, dizem que sou mole. Não é isso, vou aprendendo aos poucos.             Lá em casa, mamãe vivia gritando que eu era demente, era lerdo e não me suportava mais. Meus irmãos, sim, são inteligentes. Eu nasci meio burro. Falou que bebia muito quando estava no bucho dela porque não queria que eu nascesse. Tentou de tudo para se livrar de mim. Tinha ódio.             Ficava falando que meu pai foi embora porque não suportava olhar na minha cara. Deve ser verdade mesmo. Não entendo direito as coisas e falo devagar. Minha cabeça às vezes doía tanto que começava a gritar. Foi isso! Ele largou a gente por causa dos meus gritos. Hoje em dia, quando a dor chega, fico quieto, coloco as mãos de um lado e do outro e aperto muito. Não adianta, mas não grito.             Mamãe sempre dizia que não gostava de mim, que queria que eu sumisse, ou melhor, que nem tivesse nascido. Resolvi ir embora. Andei quatro dias seguidos, até que encontrei o Traíra. Me deu comida, arrumou um canto dentro do galpão para eu dormir e me abraçou. Sabe há quanto tempo ninguém me abraça? Nunca havia acontecido.             Só avisou que eu teria que ajudar nas despesas. Eu tento, mas sempre levo menos que os outros. Ele disse que perdeu a paciência comigo.             Já deve ter seis meses que estou com ele. Levei pelo menos dez surras. No início dizia que eu estava em treinamento, mas agora não tenho mais o que aprender, só agir.             O que posso fazer se esses manés ficam com medo de abrir o vidro do carro? Sou feio e muito alto, acho que assusto.             Outro dia fui chamado para escolher umas donas e arrancar a bolsa delas. Do jeito que sou lerdo, vão me pegar.             Chamuca é quem se preocupa. Diz que tem um irmão e que pareço com ele.  Não o vê há dois anos. Se não fosse por ele, Traíra já tinha me matado de tanto bater. Como ele é sempre quem traz mais dinheiro, Traíra o respeita. Não quer perder Chamuca para ninguém.                Filho da mãe! Tá me olhando de longe. E eu aqui parado pensando na vida. Tenho que apanhar mesmo. Sei que mereço.             “Tia, um trocado?”             “Aí, valeu!”             Olhei para ele. Essa foi melhor e rendeu uma graninha. Sorri e ele entendeu. Virou e foi para a outra esquina. Vai pegar no pé de Andrezinho. Me deixou em paz.             Tem um bar aqui perto que vende umas balas...             Vou o mais rápido que posso e compro só uma. Se Traíra me pega...              Cara, que bala gostosa!             “E aí, tio? Uma moedinha, só pra ajudar. Tô com fome.”             “Valeu!”             Acho que minha sorte está mudando...
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Um dia, o cansaço
21/01/2017 | 18h44
                         Um dia, o cansaço.                                                                                                                                                    Cândida Albernaz               Mais uma noite e nada. Estava ficando esgotada. Melhor isso do que a tristeza que se tornara sua companhia.             Com cansaço era fácil lidar. Podia deitar, mudar de assunto, desistir. Palavra-chave: desistir.             Sabia que tentara tudo o que podia e sabia também que não mais teria coragem.             Conversaram muito no último domingo. Discutiram na verdade, porque é o que conseguem fazer quando estão ao lado um do outro.             Ele avisou que faria uma viagem, marcada com antecedência. Coincidiu a data ser logo após a discussão. Antes pensara que ela talvez pudesse acompanhá-lo, mas agora decidira o contrário. Voltariam ao assunto quando estivesse de volta.             Depois de sete dias, ela não sabia se ainda queria conversar. Com certeza cada um seguir seu caminho era o único bem que podiam fazer a ambos.             Os dois tão diferentes no agir. Ele costumava dar razões óbvias ao que viviam, e ela a pensar com o imaginário no que poderiam viver.             No início era interessante, divertido até. Mas o tempo mostrou ser desgastante o conviver. E o pior, a sensibilidade latente. Deles. Nisso, não havia diferença.             Sensibilidade e uma razão cortante caminhando lado a lado. Dele. O que provocava discussões bobas que beirava à raiva.             Ele entrou em sua vida como uma enorme onda ocupando todos os espaços. Não deixava a ela tempo para pensar ou decidir. Tomava decisão pelos dois. Quando deu por si, se encontrava no meio de um rodamoinho. Talvez fosse uma tática para envolver, um plano usado tantas outras vezes, em tantas outras relações. Não tinha certeza, pelo menos não naquele momento.             Quase dois anos numa montanha russa, onde prazer e medo se completavam.             Avisara a ela desde o início, nada de filhos, casamento ou mesmo morar juntos.             Prezava sua privacidade, palavras mortas que saíram de sua boca tantas vezes. Achou que concordava com ele, mas apenas adiou uma exigência da qual sentia necessidade cada vez mais.             Nos três últimos meses, brigavam e brigavam sobre o que ela queria e ele não cogitava.             Nunca tivera uma família sua e ele também não.  Mas era dessa forma que ele pretendia continuar. E ela não.             Mil razões foram expostas; Filhos no mundo em que vivemos? E estes gerarão mais filhos? Não aceitava a idéia de futuro tão desgraçado para um descendente seu.             Casamento, papel no cartório ou ainda viver na mesma casa, duas pessoas com hábitos tão diferentes? Haviam manias, ciúme do que possuía e não conseguia dividir espaços com ninguém. Estavam tão bem, divertiam-se, tinham amor, tesão não faltava. Por que mudar? Para que inventar carências?             Ela agora sabia. Um homem que tem pés tão fincados na realidade, não deveria tentar se relacionar com uma mulher que sonha. Em algum momento, ele vai conseguir quebrar-lhe as asas e fazer com que ela despenque de muito alto. Sentia-se cair.             Estava levando a sério a promessa de não ligar enquanto viajava.             Ela sabia que era só uma questão de tempo não querer ficar mais naquela relação.             Talvez não fosse ainda dessa vez, mas quem sabe na próxima?             Fechou os olhos para dormir. O cansaço venceu.                                                                                                                       4/7/2011
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Preciso melhorar de vida
21/01/2017 | 18h44
        Preciso melhorar de vida                                                                                     Cândida Albernaz              Estou de saco cheio dessa vida. Todo dia a mesma história. Ontem  Genilson veio falar comigo outra vez. Sabia o que ele queria e topei. Minha mulher não precisa ficar por dentro porque senão vai falar e me fazer desistir. Ultimamente vive reclamando que não paro em emprego e que não aguenta mais passar necessidade.          Semana passada, Toninho não pôde ir à escola porque o único tênis que tinha soltou a sola inteira além do enorme rasgado na parte de cima. Mandei colocar uma sandália: não tinha nenhuma e descalço não entrava. Tá uma droga essa vida de não ter o que comer direito e a casa caindo aos pedaços. O pai de Cerlene deixou para ela quando morreu. Comprou quando ainda era jovem e tinha um emprego razoável. Nunca fiz uma reforma, porque não tenho dinheiro sobrando.          Estudei pouco, mas graças a Deus sei ler e fazer contas: ninguém me passa para trás. Cerlene sabe mais do que eu, o pai fez questão que terminasse o segundo grau. Aí, me conheceu, ficou grávida e eu que não sou homem de fugir de responsabilidade, casamos. Claro que tivemos que morar com o sogro. Gente boa, me tratava bem. Só tinha uma coisa: exigia que fosse à igreja com ele toda semana. Era religioso e nem eu escapava.          O único problema que tínhamos, era porque vez ou outra eu ficava desempregado. Explicava a ele que não tinha culpa, que esses patrões são muito folgados. Eu não conseguia levar desaforo para casa e quando vinham chamar minha atenção, dependendo do jeito que falavam eu sentava a mão.          Sou brigão na rua, mas com minha mulher é só carinho e dengo. Ela também é melosa para o meu lado. O motivo de a gente brigar é o mesmo do pai dela comigo. Cuida dos nossos filhos, temos dois, com muito amor. Tive sorte em encontrar a Cerlene. Nem gostava tanto dela no início, mas hoje, não vivo sem.          Se ela souber que Genilson tá me rodeando, vai ficar zangada. Sempre falou que se orgulhava por eu não me meter com esses caras da área.          Agora tá difícil. Vai fazer um ano não arrumo nada. O salário de doméstica que ela recebe não dá. Tem trazido roupa para lavar e passar em casa tentando ganhar um extra. Está exausta.          O posto de gasolina que nós estamos de olho tem um movimento bom e já sabemos como tudo funciona: Genilson trabalhou lá por uns tempos. Vai ser rápido e não vamos machucar ninguém. Combinamos de usar arma de brinquedo, que nunca coloquei a mão numa de verdade. Será na semana que vem.                             *                          *                          *          Rendemos os três funcionários e enquanto Genilson está com eles recolhendo a grana, eu vigio.          Estou suando muito e meu coração parece que vai explodir. Olho para trás algumas vezes e mando andar rápido. Quando já estamos saindo, um idiota atira: tinha uma arma de verdade na merda do posto. Genilson vira e atira de volta. Pontaria certeira, o cara cai. Olho para ele e grito que não foi o que combinamos, me chama de babaca e sai correndo. Outro tiro sai lá de dentro, Genilson cai e a mochila que carregava solta de sua mão. Volto para tentar pegar. Mais um tiro: os desgraçados me acertaram. O peito parece ter levado um soco violento. Ouço novo barulho e um baque no meu corpo, não sei onde fui atingido agora. Sinto um líquido grosso encher minha garganta me impedindo de respirar. Ainda passa nos meus olhos a imagem de Toninho com o tênis novo, que prometi comprar para ele e para o irmão.
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Preciso tomar uma decisão
21/01/2017 | 18h44
  Preciso tomar uma decisão                                                                                   Cândida Albernaz             Sua cabeça hoje parecia não estar funcionando como de costume.             Ouvia os pedidos, anotava-os mecanicamente. Qualquer dia chamariam sua atenção. Ontem mesmo errara com um cliente antigo e reclamão. Pediu desculpas, mas mesmo assim notou que o gerente olhou de cara feia.             Precisava estar mais atento. Como conseguir com o que estava acontecendo? Era um homem de paz, nunca brigava ou se metia em confusão.             Uma das coisas que chamava atenção em sua personalidade era a paciência. Mas esta parece ter ido embora desde o dia...             Estão chamando outra vez. Será que esta noite nunca acaba? Onze horas ainda. O restaurante costuma fechar às três.             Mais um problema: a mesa cinco pediu um cherne e anotou salmão. Droga! Tudo não era peixe? Não seria mais fácil que eles comessem o que trouxe ao invés de reclamar? Sempre ouviu falar que o tal do salmão é bom para a saúde. Pois então, estava ajudando o sujeito e ele ainda achava ruim. Vontade de trazer esse cherne e enfiar nele goela abaixo. Pelo tipo, nem deve dar uma boa gorjeta. Vai acabar perdendo o emprego. Graças àquela vadia que tem em casa, o pior é que não conseguia deixar de amar a desgraçada. Acabou com o juízo dele. Precisava se concentrar: no trabalho, em si mesmo e na decisão que deveria tomar.             Já não tinha resolvido? Não a mandaria embora. Precisava dela, era viciado naquela mulher.             Descobriu tudo. Aliás, ela nunca fez questão de esconder, ele sim fazia questão de não ver.             Dez anos, estavam juntos há dez anos. Não tiveram filhos porque ela não quis. Não se casaram na igreja porque ela não quis. Não tem paz porque ela não quer.             Quando a conheceu, os amigos tentaram avisá-lo, mas não acreditou. Disse que passado era passado e que ela seria diferente com ele. Não foi.             O nome do sujeito era José. Isso lá é nome de amante? Mas o filho da puta estava saindo com a mulher dele e pior: há um bom tempo.       Não havia outro jeito, se não conseguia mandá-la embora, ou ele mesmo sair de casa, teria que matá-la. Precisava ter sossego, mesmo que fosse numa prisão. Do jeito que as coisas estavam não podia continuar. Só tinha que decidir como ia fazer. Faca? Revólver? Nem sabia como usar. Veneno? Duas horas, o movimento acabou mais cedo. Ia para casa. O gerente avisou que se continuasse assim, não trabalharia ali. Pensou que aquele cara poderia se danar. Não vai passar de hoje. Esta noite decide sua vida. Ela deve estar dormindo. Será mais fácil. *                                                   *                                                           *  Continua linda e ele ainda se emociona ao vê-la dormir. Parece uma criança desprotegida. Sua menininha. Gosta de chamá-la assim. Está cansado e resolve tomar um banho. Depois que se sentir relaxado, faz o que tem que fazer. Nenhum barulho a incomoda. Sempre teve sono pesado. Só acorda se a toca. Então ela se espreguiça e diz: chegou amor? Agacha-se e a beija, ela puxa seu corpo ao mesmo tempo em que segura a mão dele para que em formato de concha toque seu peito. Sabe do que gosto, não é? Ao ouvir o gemido, só consegue falar: amo você, minha menininha. A resposta é a de sempre: e você meu querido, será sempre o único homem que vou amar.
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Por que não hábitos?
21/01/2017 | 18h44
                        Por que não hábitos?                                                                                   Cândida Albernaz             Costumava chegar à casa todo dia à mesma hora. Tinha hábitos regulares e qualquer mudança de planos fazia com que seu coração batesse acelerado. Se isso acontecia, andava até o hospital mais próximo, que por sorte ficava na quadra seguinte, e pedia que medissem sua pressão. Lá dentro, quase todos o conheciam.             Algumas vezes ouvia um cochicho aqui, outro ali. “Olha quem está aí de novo”. E davam risada.             A garota da recepção exigia que preenchesse o formulário e fazia as mesmas perguntas, apesar de, tinha certeza, ela conhecer todos os seus dados. Então deixava que esperasse um pouco e pedia a algum estagiário que o atendesse. Isso costumava irritá-lo, porque se estivesse com um problema sério, aquele garoto ou garota, não saberia como agir. Não reclamava, porque quando fez isso, ficou quase uma hora aguardando para ser atendido.             Imagina deixar alguém passando mal, todo esse tempo esperando. Podia morrer naquela sala de espera.             Não se casara, porque não admitia alguém tentando mandar no mesmo lugar que ele.             Ficou noivo uma vez. Comprou um apartamento, esse onde mora. Na hora de decorar, quis móveis práticos que não dessem muito trabalho. Conversou com a noiva para que não usassem cores claras nos estofados porque mancham com facilidade. Lençóis, só brancos. Qualquer sujeira seria logo identificada e colocariam para lavar. O mesmo piso em todos os aposentos, inclusive banheiros e cozinha. Mais prático.             Foi nessa hora que o noivado começou a não dar certo. Ele dizia como queria tudo e a sogra e a noiva resolveram opinar. Pior, discordar.             Numa manhã, quando abriu a porta da sala viu duas plantas colocadas próximo ao sofá e à entrada. Não pensou duas vezes e pediu que subisse alguém para retirar dali. A noiva chegou e perguntou se havia gostado... “Onde estão as plantas que comprei?” Não havia reparado antes no tom agudo e alto que a noiva usava para falar.             Explicou que não gostava de plantas dentro de casa porque “sujam tudo”. A água, a terra, a folha seca caindo no chão... Se fazia tanta questão, colocariam artificial. Depois de algum tempo, conseguiu convencê-la.             O auge foi durante um jantar, em que estavam sua mãe e os pais dela, quando começou a falar, aquela voz fina novamente, sobre qual seria o nome do filho que teriam. - Não vai ser logo, claro, porque quero aproveitar com meu maridinho. Mas em dois anos no máximo... Mais tarde, no carro em frente a casa dela, perguntou se lembrava que haviam combinado não ter filhos. Ainda se recorda, dez anos depois, do olhar de espanto, fingido em sua opinião, com que ela o olhou.             - Só unzinho. Quero muito ser mãe. Você falou sobre isso há tanto tempo... Nunca mais conversamos a respeito.             - Porque achei que não precisava.             - Somente um. Menino! E colocaremos o seu nome.             A voz dela parecia estridente para seu ouvido.             - Não teremos filho. Não gosto de bagunça, cheiro de cocô, criança vomitando ou barulho desnecessário.             - Você está falando de um filho nosso!             - Não. Estou falando de crianças que choram, gritam e tiram tudo do lugar.             Ela saiu do carro batendo a porta. Não quis mais falar com ele.             Uma semana depois, encaixotou os lençóis e as toalhas brancas que a sogra havia comprado e mandou entregar na casa dela.             Outro dia ela passou por ele na rua segurando a mão de uma menina e grávida. Virou o rosto quando o viu. Não fazia mesmo questão de falar com ela. Ainda lembrava a voz que o incomodava tanto.  Nunca mais quis saber de casamento. Teve uma mulher ou outra, mas por pouco tempo.             Abriu a geladeira e retirou o pote com a data de hoje. Colocou no microondas e pegou prato e talher. Comeria na cozinha como sempre, sentado no banco que ficava embaixo da mesa de mármore branco. Não gostava de tampo de vidro, porque deixa marcas de dedos quando encostados nele.             Depois de limpar a cozinha sentaria para ver o jornal que começaria em quinze minutos. A televisão estava programada para ligar na hora desejada.             Olhou o chão e viu que respingara água. Com um muxoxo foi ao tanque pegar um pano.                                                                                                           13-6-2011
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Aniversário
21/01/2017 | 18h44
                                                           Aniversário                                                                                   Cândida Albernaz             Meu domingo ontem foi cansativo. Pedi ao marido para lavar o quintal e ele me disse que não precisava, porque não ficávamos muito por ali. Peguei o balde, a vassoura e a lixeira e fiz tudo sozinha. Pelo menos isso podia ficar por conta deles. Não acordei muito boa hoje. Se a patroa reclamar comigo por qualquer coisa, vou soltar os cachorros em cima dela. E ainda peço demissão. Quero ver arranjar alguém para o serviço como eu. Cozinho, e muito bem, arrumo a casa e ainda passo a roupa que ela põe na máquina. Não reclamo, gosto de trabalhar. E preciso. Desde menina ajudava a meus pais com o dinheiro que recebia como babá. Futuro, sei que não tenho, mas orgulho de ser honesta carrego comigo. Meu filho, estou criando para ser alguém. Exijo boas notas, dou tudo o que ele precisa: carinho, comida, livros e roupa limpa. O pai ajuda também porque não é desses homens folgados que tem por aí.  Minha cunhada sofre um bocado com o marido, que não quer nada com o serviço. Sempre desempregado. Inventou que tem um problema na coluna e vira e mexe fica em casa vendo televisão. Comprada por ela, que faz faxina todos os dias da semana. Se fosse comigo, já tinha largado aquele traste. Cansei de ver o cara pedindo dinheiro a ela, “Pra me distrair um pouquinho, filha. Essa dor tá me matando. Acho que não duro muito tempo...”.  Por duas vezes encontrei o safado no forró, dançando com umas e outras e aproveitando da inocência da tonta. A coluna a essa altura, estava curada. Não me viu, mas a próxima vez, pego a irmã de meu marido pelo braço e levo até lá. Onde já se viu sustentar homem? E ainda por cima tem mania de chamar a mulher de filha. Sujeito ridículo. Sei que sou esquentada, mas gosto das coisas certas. Se respeito quero ser respeitada.  Do meu não posso falar, porque é trabalhador como eu. Um sempre ajudou o outro. O único problema lá em casa é o final de semana. Lavo toda a roupa, limpo a casa, cozinho para a gente e ainda tenho que cuidar do quintal. Essa é minha briga com meu marido e meu filho. Não ajudam e quando resolvem, parece que fica pior.  Outro dia, eu estava doente e eles resolveram que iam preparar o almoço. Estava até bom, mas quando olhei a cozinha... Fiquei muito brava. Os dois acabaram de comer e sentaram para assistir um jogo de futebol na televisão. Garantiram que quando acabasse lavariam a bagunça. E eu tenho paciência para esperar? Gosto de ordem. Doente ou não, encostei a barriga na pia e só saí dali depois de colocar tudo no lugar. Essa história de adoecer e ficar em casa, é pior, sobra mais trabalho.  Enfim o dia está terminando. Meu humor já melhorou. À noite vou fazer um bolo porque amanhã meu filho faz onze anos. O pai ia passar no supermercado e comprar refrigerante, salsicha e pão. Tenho que deixar tudo pronto hoje. Chamei só os primos e os tios. Pouca gente, nossa família não é grande. Ele ainda não sabe, mas conseguimos comprar uma bicicleta dessas especiais. Queria tanto. A recompensa vai ser os olhos dele brilharem. Quanto ao riso, nós três vamos estar rindo juntos.                                                                                                                   6-6-2011                                  
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Desencontro
21/01/2017 | 18h44
Desencontro      Cândida Albernaz    Apertou o botão e fez com que a música repetisse. Era a quinta ou sexta vez que a ouvia. Sozinha no carro rodava pela cidade olhando à sua volta sem ver. O som baixo e a voz feminina parecia penetrar em seu corpo.  Havia dito a Carlos, sem olhar para seu rosto, que desistia. “Não mais, quero mudar. Cansei do que não podemos nos oferecer”. Ele insistiu para que ela falasse, explicasse o que já sabia e também sentia.  Quando estavam juntos, era bom, mas quase nunca isso acontecia. Moravam em cidades diferentes, cada um com sua vida sem abrir mão do que diziam ser importante.  Carinho, precisava. Um abraço fora de hora, um toque no rosto, um telefonema no meio da noite para falar quase nada, a mão na cintura para protegê-la do perigo inexistente, um convite inesperado para algo que imaginava ela fosse gostar... Ele não conseguia. Quando reclamava, Carlos dizia que fora criado com firmeza. Os pais trabalhavam o dia todo, mal tiveram tempo para os filhos. Vida dura, pais duros, criados por avós que achavam que ter rigidez era necessário para que se tornassem pessoas fortes. A mesma mentalidade atropelando gerações.  Estavam juntos há alguns anos. Conheceram-se num congresso, os dois médicos, apaixonados pela profissão. O que faltava neles, paixão. Desde o começo foi um gostar morno e nem mesmo sabia por que continuaram. Tinham gostos parecidos, mas agora tinha certeza: não precisava de um espelho onde se visse refletida.            A música acabou mais uma vez. Resolveu voltar para casa. Chorara e pensara o bastante. Não mudaria de idéia.   Estava com fome. Decidiu tomar um banho, preparar um lanche e depois assistir a algum filme na televisão.  Desligou o celular, não queria falar com mais ninguém.  Apesar de tudo, sentia-se leve. O tempo ia passar e os sentimentos voltariam para o lugar. Era só ter um pouco de paciência.          *   *   *   *  Coincidência essa música no rádio agora. Aumentou o volume. Tina costuma dizer que é dos dois. Ele nunca se ligara nisso. Na verdade já ouvira outras vezes, mas era a primeira vez em que pensava nela como sendo deles.  A conversa hoje pela manhã não foi nada boa. Tina devia estar nervosa com algum problema no trabalho e descontou nele. O final de semana nem foi tão ruim. Esperaria passar alguns dias e ligaria. Com a saudade seria fácil convencê-la.  Era bom quando estavam juntos, não entendia porque vivia insatisfeita. Esperava que ele fosse carinhoso, pegajoso, grudento. Ora! Então não percebia que a amava? Precisava ficar afirmando isso sempre?  Afinal não ia vê-la duas vezes por mês? E quando ela vinha?  Não tiveram aquela paixão irrefreável, nem mesmo acredita possível. Isso atrapalharia sua vida, gostava de sentimentos mais tranqüilos, duradouros. Cinema é cinema. Tinha os pés no chão e pretendia continuar. Sua vida planejada em detalhes, casariam em dois anos, teriam um filho, porque mais do que isso é exagero e ela pediria transferência para onde ele morava. Quem sabe montariam uma clínica juntos?  De qualquer forma, agora teria que esperar que ela mudasse de idéia.  Estacionou o carro e entrando em casa foi direto para a cozinha. Estava com fome depois de muitas horas na estrada. Ao deitar, deixaria o telefone do lado. Pode ser que Tina ligue arrependida. Se não acontecer, já pensou em tudo, voltaria na semana que vem fazendo uma surpresa. Ela não ia resistir.                                                                                                      30-5-11
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Candida Albernaz

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