Ninguém tem asas para voar
Ninguém tem asas para voar
Cândida Albernaz
Não conseguia se fazer entender. Por mais que imaginasse estar cedendo, para ele era sempre pouco.
Não compreendia que as meias palavras ditas por ela, significavam frases inteiras de uma entrega.
Não entendeu que quando o procurou, mesmo não falando exatamente o que ele insistia em ouvir, estava se rendendo.
Não quis sentir que o toque das mãos em seu pescoço provocou nela o desejo de se deixar levar.
Não mediu consequências quando usou de sedução diária para conquistá-la. Entranhou como vício e provocou tremores e pavor quando, de uma hora para outra, resolveu parar. Ela não vivera antes sintomas de abstinência.
Não enxergou que numa tarde de sol e frio, entre árvores e vinhos ela buscou encontrar a paz. Deixou-se encantar por palavras que falavam no depois e no depois.
Não tentou a paciência para fazer com que ela deixasse de temer.
Não ouviu as palavras que ela não falou, mas que gritavam a sua volta com atitudes que jamais teria tomado.
Não secou a lágrima que escorreu quando ela teve a certeza de que o melhor seria não mais.
Não percebeu na impaciência que ela demonstrava, o medo que tinha de não ter tempo de viver tudo o que imaginava, queria, esperava.
Não julgou que o que oferecia era muito pouco para o tanto que exigia.
Não notou que os dois eram tão similares quanto vinhos de uvas e safras diferentes.
Não soube quando estavam juntos, abraçados um ao outro, que ela precisava ouvir tão pouco. Apenas um sussurro na nuca, que cresceria como um som potente ao chegar a seu ouvido.
Não deixou de afirmar várias vezes que ela o acusava de culpas que não tivera.
Não imaginou que ela se julgava ainda mais culpada por não conseguir se expressar como gostaria.
Não reconheceu que até mesmo quando ela parecia não permitir, já estava indo muito além do que fora algum dia.
Não foi capaz de considerar que quando ela pediu que a tirasse de um chão pesado, onde permanecia presa por argolas de ferro, era um amigo quem procurava.
Não precisou falar duas vezes que não tinha asas para voar e, portanto não teria como fazer com que ela deixasse de sentir a angústia que espremia seu peito numa dor quase incontrolável.
Não tinha como prometer o que não sabia se dar.
Não buscou ver que ninguém, ninguém sabe voar.
Principalmente se não tentar.
11-7-2011.