Por que não hábitos?
candida 16/06/2011 03:54
                        Por que não hábitos?                                                                                   Cândida Albernaz             Costumava chegar à casa todo dia à mesma hora. Tinha hábitos regulares e qualquer mudança de planos fazia com que seu coração batesse acelerado. Se isso acontecia, andava até o hospital mais próximo, que por sorte ficava na quadra seguinte, e pedia que medissem sua pressão. Lá dentro, quase todos o conheciam.             Algumas vezes ouvia um cochicho aqui, outro ali. “Olha quem está aí de novo”. E davam risada.             A garota da recepção exigia que preenchesse o formulário e fazia as mesmas perguntas, apesar de, tinha certeza, ela conhecer todos os seus dados. Então deixava que esperasse um pouco e pedia a algum estagiário que o atendesse. Isso costumava irritá-lo, porque se estivesse com um problema sério, aquele garoto ou garota, não saberia como agir. Não reclamava, porque quando fez isso, ficou quase uma hora aguardando para ser atendido.             Imagina deixar alguém passando mal, todo esse tempo esperando. Podia morrer naquela sala de espera.             Não se casara, porque não admitia alguém tentando mandar no mesmo lugar que ele.             Ficou noivo uma vez. Comprou um apartamento, esse onde mora. Na hora de decorar, quis móveis práticos que não dessem muito trabalho. Conversou com a noiva para que não usassem cores claras nos estofados porque mancham com facilidade. Lençóis, só brancos. Qualquer sujeira seria logo identificada e colocariam para lavar. O mesmo piso em todos os aposentos, inclusive banheiros e cozinha. Mais prático.             Foi nessa hora que o noivado começou a não dar certo. Ele dizia como queria tudo e a sogra e a noiva resolveram opinar. Pior, discordar.             Numa manhã, quando abriu a porta da sala viu duas plantas colocadas próximo ao sofá e à entrada. Não pensou duas vezes e pediu que subisse alguém para retirar dali. A noiva chegou e perguntou se havia gostado... “Onde estão as plantas que comprei?” Não havia reparado antes no tom agudo e alto que a noiva usava para falar.             Explicou que não gostava de plantas dentro de casa porque “sujam tudo”. A água, a terra, a folha seca caindo no chão... Se fazia tanta questão, colocariam artificial. Depois de algum tempo, conseguiu convencê-la.             O auge foi durante um jantar, em que estavam sua mãe e os pais dela, quando começou a falar, aquela voz fina novamente, sobre qual seria o nome do filho que teriam. - Não vai ser logo, claro, porque quero aproveitar com meu maridinho. Mas em dois anos no máximo... Mais tarde, no carro em frente a casa dela, perguntou se lembrava que haviam combinado não ter filhos. Ainda se recorda, dez anos depois, do olhar de espanto, fingido em sua opinião, com que ela o olhou.             - Só unzinho. Quero muito ser mãe. Você falou sobre isso há tanto tempo... Nunca mais conversamos a respeito.             - Porque achei que não precisava.             - Somente um. Menino! E colocaremos o seu nome.             A voz dela parecia estridente para seu ouvido.             - Não teremos filho. Não gosto de bagunça, cheiro de cocô, criança vomitando ou barulho desnecessário.             - Você está falando de um filho nosso!             - Não. Estou falando de crianças que choram, gritam e tiram tudo do lugar.             Ela saiu do carro batendo a porta. Não quis mais falar com ele.             Uma semana depois, encaixotou os lençóis e as toalhas brancas que a sogra havia comprado e mandou entregar na casa dela.             Outro dia ela passou por ele na rua segurando a mão de uma menina e grávida. Virou o rosto quando o viu. Não fazia mesmo questão de falar com ela. Ainda lembrava a voz que o incomodava tanto.  Nunca mais quis saber de casamento. Teve uma mulher ou outra, mas por pouco tempo.             Abriu a geladeira e retirou o pote com a data de hoje. Colocou no microondas e pegou prato e talher. Comeria na cozinha como sempre, sentado no banco que ficava embaixo da mesa de mármore branco. Não gostava de tampo de vidro, porque deixa marcas de dedos quando encostados nele.             Depois de limpar a cozinha sentaria para ver o jornal que começaria em quinze minutos. A televisão estava programada para ligar na hora desejada.             Olhou o chão e viu que respingara água. Com um muxoxo foi ao tanque pegar um pano.                                                                                                           13-6-2011

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

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