Desencontro
Desencontro
Cândida Albernaz
Apertou o botão e fez com que a música repetisse. Era a quinta ou sexta vez que a ouvia. Sozinha no carro rodava pela cidade olhando à sua volta sem ver. O som baixo e a voz feminina parecia penetrar em seu corpo.
Havia dito a Carlos, sem olhar para seu rosto, que desistia. “Não mais, quero mudar. Cansei do que não podemos nos oferecer”. Ele insistiu para que ela falasse, explicasse o que já sabia e também sentia.
Quando estavam juntos, era bom, mas quase nunca isso acontecia. Moravam em cidades diferentes, cada um com sua vida sem abrir mão do que diziam ser importante.
Carinho, precisava. Um abraço fora de hora, um toque no rosto, um telefonema no meio da noite para falar quase nada, a mão na cintura para protegê-la do perigo inexistente, um convite inesperado para algo que imaginava ela fosse gostar... Ele não conseguia. Quando reclamava, Carlos dizia que fora criado com firmeza. Os pais trabalhavam o dia todo, mal tiveram tempo para os filhos. Vida dura, pais duros, criados por avós que achavam que ter rigidez era necessário para que se tornassem pessoas fortes. A mesma mentalidade atropelando gerações.
Estavam juntos há alguns anos. Conheceram-se num congresso, os dois médicos, apaixonados pela profissão. O que faltava neles, paixão. Desde o começo foi um gostar morno e nem mesmo sabia por que continuaram. Tinham gostos parecidos, mas agora tinha certeza: não precisava de um espelho onde se visse refletida.
A música acabou mais uma vez. Resolveu voltar para casa. Chorara e pensara o bastante. Não mudaria de idéia.
Estava com fome. Decidiu tomar um banho, preparar um lanche e depois assistir a algum filme na televisão.
Desligou o celular, não queria falar com mais ninguém.
Apesar de tudo, sentia-se leve. O tempo ia passar e os sentimentos voltariam para o lugar. Era só ter um pouco de paciência.
* * * *
Coincidência essa música no rádio agora. Aumentou o volume. Tina costuma dizer que é dos dois. Ele nunca se ligara nisso. Na verdade já ouvira outras vezes, mas era a primeira vez em que pensava nela como sendo deles.
A conversa hoje pela manhã não foi nada boa. Tina devia estar nervosa com algum problema no trabalho e descontou nele. O final de semana nem foi tão ruim. Esperaria passar alguns dias e ligaria. Com a saudade seria fácil convencê-la.
Era bom quando estavam juntos, não entendia porque vivia insatisfeita. Esperava que ele fosse carinhoso, pegajoso, grudento. Ora! Então não percebia que a amava? Precisava ficar afirmando isso sempre?
Afinal não ia vê-la duas vezes por mês? E quando ela vinha?
Não tiveram aquela paixão irrefreável, nem mesmo acredita possível. Isso atrapalharia sua vida, gostava de sentimentos mais tranqüilos, duradouros. Cinema é cinema. Tinha os pés no chão e pretendia continuar.
Sua vida planejada em detalhes, casariam em dois anos, teriam um filho, porque mais do que isso é exagero e ela pediria transferência para onde ele morava. Quem sabe montariam uma clínica juntos?
De qualquer forma, agora teria que esperar que ela mudasse de idéia.
Estacionou o carro e entrando em casa foi direto para a cozinha. Estava com fome depois de muitas horas na estrada. Ao deitar, deixaria o telefone do lado. Pode ser que Tina ligue arrependida. Se não acontecer, já pensou em tudo, voltaria na semana que vem fazendo uma surpresa. Ela não ia resistir.
30-5-11