Preciso tomar uma decisão
Preciso tomar uma decisão
Cândida Albernaz
Sua cabeça hoje parecia não estar funcionando como de costume.
Ouvia os pedidos, anotava-os mecanicamente. Qualquer dia chamariam sua atenção. Ontem mesmo errara com um cliente antigo e reclamão. Pediu desculpas, mas mesmo assim notou que o gerente olhou de cara feia.
Precisava estar mais atento. Como conseguir com o que estava acontecendo? Era um homem de paz, nunca brigava ou se metia em confusão.
Uma das coisas que chamava atenção em sua personalidade era a paciência. Mas esta parece ter ido embora desde o dia...
Estão chamando outra vez. Será que esta noite nunca acaba? Onze horas ainda. O restaurante costuma fechar às três.
Mais um problema: a mesa cinco pediu um cherne e anotou salmão. Droga! Tudo não era peixe? Não seria mais fácil que eles comessem o que trouxe ao invés de reclamar? Sempre ouviu falar que o tal do salmão é bom para a saúde. Pois então, estava ajudando o sujeito e ele ainda achava ruim. Vontade de trazer esse cherne e enfiar nele goela abaixo. Pelo tipo, nem deve dar uma boa gorjeta.
Vai acabar perdendo o emprego. Graças àquela vadia que tem em casa, o pior é que não conseguia deixar de amar a desgraçada. Acabou com o juízo dele. Precisava se concentrar: no trabalho, em si mesmo e na decisão que deveria tomar.
Já não tinha resolvido? Não a mandaria embora. Precisava dela, era viciado naquela mulher.
Descobriu tudo. Aliás, ela nunca fez questão de esconder, ele sim fazia questão de não ver.
Dez anos, estavam juntos há dez anos. Não tiveram filhos porque ela não quis. Não se casaram na igreja porque ela não quis. Não tem paz porque ela não quer.
Quando a conheceu, os amigos tentaram avisá-lo, mas não acreditou. Disse que passado era passado e que ela seria diferente com ele. Não foi.
O nome do sujeito era José. Isso lá é nome de amante? Mas o filho da puta estava saindo com a mulher dele e pior: há um bom tempo.
Não havia outro jeito, se não conseguia mandá-la embora, ou ele mesmo sair de casa, teria que matá-la.
Precisava ter sossego, mesmo que fosse numa prisão. Do jeito que as coisas estavam não podia continuar. Só tinha que decidir como ia fazer. Faca? Revólver? Nem sabia como usar. Veneno?
Duas horas, o movimento acabou mais cedo. Ia para casa. O gerente avisou que se continuasse assim, não trabalharia ali. Pensou que aquele cara poderia se danar.
Não vai passar de hoje. Esta noite decide sua vida.
Ela deve estar dormindo. Será mais fácil.
* * *
Continua linda e ele ainda se emociona ao vê-la dormir. Parece uma criança desprotegida. Sua menininha. Gosta de chamá-la assim.
Está cansado e resolve tomar um banho. Depois que se sentir relaxado, faz o que tem que fazer.
Nenhum barulho a incomoda. Sempre teve sono pesado. Só acorda se a toca. Então ela se espreguiça e diz: chegou amor?
Agacha-se e a beija, ela puxa seu corpo ao mesmo tempo em que segura a mão dele para que em formato de concha toque seu peito. Sabe do que gosto, não é?
Ao ouvir o gemido, só consegue falar: amo você, minha menininha.
A resposta é a de sempre: e você meu querido, será sempre o único homem que vou amar.