Aniversário
candida 09/06/2011 09:04
                                                           Aniversário                                                                                   Cândida Albernaz             Meu domingo ontem foi cansativo. Pedi ao marido para lavar o quintal e ele me disse que não precisava, porque não ficávamos muito por ali. Peguei o balde, a vassoura e a lixeira e fiz tudo sozinha. Pelo menos isso podia ficar por conta deles. Não acordei muito boa hoje. Se a patroa reclamar comigo por qualquer coisa, vou soltar os cachorros em cima dela. E ainda peço demissão. Quero ver arranjar alguém para o serviço como eu. Cozinho, e muito bem, arrumo a casa e ainda passo a roupa que ela põe na máquina. Não reclamo, gosto de trabalhar. E preciso. Desde menina ajudava a meus pais com o dinheiro que recebia como babá. Futuro, sei que não tenho, mas orgulho de ser honesta carrego comigo. Meu filho, estou criando para ser alguém. Exijo boas notas, dou tudo o que ele precisa: carinho, comida, livros e roupa limpa. O pai ajuda também porque não é desses homens folgados que tem por aí.  Minha cunhada sofre um bocado com o marido, que não quer nada com o serviço. Sempre desempregado. Inventou que tem um problema na coluna e vira e mexe fica em casa vendo televisão. Comprada por ela, que faz faxina todos os dias da semana. Se fosse comigo, já tinha largado aquele traste. Cansei de ver o cara pedindo dinheiro a ela, “Pra me distrair um pouquinho, filha. Essa dor tá me matando. Acho que não duro muito tempo...”.  Por duas vezes encontrei o safado no forró, dançando com umas e outras e aproveitando da inocência da tonta. A coluna a essa altura, estava curada. Não me viu, mas a próxima vez, pego a irmã de meu marido pelo braço e levo até lá. Onde já se viu sustentar homem? E ainda por cima tem mania de chamar a mulher de filha. Sujeito ridículo. Sei que sou esquentada, mas gosto das coisas certas. Se respeito quero ser respeitada.  Do meu não posso falar, porque é trabalhador como eu. Um sempre ajudou o outro. O único problema lá em casa é o final de semana. Lavo toda a roupa, limpo a casa, cozinho para a gente e ainda tenho que cuidar do quintal. Essa é minha briga com meu marido e meu filho. Não ajudam e quando resolvem, parece que fica pior.  Outro dia, eu estava doente e eles resolveram que iam preparar o almoço. Estava até bom, mas quando olhei a cozinha... Fiquei muito brava. Os dois acabaram de comer e sentaram para assistir um jogo de futebol na televisão. Garantiram que quando acabasse lavariam a bagunça. E eu tenho paciência para esperar? Gosto de ordem. Doente ou não, encostei a barriga na pia e só saí dali depois de colocar tudo no lugar. Essa história de adoecer e ficar em casa, é pior, sobra mais trabalho.  Enfim o dia está terminando. Meu humor já melhorou. À noite vou fazer um bolo porque amanhã meu filho faz onze anos. O pai ia passar no supermercado e comprar refrigerante, salsicha e pão. Tenho que deixar tudo pronto hoje. Chamei só os primos e os tios. Pouca gente, nossa família não é grande. Ele ainda não sabe, mas conseguimos comprar uma bicicleta dessas especiais. Queria tanto. A recompensa vai ser os olhos dele brilharem. Quanto ao riso, nós três vamos estar rindo juntos.                                                                                                                   6-6-2011                                  

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

    Sobre o autor

    Candida Albernaz

    [email protected]

    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

    BLOGS - MAIS LIDAS