Aniversário
Aniversário
Cândida Albernaz
Meu domingo ontem foi cansativo. Pedi ao marido para lavar o quintal e ele me disse que não precisava, porque não ficávamos muito por ali. Peguei o balde, a vassoura e a lixeira e fiz tudo sozinha. Pelo menos isso podia ficar por conta deles.
Não acordei muito boa hoje. Se a patroa reclamar comigo por qualquer coisa, vou soltar os cachorros em cima dela. E ainda peço demissão. Quero ver arranjar alguém para o serviço como eu. Cozinho, e muito bem, arrumo a casa e ainda passo a roupa que ela põe na máquina. Não reclamo, gosto de trabalhar. E preciso. Desde menina ajudava a meus pais com o dinheiro que recebia como babá. Futuro, sei que não tenho, mas orgulho de ser honesta carrego comigo. Meu filho, estou criando para ser alguém. Exijo boas notas, dou tudo o que ele precisa: carinho, comida, livros e roupa limpa. O pai ajuda também porque não é desses homens folgados que tem por aí.
Minha cunhada sofre um bocado com o marido, que não quer nada com o serviço. Sempre desempregado. Inventou que tem um problema na coluna e vira e mexe fica em casa vendo televisão. Comprada por ela, que faz faxina todos os dias da semana. Se fosse comigo, já tinha largado aquele traste. Cansei de ver o cara pedindo dinheiro a ela, “Pra me distrair um pouquinho, filha. Essa dor tá me matando. Acho que não duro muito tempo...”.
Por duas vezes encontrei o safado no forró, dançando com umas e outras e aproveitando da inocência da tonta. A coluna a essa altura, estava curada. Não me viu, mas a próxima vez, pego a irmã de meu marido pelo braço e levo até lá. Onde já se viu sustentar homem? E ainda por cima tem mania de chamar a mulher de filha. Sujeito ridículo.
Sei que sou esquentada, mas gosto das coisas certas. Se respeito quero ser respeitada.
Do meu não posso falar, porque é trabalhador como eu. Um sempre ajudou o outro. O único problema lá em casa é o final de semana. Lavo toda a roupa, limpo a casa, cozinho para a gente e ainda tenho que cuidar do quintal. Essa é minha briga com meu marido e meu filho. Não ajudam e quando resolvem, parece que fica pior.
Outro dia, eu estava doente e eles resolveram que iam preparar o almoço. Estava até bom, mas quando olhei a cozinha... Fiquei muito brava. Os dois acabaram de comer e sentaram para assistir um jogo de futebol na televisão. Garantiram que quando acabasse lavariam a bagunça. E eu tenho paciência para esperar? Gosto de ordem. Doente ou não, encostei a barriga na pia e só saí dali depois de colocar tudo no lugar. Essa história de adoecer e ficar em casa, é pior, sobra mais trabalho.
Enfim o dia está terminando. Meu humor já melhorou. À noite vou fazer um bolo porque amanhã meu filho faz onze anos.
O pai ia passar no supermercado e comprar refrigerante, salsicha e pão. Tenho que deixar tudo pronto hoje. Chamei só os primos e os tios. Pouca gente, nossa família não é grande. Ele ainda não sabe, mas conseguimos comprar uma bicicleta dessas especiais. Queria tanto. A recompensa vai ser os olhos dele brilharem. Quanto ao riso, nós três vamos estar rindo juntos.
6-6-2011