Embaixo da mangueira
21/01/2017 | 18h48
Embaixo da mangueira Cândida Albernaz A casa amarela na esquina com as paredes cheias de rachaduras e o portão que um dia fora branco, levou-a de volta a um tempo que julgava esquecido. Não precisava entrar para saber que no canto esquerdo da sala, o rodapé havia se soltado. Tinha certeza de que continuava assim, mesmo sem ter estado lá por tantos anos. No dia em que decidiu ir embora a mãe preparava para o almoço uma carne assada recheada com farofa e linguiça, seu prato predileto. Dizia que gostava de fazer o serviço da casa: cozinhar, cuidar do seu pai, arrumar a casa, agradar a seu pai, fazer faxina, obedecer a seu pai e chorar, graças a seu pai. Apenas a roupa suja era permitida que fosse lavada e passada fora de casa. Ele não gostava de estranhos onde vivia. Claro, nem de pessoas que pudessem testemunhar como agia. Quando voltavam da escola, ela e o irmão mais velho sabiam que encontrariam a mãe à espera deles. Sentavam-se embaixo da mangueira. Ali ela sorria, conversavam e sempre entregava uma bala, bombom, ou algum doce que comiam com prazer antes do jantar, o que era expressamente proibido fazer. Se às vezes os olhos dela estavam inchados de chorar, os braços com marcas vermelhas, ou o lábio machucado, eles ignoravam, o que foi previamente combinado, e só falavam de coisas boas. Riam alto e escondiam de si mesmos, durante àquela hora e meia, que não havia tanta graça o jeito que viviam. Às sete horas em ponto, todos se reuniam à mesa e jantavam com o pai que fazia perguntas sem esperar respostas. Ele já as tinha, o que na realidade eram ordens. Seu irmão costumava adoecer com frequência. Sofria com alergia, em sua opinião a tudo ou quase. Eram unidos e quando o barulho dentro de casa começava, costumavam se abraçar e ficar embaixo da coberta. A mãe tentava não gritar, só depois que tudo se acalmava, ouviam um choro baixinho. Mais tarde ela entrava no quarto deles e os beijava pedindo desculpas. A única vez em que tentaram chegar perto, durante o que acontecia, o pai se virou para eles e esbofeteando cada um, mandou que voltassem para o quarto. Nessa noite, além de cuidar de si mesma, a mãe teve que tratar deles, pois havia também um corte em suas bocas. No dia seguinte, não puderam ir à aula, parte do rosto inchara. Prometeram a ela nunca mais sair do quarto quando ouvissem qualquer ruído. O irmão aos doze anos foi embora. O pai num dos dias de demonstração de ignorância, obrigou o filho a passar a noite sentado embaixo da mangueira. Era inverno. No dia seguinte de manhã, ele tremia e parecia ter convulsões. O pai pegou um remédio no banheiro, onde ficavam guardados, e o obrigou a tomar. Chamando-o de maricas e estúpido mandou que fosse dormir. Mais tarde, quando foi permitido à mãe que entrasse ali já não havia muito que fazer. Correram para o hospital: pneumonia aguda e uma forte reação alérgica, provavelmente medicamentosa, o levaram embora. Continuou em casa até que aos dezoito anos foi para uma faculdade fora da cidade e nunca mais voltou. Sentiu culpa por deixar sua mãe sozinha com ele, mas se ficasse, não sobreviveria. Escreviam uma para a outra e foi assim que soube que seu pai estava doente. Costumava esquecer-se das coisas, falar bobagens... Um dia, em estágio avançado, ele encontrou o portão aberto e saiu. A mãe escreveu dizendo que o procurou, mas ele sumira. Depois de dois meses sem que ele aparecesse foi até lá e a trouxe para que morasse com ela. Foi assim até o ano passado quando ela também se foi. Tem certeza de que nesses últimos cinco anos, conseguiu fazer com que sorrisse não apenas em poucos momentos escondidos entre a chegada da escola e a volta do pai do trabalho. O mais importante naquele período era o riso dela, enfim aberto, alto e sem medo a qualquer hora do dia e da noite. Olhou mais uma vez para aquela casa e atravessou a rua, caminhando contrário a ela.
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Rir junto
21/01/2017 | 18h48
Rir junto Cândida Albernaz   Não acende a luz. O escuro do quarto é quebrado apenas com a iluminação que passa pela janela de vidro. Com a cortina puxada para um canto, as luzes da rua e dos prédios entram sem cerimônia. Lava o rosto e tenta fazer com que a água da torneira se misture às lágrimas que escorrem com a esperança de que elas parem. Deu para isso agora. Mal abre a porta de casa e o choro vem sentido e confuso num misto de dor e raiva. Pega a foto que ficara deitada de encontro ao tampo da mesinha e pensa em guardá-la na gaveta pela enésima vez. Não consegue e resolve colocá-la no lugar de sempre. Ele sorri enquanto a abraça. Ela também. Na sala, a televisão está ligada desde o dia anterior. Dormiu, saiu para trabalhar, chegou a pouco e tinha dúvidas se a desligaria quando fosse deitar. Aquelas vozes desconhecidas e variadas faziam companhia à sua solidão não escolhida. Olhou-se no espelho, mas não conseguiu ver nenhuma imagem refletida. Os pensamentos insistentes e com velocidade incomum, não permitiam. Aquele enorme espelho no quarto foi idéia dele, pois dizia gostar de vê-la de qualquer lugar em que estivesse lá dentro. Muitas vezes fizeram amor ali, em pé, enquanto se olhavam. E só depois de cansados deitavam-se lado a lado, com a respiração rápida e rindo deles mesmos. Era do que mais sentia falta. O humor que ele possuía. Costumava rir com vontade, contagiando-a. Ela que sempre fora reticente com a alegria, ao lado daquele homem conseguia ouvir o som do próprio riso. Gargalhava. Era tão decidido, e disso sempre teve medo. Quando veio falar com ela, já havia planejado e resolvido o que faria. Não pediu sua opinião, não deixou dúvidas quanto a mudar de idéia, não perguntou se seria conveniente para ela. - Estou com as passagens compradas e daqui a um mês embarcamos para Nova York. Não falei antes porque queria fazer surpresa. Procurei saber e tem um lugar na revista para você também. Vamos crescer juntos lá dentro... E as palavras iam saindo de sua boca com uma sílaba atropelando a outra, pensou até que ele fosse engasgar. Pediu calma a ele e perguntou desde quando decidia por ela? Quando o autorizara a fazer isso? E quem disse que gostaria de sair do país? E seus amigos? - Fazemos novos e mantemos os antigos. - O apartamento? - Não seja boba, é alugado. - Minha família? - Há quanto tempo não os vê? E quem disse que não viremos ao Brasil? Claro que não vai ser logo... Não podemos perder essa chance. Fizeram-me o convite. Ganharei mais e terei maior liberdade para trabalhar. - E eu? Abraçou-a com força. - Já disse que consigo trabalho para você também. - Não posso ir. Afastou-a e olhou nos olhos. A voz saiu baixa, quase um gemido. - Não seja orgulhosa. Ficaremos juntos. Durante aquele mês não houve um dia em que deixasse de pedir para que o acompanhasse. Não conseguiria viver sem ela, mas era uma oportunidade que não poderia perder. No dia do embarque não foi ao aeroporto, não estava em casa quando ele saiu com as malas. Ao voltar, apenas um bilhete, “espero e esperarei você. Sempre.” Procurou na gaveta o papel amassado e releu. Dois meses sem vê-lo e sem deixar que se comunicasse com ela. Decidiu tomar um banho e deitar. Ao se deparar novamente com o espelho, viu-se mais uma vez. Agora conseguiu enxergar uma mulher vestida de qualquer jeito, com unhas por fazer. Assustou-se ao observar seus olhos. Não se reconhecia neles, opacos, sem ardor. Passou o dedo nos lábios que se abriram ao toque. Abaixou o braço e passeou as mãos em seu corpo. Não havia porque não tentar. Era jovem ainda, e sabia tanto quanto ele que só não o acompanhou por orgulho. Voltou o dedo aos lábios, ameaçou um sorriso. Sentia falta de rir com vontade, rir de tudo, ou de quase. Rir junto.
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Um choro engolido
21/01/2017 | 18h48
Um choro engolido   Estou aqui sentado, pensando em tudo o que vivi até agora. Não havia mais tempo para mudar nada. O que fiz decidiu meu destino. Lembro ainda de minha infância que na verdade não está tão distante assim. Meus pais, que nunca tiveram muito a oferecer financeiramente, costumavam me levar junto com meus outros três irmãos para o jardim da cidade onde a entrada era franca e o espaço de todos. Corríamos, jogávamos bola, brincávamos de polícia e bandido como se ali fosse o quintal que nunca tivemos. No início da tarde mamãe nos oferecia um sanduíche de pão com ovo trazido de casa. Estávamos sempre juntos e apesar das dificuldades tínhamos uma espécie de alegria a nos acompanhar. Acredito que devido ao temperamento de meu pai, que acreditava que as coisas no dia seguinte seriam sempre melhores que as do anterior. Hoje sentado neste banco, esperando a sentença do juiz, olho para trás e vejo os olhos vazios de minha mãe e a cabeça baixa de papai, que sempre tivera orgulho de ser honesto. Não fui sempre este homem que hoje rouba, e se preciso, mata. Ainda garoto, recordo-me de meu pai chegar a casa arrasado, sem o seu assovio costumeiro, porque perdera o emprego e tinha tantas bocas a sustentar. Nunca ficamos um dia sequer sem ter o que comer. Sem o emprego, fazia qualquer tipo de serviço que aparecia. Chegando a casa tarde, exausto, consolava minha mãe dizendo que era apenas um período ruim que estavam vivendo e que logo tudo voltaria ao normal. Numa noite ouvi meus pais conversando antes de dormir e minha mãe dizia ter fome, mas preferia nos dar o que comer, pois éramos crianças. No dia seguinte inventei uma dor na barriga falando que não conseguia engolir nada para que ela ficasse com minha parte. Passado alguns dias, minha mãe que tinha as pernas cheias de varizes que a faziam chorar escondido de dor, estava no posto de saúde com meu irmão caçula no colo, esperando um atendimento que chegou tarde demais. Com treze anos, ainda franzino, apanhando sempre dos colegas mais velhos, numa tarde me arrastaram para os fundos da escola e me curraram ali mesmo sem chance de defesa. Cheguei a casa com a calça suja de sangue, corri até o tanque que ficava na cozinha e lavei-a rápido, antes que alguém visse e me fizesse perguntas que não teria coragem de responder. Senti que não tinha mais porque achar que a vida era a que meus pais mostraram até aquele momento. Quando depois de algumas facadas, vi o corpo do homem no chão, consegui fugir. Não adiantou. Dei azar e me pegaram. Agora estava ouvindo este chato do juiz decidindo parte do meu futuro. Não mais a bola, não mais o meu irmão, não mais a comida pobre, mas que nos alimentava, não mais o pai com dignidade, não mais o garoto que fui. Não tinha pena da vida, porque ela não tinha pena de mim. Habituara-me e passara a aceitar o que ela me oferecia. Tirava dela o que podia me dar. No banco dos réus, o olhar morto que agora era meu. Na garganta, o choro engolido entupindo a visão do que poderia ter sido.   Cândida Albernaz
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O presente
21/01/2017 | 18h48
  O presente Cândida Albernaz Queria chegar a casa mais cedo. Sei que é impossível. O chefe não libera ninguém antes da hora. Quero só ver a cara do Cléber quando eu der a bola com o símbolo do time. Os olhos vão brilhar e vai querer que eu jogue com ele na hora. E faço questão. O garoto leva o maior jeito e vai ser grande. Ainda vão ouvir falar do meu filho. Vai para a seleção, tenho certeza. Só tem dez anos e todo mundo que vê o menino correndo, driblando, diz que tem futuro. E eu vou estar lá, ao lado dele, mostrando a todos quem foi que ensinou o que sabe. O presente nem foi barato. Estou juntando a grana há um tempão para comprar essa bola de couro. Profissional. Quando Cléber nasceu, uns falavam que ele não vingava. Pesava pouco e vivia doente. Calou a boca de todo mundo, o danado. Sempre acreditei que ele ficaria bem e forte. A Clotilde, minha mulher, foi embora deixando o bebê, levando os outros dois. Enjeitou o filho caçula, porque não tinha saúde. Soube que está bem, o novo companheiro ofereceu boa vida a ela. Nem ligo mais. Quando ela deu no pé, achei que não ia aguentar. Nem tanto por ela, mas não sabia como ia cuidar sozinho do meu filho, tão doente. Ainda bem que minha mãe ajudou. Ela ficava durante o dia com ele e eu à noite. E foram muitas noites dormindo pouco, acordando cedo na manhã seguinte e indo para o trabalho. Valeu a pena. Cléber não tem mais nada há anos. Só uma gripezinha boba aqui e ali. É o meu orgulho, esse garoto. O pessoal aqui na obra vivia sacaneando, mas quando foram comigo ao jogo do guri, me deram os parabéns, e não mexem mais quando falo dele. Pronto, vou tirar o uniforme e tomar um banho. Quero chegar a casa limpo para ganhar aquele abraço do meu filho. Nossa, estou ansioso. A luz está acesa. Mãe deve ter feito um bolo e chamado meu irmão com os dois filhos. Não era bem isso o que estava acontecendo. O que essa mulher está fazendo aqui? O quê? Levar meu filho por quinze dias? Conhecer melhor os irmãos? Sente saudades? Depois de tanto tempo... Não entende que não posso ficar sem ele. Nem um dia. E os olhos que iam brilhar quando eu entregasse meu presente? Já estão brilhantes só em ver a mãe. Os mesmos estão pedindo para deixar que vá com ela. Nunca soube negar nada a esse menino. Nem reparou o embrulho na minha mão. Mostra eufórico o carro que anda para lá e para cá com controle remoto. Brinquedo mais idiota! Vai, meu filho, vai porque o que importa são esses olhos bem abertos e felizes. Mas volta logo, porque senão, não sei o que vai ser de mim. Enquanto espero, vou planejando seu futuro ao meu lado. Nós dois juntos e o gol que vai me dedicar. Que honra meu filho, quando isso acontecer.
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Frases nem tão soltas II
21/01/2017 | 18h48
Frases nem tão soltas II Cândida Albernaz Dê-me flores. Eu te dou frutos. *                                            *                                            * Em alguns dias tenho uma gastura do mundo e não sei o que fazer com ela. Corrói-me sem motivo aparente. *                                            *                                            * Cartas não foram escritas, palavras não foram ditas, abraços não foram dados. E tudo o que poderia ter sido o tempo se encarregou de levar. *                                            *                                            * Às vezes canso de gente. Gente dá trabalho, exige. Cansaria de mim também. Dou muito trabalho. *                                            *                                            * Meu grito mais forte é aquele que não se ouve. Só no peito ele faz o eco de uma explosão. *                                            *                                            * Quando olho para a folha em branco e as letras brincam de se esconder, penso em fugir. Para algum lugar onde observando o nada, balõezinhos surjam com toda a história dentro deles. *                                            *                                            * Assusta-me escrever sobre você. Tenho medo que um dia releia o que passou. *                                            *                                            * O tempo passado pode ser tão pesado que nossos braços não carregam. Fazer contas antigas... pesam tanto que chega a doer. *                                            *                                            * E porque meu coração sangra deve ser muito bem cuidado. *                                            *                                            * Em alguns dias continuo a procurar... Em outros, penso que encontrei. *                                             *                                            * Pode estar tão perto, pode parecer tão pouco, pode ser tão fácil de tocar. Ninguém precisa de excessos. *                                            *                                            * Alguns segundos que vivemos levam uma eternidade para se deixar esquecer. *                                            *                                            * Um olhar pode nos fazer continuar ou estancar. Um olhar desnuda ou assusta. Ou assusta porque desnuda. *                                            *                                            * Alguns pensam que podem agradar a Deus e ao diabo ao mesmo tempo. Não vejo como. *                                            *                                            * Porque a melhor parte pode ser esperar pelo dia seguinte. E hoje já é o dia seguinte! *                                            *                                            * A sensação de alguns momentos deveria ser para sempre. Mas se fosse assim, que graça teria buscar novos momentos? 02/01/2013    
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Banco da rodoviária
21/01/2017 | 18h48
Banco da Rodoviária Cândida Albernaz Na casa à beira da estrada, os tijolos aparecem sem qualquer pintura ou acabamento. A varanda em tom lilás sobressai com uma porta larga de madeira trabalhada em relevos. Herança da patroa que não a queria mais. Ela mesma passara a mão de tinta, o que tornava onde morava um lugar diferente do resto da vizinhança. Sempre fora assim, se queria algo, ela fazia. Ainda criança sua mãe saiu de casa levando o irmão caçula. Ela ficou com o pai. Tinha oito anos, e já era uma mocinha, como a mãe cansava de afirmar enquanto arrumava a mala. O pai não podia ficar sozinho e precisava de alguém que cuidasse dele. Chorava ouvindo a mãe falar, e lembrava-se de como agarrara na barra do vestido vermelho com flores brancas que usava, puxando-a para trás. Não adiantou. A mãe arrastava a perna e ela junto. Quando chegaram à porta, ela retirou sua mão com força e disse que na semana seguinte viria vê-la. Não voltou até hoje. A porta daquela época também não é mais a mesma. A vida ao lado do pai não foi das mais fáceis. Crescia e os cabelos crespos e pretos, os olhos puxados e a boca estreita, lembravam cada vez mais sua mãe. E quando queria ofendê-la, falava dessa semelhança com “aquela vagabunda da sua mãe que largou você atrás de um qualquer. A gente logo vê que é filha daquelazinha”. Cuidou do pai, das bebedeiras dele, das mulheres que trazia para dentro de casa e que por muitas vezes quiseram ser sua mãe. Demonstravam isso batendo nela, porque precisava ser educada por alguém. Há poucos dias recebeu uma carta. Quando viu o remetente, pensou em queimar. Havia se passado trinta anos. No início chorou muito, costumava rezar pedindo que a mãe fosse buscá-la. Após alguns anos começou a sentir raiva e pedia sua morte. Com mais idade, convenceu-se de que ela havia morrido  realmente e por isso nunca mais voltou. Portanto ela só não procurava a filha, porque morta, não podia. Guardou a carta na gaveta da cômoda e agora resolveu abri-la: “Filha, talvez não pense mais em mim, mas não há um dia que deixe de lembrar seu rostinho. Tentei procurá-la outras vezes, mas como morava longe e não sabia escrever direito, desisti. Mudamos para perto. Tenho certeza de que seu pai cuidou bem de você, sempre foi a preferida dele. Seu irmão cresceu forte e hoje está casado e com dois filhos. Meu neto me ajudou a escrever essa carta. Chego na sua cidade em cinco de outubro. Queria ver você. Longe de seu pai, que sei ainda está vivo. Ficarei na rodoviária esperando o dia inteiro. O último ônibus sai às dezoito horas. Estarei no banco do lado direito do terminal. Espero que ainda haja esse banco. Estou velha e cansada. De sua mãe que apesar de ser diferente das outras a ama,beijo.” Dia cinco de outubro é hoje. Duas horas da tarde. Ela deve estar lá, sentada esperando. Não iria. Para quê? Nem se lembrava de seu rosto. O que também já deve ter mudado muito. A mãe não teria como reconhecê-la. Era uma menina quando a deixou. Às cinco horas resolveu que caminharia até lá. Ficaria de longe observando. *                                          *                                           *   A rodoviária estava cheia. Olhou os bancos e havia várias senhoras e crianças sentadas neles. Procurou o da direita. Uma mulher com ar cansado suava passando a mão nos cabelos enquanto conversava com uma menina. A outra, quieta parecia não ouvir o alvoroço à sua volta. Usava um vestido vermelho com flores brancas que parecia estar apertado demais. Olhava o chão e de vez em quando levantava a cabeça procurando alguém. Ficou observando-a tentando enxergar a semelhança que seu pai via nas duas. Não encontrou. Aquela mulher tinha olhos apagados, a pele enrugada e os cabelos brancos. Notou que sua mão tremia ao olhar o relógio. Demonstrava ansiedade. O ônibus chegou e sairia em dez minutos. Andou até próximo ao banco e parou. Tentou disfarçar olhando para outros lugares. Ainda não decidira se queria falar com ela. Talvez numa outra ocasião. Tinha o endereço na carta. Quem sabe a procuraria depois. As pessoas formavam fila para entrar no ônibus. Procurou-a novamente e não a viu. Será que ela entrou enquanto olhava em volta? A mão em seu ombro fez com que sentisse um sobressalto “não deixaria nunca de reconhecer seus olhos. Você mudou, mas eles continuam com a mesma expressão do dia em que fui”. Olhou aquela senhora e não sabia dizer o que sentia. “Não fale nada agora, minha filha. O ônibus vai sair. Volto amanhã e espero por você no mesmo banco em que estava hoje”.
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Minha música
21/01/2017 | 18h48
Minha música Cândida Albernaz Esta noite foi mais difícil. Se não fossem as músicas que apenas eu ouço, não teria suportado. Sinto que o colchão parece mais duro do que o normal, machuca meu corpo e não tenho forças para me virar. O quarto escuro me conforta, já que mal consigo enxergar. A idade chegou e com ela a falta de visão e a dificuldade de movimentos. Às vezes grito e até xingo alguns palavrões inocentes. Se minha mãe ouvisse, chamaria minha atenção ou, com tal rapidez o tapa explodiria em cheio na minha boca. Nunca consegui ser mais rápida do que ela. Lembro de mamãe sentada em frente a penteadeira escovando os longos cabelos que costumava prender num coque baixo. Eram negros. Mesmo com a idade avançada, era possível contar os fios brancos. Comigo é diferente, consigo contar os fios pretos. Principalmente agora que estou doente e não posso pintá-los. A impressão que tenho é de que minha mãe nunca foi jovem, tão preocupada costumava ser. Vida difícil, a que teve. Hoje entendo que se não sorria com frequência ou não nos acarinhava, era porque não teve muito acesso a esses gestos. As costas voltaram a doer. Acredito que a melodia de Chopin fez com que esquecesse de mim e permanecesse numa mesma posição por muito tempo. Ouvi quando a enfermeira comentou sobre uma ferida no quadril. Falou baixo para que não escutasse, como se não soubesse eu mesma onde sinto minhas dores. Lembro de papai que tinha nas pernas, próximo ao tornozelo, excesso de veias grandes e roxas e pouca circulação formando ali também uma ferida que insistia em não cicatrizar. Era um homem autoritário, difícil de lidar, acho que herdei dele essa parte do temperamento. Em compensação, quando chegavam os netos, virava criança junto a eles. Até o fim foi um homem forte. Alto e bonito, assim me recordo dele. Não sei por que algumas vezes não consigo me lembrar quem é a pessoa que vejo sorrindo à minha frente. Disseram que estou com lapsos de memória. Talvez seja verdade, porque outro dia minha filha falou: “Mãe, acabei de trazer você da sala. Pediu para vir para o quarto e agora quer voltar”. Não dei o braço a torcer, mas não lembrei mesmo de ter ficado na sala. Não gostei de perceber isso. Esquecer o que vivi é o que mais me angustia. O passado, mesmo entremeado de lembranças ruins, vem cheio de boas recordações que me consolam e aconchegam. Antônio foi o homem que amei há muitos anos atrás. Era gentil e não cansava de repetir o que sentia por mim. Não pudemos ter uma vida juntos. Droga! Não consigo me lembrar à forma como o perdi. Odeio minha falta de memória. O teclado do piano soa forte e faz com que estremeça de prazer. Vivaldi e seus acordes alegres. É incrível como mesmo nesse momento em que a vida parece fugir, a música continue a soar intensa em meu ouvido. Acabei de perceber o olhar de preocupação de minha filha. Tenho vontade de gritar para que não sofra por mim. Estou bem, apesar das dores. Preciso descansar. Não se preocupe, vou fechar os olhos só um pouquinho. O som do piano que ouço é a companhia perfeita para o meu sono. Sinto meus dedos percorrerem as teclas pretas e brancas, consigo tirar a melodia mais bonita que jamais toquei. A música é minha vida. A música me acompanha na minha ...
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Frases nem tão soltas
21/01/2017 | 18h48
Frases nem tão soltas Cândida Albernaz Porque fechando os olhos posso enxergar melhor. Porque fechando os olhos consigo ver com o sentir. * Não me lembro quando, mas um dia percebi que rir pode ser muito bom, mas gargalhar é imprescindível. * A melhor parte em escrever é poder criar tantas vidas diferentes da sua como se estivesse em cada uma delas. * Por que metade se você pode ter e ser inteiro? * Nossa lucidez pode ser a loucura perfeita. * O que mais nos machuca não deixa marcas visíveis. Porque estas não são para ver, são para sentir. * Preciso que me conte histórias, me carregue no colo e através de suas rugas conheça a vida que te fez chorar ou sorrir, para que possa eu, menina que sempre serei, chorar e sorrir a seu lado. * O relógio marca o tempo que passa às vezes devagar, às vezes rápido demais. Entre espinhos que se escondem, flores e verdes continuam a crescer. * Algumas pessoas demoram a perceber o que passou e perdem tempo se prendendo ao nada. Vida que existiu, mas que se perdeu no viver contínuo. * Será que ultrapassando as nuvens estarão todos os que perdi enquanto continuo aqui? * Se você sabe onde fica a ponta de um novelo, por que insistir em se colocar no meio dele? * Algumas vezes nos escondemos tão dentro de nós, que mesmo procurando não conseguimos nos achar. * Às vezes penso que me invento e então me surpreendo percebendo que aquilo que inventei sou eu real. * Quero brincar de pique esconde e no término da brincadeira me encontrar inteira. 4/12/12
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Agora era jamais
21/01/2017 | 18h48
Agora era jamais Cândida Albernaz Sentada no primeiro degrau da escada, abaixou o corpo para frente, deixando que a cabeça pendesse entre os joelhos. Não queria chorar. Escorrer lágrimas pelo rosto deixava-a irritada. Se não fosse por borrar a maquiagem, seria por ficar com os olhos inchados, o que detestava de qualquer forma. Passou a mão na calça retirando uma poeira inexistente e levantou. Subiu um, dois, trinta, quarenta degraus. Uma droga esse negócio de não ter elevador. Verdade que em um prédio de três andares não havia muita necessidade. Pensando bem, melhor assim, caso contrário o condomínio seria mais caro. Nem pensar em aumento de despesas. Esquecera que deixara a sala tão bagunçada. Calcinha sobre a mesa era um pouco demais. Mas fora por um bom motivo. Que se transformou numa péssima lembrança agora. Na cozinha ainda havia a sobra de um jantar de dois dias atrás. É isso que dá jogar tudo para cima e fingir que o mundo não existe. Começou lavando a louça suja. Deixaria secando enquanto tomava coragem para entrar no quarto. Caramba! Fizera uma desordem com suas coisas. E essa taça estilhaçada no chão? Recolher cacos não era o que mais gostava de fazer. Muito menos quando os de cristal vêm com porções suas. Estava acostumada. Não se acostumaria nunca. Nessa ventania interna, fragmentos seus também eram quebrados em pequenas partes fazendo cacos voarem sem rumo espalhando pedaços que não se colariam mais. Pelo menos foi vidro que se partiu, ao ser atirado longe na hora da raiva. Pior seria ter machucado a si própria. O que não deixou de acontecer de qualquer jeito. Depois de três anos decidiu! e dessa vez não voltaria atrás. Hora de seguir adiante sozinha. Mais uma vez. Quando descobriu que ele tivera um caso com outra mulher, tentou desistir, mas conversaram e apaixonada que estava, teve medo e achou covardia não dar nova chance ao que viviam. Dessa vez, continuava envolvida. Até mais do que antes. Mas não daria a cara para bater duas vezes. Agora era jamais. Não haveria volta ou nova conversa. Conhecia a garota, mas isso não era o mais importante. Nunca gostou de dividir. Não sabia também ela se dividir. Inteira ou nada. Nesse caso: nada. Ao lado da cama encontrou a foto que rasgara durante a discussão. Recolheu e abrindo a gaveta retirou algumas que mandara revelar. Todas para a mesma lixeira. Ainda encontraria restos do que viveram, mas não pretendia guardá-los e nem procurar por eles naquele momento. À proporção que se deparasse, um a um seriam afastados de sua visão. A blusa amarela, a sandália preta, a gravata que numa noite depois de uma festa, em que terminaram como sempre na cama, foi usada por eles, tudo junto na mesma sacola. Daria ao porteiro. Pareciam ter tamanhos iguais. Pronto! Quarto novamente do seu jeito. Arrumado, lençóis trocados, perfume levemente espalhado. Na mesinha, um retrato onde um sorriso estampava alegria numa viagem com amigos. Aliás, hora de ligar para algum deles. Quem sabe programar uma escapada para o fim de semana? Precisava rir e nada melhor do que com seus, em qualquer ocasião, aliados. Claro que ainda doeria por um bom tempo. Não seria fácil. Nunca o era. Mas se havia uma necessidade urgente, era fazer as pazes com si mesma. Resolveu comprar flores. Sempre gostara de enfeitar a casa com flores. Do campo. Desceu a escada de dois em dois, como era mania. O sol estava forte, mas um vento gostoso bateu em seu rosto, jogando o cabelo para trás. Sorriu enquanto caminhava para a floricultura. Amava o vento, ele costumava sussurrar em seu ouvido o que precisava escutar. Aliás, gostava de vento, chuva, sol, frio ou calor. 6/11/12
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Só entre os dois
21/01/2017 | 18h48
Só entre os dois Cândida Albernaz - Pai, dessa vez está indo por outra estrada, não é? - Claro que não. Você não viu porque dormia. - Passamos por aquela fazenda cheia de bois? - Hã,hã. - Eu não vi. – os olhos encheram-se de água. - Querida, eles também estavam dormindo. Mas quando voltarmos prometo que estarão lá. Olhou pelo retrovisor e viu que a filha havia esquecido o assunto. Seus olhos buscavam um pássaro branco que passou voando próximo deles. A mulher dormia com a cabeça pendendo cada hora para um lado. A boca entreaberta emitia um ruído baixo, parecido com um gargarejo. Quando acordasse, reclamaria do pescoço dolorido. Sorriu. Lembrou-se de quando era criança e no enorme carro que o pai dirigia com orgulho. Ele e suas duas irmãs iam atrás  disputando a janela, até que a mãe mandava que os três se calassem. Ela não era uma mulher com muita saúde, o coração vivia pregando susto nos dois. O pai tinha cuidados especiais com ela, como se fosse uma criança. Sua avó dizia que “você a mima demais, parece que ela é a filha”. Quando visitavam o sítio dos avós, ela passava a maior parte do tempo dormindo, enquanto seu pai saía com os filhos a alimentar bichos, ordenhar vacas, o que fazia com que rissem muito, já que não era uma tarefa fácil e costumavam se atrapalhar. O ponto alto ficava por conta do momento em que montavam os cavalos e disputavam, meio devagar, é verdade, quem chegava primeiro ao local combinado. Estes dias no sítio costumavam ser perfeitos, a não ser quando a avó e a mãe discutiam. Ela exigia de sua mãe uma disposição que esta dizia não ter. Até hoje tinha dúvidas de que a doença seria uma desculpa para não participar de nada ou realmente a impedia. Dependiam do pai para quase tudo. Algumas vezes durante os passeios no sítio, paravam sob uma árvore e conversavam. Ele então explicava que se a mãe deles não participava do que faziam, era porque não aguentava. Sua irmã certa vez perguntou por que ela nunca os abraçava e ele falou: “não tenham dúvida sobre o amor dela por vocês. Tem um jeito diferente de pensar, acha que não devem se apegar tanto a ela, para que não sofram, mas os ama muito”. Na época, não entendeu aquela história de se apegar e sofrer, mas não perguntou nada. Foi no sítio que os abandonou. Naquela fase estava muito fraca e a viagem havia se tornado um grande esforço. As confusões dela com a mãe, já haviam deixado de acontecer há muito. As duas conversavam e por diversas vezes viu a avó sair do quarto e ao fechar a porta, colocar a mão na boca para tentar impedir o choro, onde lágrimas corriam soltas. Saía dali assustado, mas logo esquecia o fato, quando encontrava suas irmãs tentando agarrar uma galinha que fugia batendo as asas e cacarejando em desespero. Almoçavam quando o pai levantou-se e foi ver se a mulher queria comer. Ela não se alimentara desde que acordara. Todos ouviram um chamado abafado e enquanto a avó os abraçava, o avô entrou no quarto e soltou um gemido alto, som que nunca esqueceu. Continuaram indo para o sítio, mas todos pareciam ter envelhecido de repente. Hoje era ele quem cuidava dos poucos animais que havia ali. Não contara a ninguém, mas pouco antes daquele almoço, entrara no quarto da mãe e vira que o rosto dela demonstrava dor. Quando ia sair, para não incomodá-la, ouviu a voz fraca chamando-o. Aproximou-se da cama e ela pediu que deitasse a seu lado. Disse que estava sujo, mas obedeceu. A mãe abraçou-o com uma força que achou não possuía. Sem olhar para ela, aproveitou-se daquela chance que não lembrava ter acontecido antes e fechou os olhos ficando os dois agarrados por um longo tempo. Ainda hoje o cheiro da mãe, misturado ao dos medicamentos que usava, o acompanham. Sorri quando o sente, porque aquele momento raro foi sua despedida. Só entre os dois.
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Candida Albernaz

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