Minha música
Minha música
Cândida Albernaz
Esta noite foi mais difícil. Se não fossem as músicas que apenas eu ouço, não teria suportado.
Sinto que o colchão parece mais duro do que o normal, machuca meu corpo e não tenho forças para me virar.
O quarto escuro me conforta, já que mal consigo enxergar. A idade chegou e com ela a falta de visão e a dificuldade de movimentos.
Às vezes grito e até xingo alguns palavrões inocentes. Se minha mãe ouvisse, chamaria minha atenção ou, com tal rapidez o tapa explodiria em cheio na minha boca. Nunca consegui ser mais rápida do que ela.
Lembro de mamãe sentada em frente a penteadeira escovando os longos cabelos que costumava prender num coque baixo. Eram negros. Mesmo com a idade avançada, era possível contar os fios brancos. Comigo é diferente, consigo contar os fios pretos. Principalmente agora que estou doente e não posso pintá-los.
A impressão que tenho é de que minha mãe nunca foi jovem, tão preocupada costumava ser. Vida difícil, a que teve. Hoje entendo que se não sorria com frequência ou não nos acarinhava, era porque não teve muito acesso a esses gestos.
As costas voltaram a doer. Acredito que a melodia de Chopin fez com que esquecesse de mim e permanecesse numa mesma posição por muito tempo.
Ouvi quando a enfermeira comentou sobre uma ferida no quadril. Falou baixo para que não escutasse, como se não soubesse eu mesma onde sinto minhas dores.
Lembro de papai que tinha nas pernas, próximo ao tornozelo, excesso de veias grandes e roxas e pouca circulação formando ali também uma ferida que insistia em não cicatrizar.
Era um homem autoritário, difícil de lidar, acho que herdei dele essa parte do temperamento. Em compensação, quando chegavam os netos, virava criança junto a eles. Até o fim foi um homem forte. Alto e bonito, assim me recordo dele.
Não sei por que algumas vezes não consigo me lembrar quem é a pessoa que vejo sorrindo à minha frente. Disseram que estou com lapsos de memória. Talvez seja verdade, porque outro dia minha filha falou: “Mãe, acabei de trazer você da sala. Pediu para vir para o quarto e agora quer voltar”. Não dei o braço a torcer, mas não lembrei mesmo de ter ficado na sala. Não gostei de perceber isso. Esquecer o que vivi é o que mais me angustia. O passado, mesmo entremeado de lembranças ruins, vem cheio de boas recordações que me consolam e aconchegam.
Antônio foi o homem que amei há muitos anos atrás. Era gentil e não cansava de repetir o que sentia por mim. Não pudemos ter uma vida juntos. Droga! Não consigo me lembrar à forma como o perdi. Odeio minha falta de memória.
O teclado do piano soa forte e faz com que estremeça de prazer. Vivaldi e seus acordes alegres.
É incrível como mesmo nesse momento em que a vida parece fugir, a música continue a soar intensa em meu ouvido.
Acabei de perceber o olhar de preocupação de minha filha. Tenho vontade de gritar para que não sofra por mim. Estou bem, apesar das dores. Preciso descansar. Não se preocupe, vou fechar os olhos só um pouquinho.
O som do piano que ouço é a companhia perfeita para o meu sono.
Sinto meus dedos percorrerem as teclas pretas e brancas, consigo tirar a melodia mais bonita que jamais toquei.
A música é minha vida.
A música me acompanha na minha ...