O presente
candida 10/01/2013 21:58
  O presente Cândida Albernaz Queria chegar a casa mais cedo. Sei que é impossível. O chefe não libera ninguém antes da hora. Quero só ver a cara do Cléber quando eu der a bola com o símbolo do time. Os olhos vão brilhar e vai querer que eu jogue com ele na hora. E faço questão. O garoto leva o maior jeito e vai ser grande. Ainda vão ouvir falar do meu filho. Vai para a seleção, tenho certeza. Só tem dez anos e todo mundo que vê o menino correndo, driblando, diz que tem futuro. E eu vou estar lá, ao lado dele, mostrando a todos quem foi que ensinou o que sabe. O presente nem foi barato. Estou juntando a grana há um tempão para comprar essa bola de couro. Profissional. Quando Cléber nasceu, uns falavam que ele não vingava. Pesava pouco e vivia doente. Calou a boca de todo mundo, o danado. Sempre acreditei que ele ficaria bem e forte. A Clotilde, minha mulher, foi embora deixando o bebê, levando os outros dois. Enjeitou o filho caçula, porque não tinha saúde. Soube que está bem, o novo companheiro ofereceu boa vida a ela. Nem ligo mais. Quando ela deu no pé, achei que não ia aguentar. Nem tanto por ela, mas não sabia como ia cuidar sozinho do meu filho, tão doente. Ainda bem que minha mãe ajudou. Ela ficava durante o dia com ele e eu à noite. E foram muitas noites dormindo pouco, acordando cedo na manhã seguinte e indo para o trabalho. Valeu a pena. Cléber não tem mais nada há anos. Só uma gripezinha boba aqui e ali. É o meu orgulho, esse garoto. O pessoal aqui na obra vivia sacaneando, mas quando foram comigo ao jogo do guri, me deram os parabéns, e não mexem mais quando falo dele. Pronto, vou tirar o uniforme e tomar um banho. Quero chegar a casa limpo para ganhar aquele abraço do meu filho. Nossa, estou ansioso. A luz está acesa. Mãe deve ter feito um bolo e chamado meu irmão com os dois filhos. Não era bem isso o que estava acontecendo. O que essa mulher está fazendo aqui? O quê? Levar meu filho por quinze dias? Conhecer melhor os irmãos? Sente saudades? Depois de tanto tempo... Não entende que não posso ficar sem ele. Nem um dia. E os olhos que iam brilhar quando eu entregasse meu presente? Já estão brilhantes só em ver a mãe. Os mesmos estão pedindo para deixar que vá com ela. Nunca soube negar nada a esse menino. Nem reparou o embrulho na minha mão. Mostra eufórico o carro que anda para lá e para cá com controle remoto. Brinquedo mais idiota! Vai, meu filho, vai porque o que importa são esses olhos bem abertos e felizes. Mas volta logo, porque senão, não sei o que vai ser de mim. Enquanto espero, vou planejando seu futuro ao meu lado. Nós dois juntos e o gol que vai me dedicar. Que honra meu filho, quando isso acontecer.

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

    Sobre o autor

    Candida Albernaz

    [email protected]

    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

    BLOGS - MAIS LIDAS