Um choro engolido
candida 17/01/2013 13:10
Um choro engolido   Estou aqui sentado, pensando em tudo o que vivi até agora. Não havia mais tempo para mudar nada. O que fiz decidiu meu destino. Lembro ainda de minha infância que na verdade não está tão distante assim. Meus pais, que nunca tiveram muito a oferecer financeiramente, costumavam me levar junto com meus outros três irmãos para o jardim da cidade onde a entrada era franca e o espaço de todos. Corríamos, jogávamos bola, brincávamos de polícia e bandido como se ali fosse o quintal que nunca tivemos. No início da tarde mamãe nos oferecia um sanduíche de pão com ovo trazido de casa. Estávamos sempre juntos e apesar das dificuldades tínhamos uma espécie de alegria a nos acompanhar. Acredito que devido ao temperamento de meu pai, que acreditava que as coisas no dia seguinte seriam sempre melhores que as do anterior. Hoje sentado neste banco, esperando a sentença do juiz, olho para trás e vejo os olhos vazios de minha mãe e a cabeça baixa de papai, que sempre tivera orgulho de ser honesto. Não fui sempre este homem que hoje rouba, e se preciso, mata. Ainda garoto, recordo-me de meu pai chegar a casa arrasado, sem o seu assovio costumeiro, porque perdera o emprego e tinha tantas bocas a sustentar. Nunca ficamos um dia sequer sem ter o que comer. Sem o emprego, fazia qualquer tipo de serviço que aparecia. Chegando a casa tarde, exausto, consolava minha mãe dizendo que era apenas um período ruim que estavam vivendo e que logo tudo voltaria ao normal. Numa noite ouvi meus pais conversando antes de dormir e minha mãe dizia ter fome, mas preferia nos dar o que comer, pois éramos crianças. No dia seguinte inventei uma dor na barriga falando que não conseguia engolir nada para que ela ficasse com minha parte. Passado alguns dias, minha mãe que tinha as pernas cheias de varizes que a faziam chorar escondido de dor, estava no posto de saúde com meu irmão caçula no colo, esperando um atendimento que chegou tarde demais. Com treze anos, ainda franzino, apanhando sempre dos colegas mais velhos, numa tarde me arrastaram para os fundos da escola e me curraram ali mesmo sem chance de defesa. Cheguei a casa com a calça suja de sangue, corri até o tanque que ficava na cozinha e lavei-a rápido, antes que alguém visse e me fizesse perguntas que não teria coragem de responder. Senti que não tinha mais porque achar que a vida era a que meus pais mostraram até aquele momento. Quando depois de algumas facadas, vi o corpo do homem no chão, consegui fugir. Não adiantou. Dei azar e me pegaram. Agora estava ouvindo este chato do juiz decidindo parte do meu futuro. Não mais a bola, não mais o meu irmão, não mais a comida pobre, mas que nos alimentava, não mais o pai com dignidade, não mais o garoto que fui. Não tinha pena da vida, porque ela não tinha pena de mim. Habituara-me e passara a aceitar o que ela me oferecia. Tirava dela o que podia me dar. No banco dos réus, o olhar morto que agora era meu. Na garganta, o choro engolido entupindo a visão do que poderia ter sido.   Cândida Albernaz

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

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