Rir junto
Rir junto
Cândida Albernaz
Não acende a luz. O escuro do quarto é quebrado apenas com a iluminação que passa pela janela de vidro. Com a cortina puxada para um canto, as luzes da rua e dos prédios entram sem cerimônia.
Lava o rosto e tenta fazer com que a água da torneira se misture às lágrimas que escorrem com a esperança de que elas parem.
Deu para isso agora. Mal abre a porta de casa e o choro vem sentido e confuso num misto de dor e raiva.
Pega a foto que ficara deitada de encontro ao tampo da mesinha e pensa em guardá-la na gaveta pela enésima vez. Não consegue e resolve colocá-la no lugar de sempre. Ele sorri enquanto a abraça. Ela também.
Na sala, a televisão está ligada desde o dia anterior. Dormiu, saiu para trabalhar, chegou a pouco e tinha dúvidas se a desligaria quando fosse deitar. Aquelas vozes desconhecidas e variadas faziam companhia à sua solidão não escolhida.
Olhou-se no espelho, mas não conseguiu ver nenhuma imagem refletida. Os pensamentos insistentes e com velocidade incomum, não permitiam.
Aquele enorme espelho no quarto foi idéia dele, pois dizia gostar de vê-la de qualquer lugar em que estivesse lá dentro.
Muitas vezes fizeram amor ali, em pé, enquanto se olhavam. E só depois de cansados deitavam-se lado a lado, com a respiração rápida e rindo deles mesmos.
Era do que mais sentia falta. O humor que ele possuía. Costumava rir com vontade, contagiando-a. Ela que sempre fora reticente com a alegria, ao lado daquele homem conseguia ouvir o som do próprio riso. Gargalhava.
Era tão decidido, e disso sempre teve medo.
Quando veio falar com ela, já havia planejado e resolvido o que faria. Não pediu sua opinião, não deixou dúvidas quanto a mudar de idéia, não perguntou se seria conveniente para ela.
- Estou com as passagens compradas e daqui a um mês embarcamos para Nova York. Não falei antes porque queria fazer surpresa. Procurei saber e tem um lugar na revista para você também. Vamos crescer juntos lá dentro...
E as palavras iam saindo de sua boca com uma sílaba atropelando a outra, pensou até que ele fosse engasgar.
Pediu calma a ele e perguntou desde quando decidia por ela? Quando o autorizara a fazer isso? E quem disse que gostaria de sair do país? E seus amigos?
- Fazemos novos e mantemos os antigos.
- O apartamento?
- Não seja boba, é alugado.
- Minha família?
- Há quanto tempo não os vê? E quem disse que não viremos ao Brasil? Claro que não vai ser logo... Não podemos perder essa chance. Fizeram-me o convite. Ganharei mais e terei maior liberdade para trabalhar.
- E eu?
Abraçou-a com força.
- Já disse que consigo trabalho para você também.
- Não posso ir.
Afastou-a e olhou nos olhos. A voz saiu baixa, quase um gemido.
- Não seja orgulhosa. Ficaremos juntos.
Durante aquele mês não houve um dia em que deixasse de pedir para que o acompanhasse. Não conseguiria viver sem ela, mas era uma oportunidade que não poderia perder. No dia do embarque não foi ao aeroporto, não estava em casa quando ele saiu com as malas.
Ao voltar, apenas um bilhete, “espero e esperarei você. Sempre.”
Procurou na gaveta o papel amassado e releu.
Dois meses sem vê-lo e sem deixar que se comunicasse com ela.
Decidiu tomar um banho e deitar.
Ao se deparar novamente com o espelho, viu-se mais uma vez. Agora conseguiu enxergar uma mulher vestida de qualquer jeito, com unhas por fazer. Assustou-se ao observar seus olhos. Não se reconhecia neles, opacos, sem ardor.
Passou o dedo nos lábios que se abriram ao toque. Abaixou o braço e passeou as mãos em seu corpo.
Não havia porque não tentar. Era jovem ainda, e sabia tanto quanto ele que só não o acompanhou por orgulho.
Voltou o dedo aos lábios, ameaçou um sorriso. Sentia falta de rir com vontade, rir de tudo, ou de quase. Rir junto.