Só entre os dois
Só entre os dois
Cândida Albernaz
- Pai, dessa vez está indo por outra estrada, não é?
- Claro que não. Você não viu porque dormia.
- Passamos por aquela fazenda cheia de bois?
- Hã,hã.
- Eu não vi. – os olhos encheram-se de água.
- Querida, eles também estavam dormindo. Mas quando voltarmos prometo que estarão lá.
Olhou pelo retrovisor e viu que a filha havia esquecido o assunto. Seus olhos buscavam um pássaro branco que passou voando próximo deles.
A mulher dormia com a cabeça pendendo cada hora para um lado. A boca entreaberta emitia um ruído baixo, parecido com um gargarejo. Quando acordasse, reclamaria do pescoço dolorido. Sorriu. Lembrou-se de quando era criança e no enorme carro que o pai dirigia com orgulho. Ele e suas duas irmãs iam atrás disputando a janela, até que a mãe mandava que os três se calassem. Ela não era uma mulher com muita saúde, o coração vivia pregando susto nos dois. O pai tinha cuidados especiais com ela, como se fosse uma criança. Sua avó dizia que “você a mima demais, parece que ela é a filha”.
Quando visitavam o sítio dos avós, ela passava a maior parte do tempo dormindo, enquanto seu pai saía com os filhos a alimentar bichos, ordenhar vacas, o que fazia com que rissem muito, já que não era uma tarefa fácil e costumavam se atrapalhar. O ponto alto ficava por conta do momento em que montavam os cavalos e disputavam, meio devagar, é verdade, quem chegava primeiro ao local combinado. Estes dias no sítio costumavam ser perfeitos, a não ser quando a avó e a mãe discutiam. Ela exigia de sua mãe uma disposição que esta dizia não ter. Até hoje tinha dúvidas de que a doença seria uma desculpa para não participar de nada ou realmente a impedia.
Dependiam do pai para quase tudo. Algumas vezes durante os passeios no sítio, paravam sob uma árvore e conversavam. Ele então explicava que se a mãe deles não participava do que faziam, era porque não aguentava.
Sua irmã certa vez perguntou por que ela nunca os abraçava e ele falou: “não tenham dúvida sobre o amor dela por vocês. Tem um jeito diferente de pensar, acha que não devem se apegar tanto a ela, para que não sofram, mas os ama muito”.
Na época, não entendeu aquela história de se apegar e sofrer, mas não perguntou nada.
Foi no sítio que os abandonou. Naquela fase estava muito fraca e a viagem havia se tornado um grande esforço. As confusões dela com a mãe, já haviam deixado de acontecer há muito. As duas conversavam e por diversas vezes viu a avó sair do quarto e ao fechar a porta, colocar a mão na boca para tentar impedir o choro, onde lágrimas corriam soltas. Saía dali assustado, mas logo esquecia o fato, quando encontrava suas irmãs tentando agarrar uma galinha que fugia batendo as asas e cacarejando em desespero.
Almoçavam quando o pai levantou-se e foi ver se a mulher queria comer. Ela não se alimentara desde que acordara. Todos ouviram um chamado abafado e enquanto a avó os abraçava, o avô entrou no quarto e soltou um gemido alto, som que nunca esqueceu.
Continuaram indo para o sítio, mas todos pareciam ter envelhecido de repente.
Hoje era ele quem cuidava dos poucos animais que havia ali.
Não contara a ninguém, mas pouco antes daquele almoço, entrara no quarto da mãe e vira que o rosto dela demonstrava dor. Quando ia sair, para não incomodá-la, ouviu a voz fraca chamando-o. Aproximou-se da cama e ela pediu que deitasse a seu lado. Disse que estava sujo, mas obedeceu. A mãe abraçou-o com uma força que achou não possuía.
Sem olhar para ela, aproveitou-se daquela chance que não lembrava ter acontecido antes e fechou os olhos ficando os dois agarrados por um longo tempo. Ainda hoje o cheiro da mãe, misturado ao dos medicamentos que usava, o acompanham. Sorri quando o sente, porque aquele momento raro foi sua despedida. Só entre os dois.