Frases nem tão soltas III
21/01/2017 | 18h49
Frases nem tão soltas III
Cândida Albernaz
Vida perfeita para quê? Momentos quase perfeitos são ótimos.
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Pensar demais pode doer. Ou nos salvar.
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Porque ver através de outros olhos nos leva a descobrir uma nova forma de enxergar.
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Em alguns dias fico assim, exausta de mim.
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Ouça através dos meus olhos. O que eles dizem é muito mais do que minha boca ousaria pronunciar.
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Porque estou rindo? Porque estou bem. Porque gosto quando estou bem e porque gosto de querer rir.
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Quero escrever cores, dores, amores. Inventados, reais, esperados ou desesperados. Quero escrever vida. Sentida, vivida, sonhada. Quero escrever.
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Algumas vezes carregamos pedras e outras, flores. De vez em quando flores podem parecer pesar como pedras.
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Nem todos possuem o dom de ver com olhos da alma.
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Estou na fase dos porquês. Não perguntas. Respostas.
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Então posso escolher abrir o portão e descobrir que onde parecia ter apenas mato, havia flores.
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Preciso escrever porque sou feita de sonhos reais.
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Em alguns dias me dói viver. Por tudo. Por nada.
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Gosto de quem tem uma face, duas dão trabalho. No final, nunca saberei com quem estou falando.
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Posso rir de você enquanto seco o choro dentro de mim.
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E por permanecerem meninas, mulheres continuam florescendo. Precipitadamente!
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Não importa chuva ou frio se carregamos cor-calor na alma.
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Nunca tente entender o que sinto. Apenas me viva.
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Se conseguir abrir a porta a minha frente, descobriria o encanto de um mundo? Ou estaria ali um mundo encantado?
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Alguns dias precisam ser cerzidos. Se conseguirmos fazer bem feito, ninguém perceberá o rasgo agora escondido.
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Sabe qual a parte da vida que mais gosto? Ainda poder sorrir no final.
21-03-2013
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Devaneio
21/01/2017 | 18h49
Devaneio
Você me inspira, seduz, faz sonhar e sofrer.Enquanto musa você for a observo, dou-lhe os nomes que quero.
Nunca rotina, nunca dia a dia, frente a frente.
Pés no chão não me deixariam voar e sem o vôo não sou capaz de criar.
É assim que alimento meus poemas e sem eles não sobrevivo.
Nem tente tirar sua máscara, caso contrário serei obrigado a tirar a minha. E se vejo seu rosto ou você vê o meu, só vai sobrar a realidade e é dela que fujo.
Sou poeta, não se esqueça nunca, ou cairá num abismo.
Ontem pensava em você mais uma vez e tentei adivinhar o que seus olhos transmitiam na foto que observava. Não sei se consegui, mas não tem importância, porque na verdade não preciso saber o que sente. Quero colocar em seus olhos o sentimento que espero deles.
Orgulhe-se de ser musa e viva sua vida, não faça com que eu saiba como ela é. Apenas deixe escapar pequenos trechos que me deem espaço a imaginar.
Não, não diga que o que quer de mim são só as palavras. Também não tenha a curiosidade de me conhecer. Basta a você o que lê, e isso a faz sonhar com outras vidas, outras pessoas.
Não conte o que não quero saber. Nem diga que foge da realidade quando lê o que escrevo, mas que também não se interessa em saber como sou. Essa conversa está ficando real demais.
Já pedi que não continue, por favor. Ontem você foi ao supermercado? Faltou sal em casa? E daí? Não faça isso. Você não come, eu sei, apenas levita em torno de minha mente, flutua, voa como uma borboleta – tanto tempo lagarta presa no casulo até que se transforma linda e de vida curta- que posso segurar em minhas mãos e depois abri-las deixando que bata suas asas coloridas fazendo meus olhos brilharem.
Repito mais uma vez: não venha contar que de mim não espera nada, que minha rotina também a incomoda e me conhecer melhor fará com que diminua o valor do que escrevo.
Somos dois poetas, talvez? Não roube os sonhos e as letras que uso no papel, porque me impede de respirar.
Espero de você o que percebi espera de mim também. Jamais sair debaixo desse manto, jamais mostrar a verdadeira face, jamais olhar dentro dos olhos reais.
Sigo meus sonhos, segue os seus. Em linhas paralelas, aquelas que aprendemos jamais se encontram.
Estava decidido
21/01/2017 | 18h49
Estava decidido
Cândida Albernaz
Já chorou muito. Ontem, hoje pela manhã, mas agora estava pensando e achou melhor que Deus o levasse embora. Está sofrendo demais, o coitado. Não tem mais família. Quer dizer, separou da mulher há muitos anos, quando as crianças ainda eram pequenas. Ela foi embora com outro e levou os filhos junto. Ele, não sei por que, nunca voltou a casar. Tem umas sobrinhas, tudo interesseira, filhas da irmã mais velha que moram perto da casa dele. Se é que se pode chamar aquele quartinho de casa.
Mas não foi sempre assim não. Teve uma época que conseguiu guardar um dinheirinho, comprar dois terrenos e construir uma casa num deles. Até carro o danado tinha. O único dos irmãos que sabe dirigir. Quer dizer, não que fosse fazer muita diferença porque nenhum deles poderia pagar por um.
Mas os terrenos, as tais sobrinhas conseguiram convencer o pobre a vender. Para comprar outro melhor e mais em conta, disseram. Assim foi feito. Vendeu, recebeu o dinheiro e guardou em casa. Só por uma noite, porque no dia seguinte bem cedo ia depositar. Qual nada! Lá entraram enquanto dormia e rasparam tudo. No maior silêncio, que devia ser para não incomodar. Fiquei com pena. Verdade que tinha bebido todas junto com as meninas e o marido de uma delas. Portanto, não escutaria mesmo se tocassem uma banda de música no ouvido dele. Quando acordou, foi direto pegar a grana onde escondera e não encontrou nada!
De pijama, desceu a rua e bateu na porta de uma delas. Cadê meu dinheiro? Cadê o safado do seu marido? Vou dar umas porradas nele. Com a cara mais limpa, a lindinha se fez de boba e chorou ofendida. O sujeito chegou na hora e perguntou por que a mulher estava daquele jeito. Partiu para cima dele, empurrando e fazendo com que caísse no chão. Mandou que sumisse dali ou quebro sua cara seu velho doido. Agora ele era um “velho doido”. Até ontem a tarde, depois de ter sido convencido pela venda, era quase um “empresário”, o titio querido. Não pôde fazer nada, não teria como provar. E a casa em que vivia, descobriu mais tarde, nem era dele. A “adorada” sobrinha possuía um documento assinado por ele, doando para ela. E teve que sair. Arranjou um quartinho, vendeu o carro e pelo menos, manteve o emprego. Pensou em matar os dois, mas achou melhor ficar na miséria do que na cadeia.
Há três dias ligaram avisando que o irmão sofrera um derrame. Estava no hospital e tinha que arranjar um jeito de tirá-lo de lá. Se morresse, que fosse na cidade em que nasceu e se não, que a mãe ou parentes cuidassem dele. Foi logo avisando para as ladras que a casa dela era pequena e já cuidava de uma das irmãs que não andava. Não aguentaria mais um. E a mãe, essa estava mais morta do que viva. Como poderia ajudar um filho adulto com derrame?
Lavou as mãos porque estava exausta e não podia fazer nada. Mas agora, bateu o arrependimento e chorou de tristeza. A única solução era Deus levar com ele. As garotas sugaram o que podiam do tio, e agora não o queriam mais. Os filhos que teve durante o casamento, comunicaram que não têm pai. E se não têm, não havia como tomar conta desse estranho. Ela também não tinha espaço nem tempo. Orou a noite toda pedindo uma solução. E foi essa que encontrou. Que ele descansasse, para não sofrer ainda mais. Mas também não ia deixar que fosse enterrado como indigente. Resolveu parcelar o valor do caixão e verificar se podia colocar o corpo no mesmo lugar em que estava o do pai. Na sua cabeça parecia tudo acertado. Para trazer até a cidade tentaria uma ambulância gratuita. Estava decidido.
E se ele não morrer? Melhor não pensar nisso, que atrai. Tinha fé que no final, tudo ia dar certo.
15-04-2013
O caminho de volta
21/01/2017 | 18h49
O caminho de volta
Cândida Albernaz
Quase não sai de casa. Se precisar de comida, telefona e pede. Se tiver alguma conta para pagar, há um rapaz que passa por ali uma vez por semana. Dá dinheiro a ele, que faz todos os pagamentos.
Sabe que os vizinhos têm curiosidade a seu respeito. Ouviu outro dia, quando chegou ao portão, um deles passando e apontando o dedo em sua direção, Esquisito!
Assim ficou conhecido, um sujeito estranho que não falava com ninguém e que raramente colocava a cara para o lado de fora de casa.
Só há um dia em que vai à rua. Todos os meses. Então arruma-se, perfuma-se, enfim cuida-se melhor. Não há intenção em saber se está bonito ou feio. Quer apenas estar corretamente vestido, sem nada fora do lugar. Pega o chapéu antigo que fora do pai e sai.
Às vezes as crianças da redondeza, quando não têm uma bola para brincar seguem-no chamando de Esquisito! Um deles certa vez ameaçou jogar uma pedra. Quando isso aconteceu, voltou-se e ficou parado olhando em seus olhos. Não precisou dizer nada, os meninos recuaram e a partir de então andam atrás até que ele se distancie ou algum pai os chame.
Na época em que foi morar naquele bairro, já não vivia com mais ninguém. Chegara ali sozinho e montara sua casa. Tinha uma piscina onde costumava nadar todos os dias às seis horas da manhã. Invariavelmente. Fizesse sol, chuva, calor ou frio. Era arborizada, possuindo um quiosque onde colocou uma mesa, um banco alto e um cavalete que montava e desmontava todos os dias, sempre que acabava de pintar.
Não havia necessidade de sair dali para inspirar-se. Vira coisas demais, viajara muito e hoje pintava tudo o que vivera e a mente trazia à tona.
Havia na casa uma sala onde colocava todas as telas, até que fosse agendada a próxima exposição. O marchand vinha quando era avisado de que estava pronto. Examinava o trabalho, selecionava alguns e depois mandava que pegassem.
Quando estavam expostos na galeria, ia até lá como um anônimo e parava diante de cada um deles observando o que havia feito, sob nova luz. A maioria era vendida e o que sobrava ficava naquela ou em outra galeria do mesmo proprietário. Recebia o dinheiro e voltava a pintar.
Hoje faria o passeio mensal. No portão verificou se na bolsa que carregava havia colocado tudo o que precisava. A rua estava calma, as crianças deviam estar na escola e apenas um vizinho parou o que fazia para observar sua passagem.
Andou por um bom tempo. Não possuía carro e não gostava de táxi ou ônibus.
Em frente ao grande portão onde se podia ler numa placa Clínica Santana, respirou mais profundamente e entrou.
Os funcionários o cumprimentaram com um sorriso. Alguns paravam para conversar ou contar uma história engraçada. Ria com eles e procurava saber sobre a família de um e de outro. Ela está lá fora no lugar de sempre, alguns diziam. Atravessava o longo corredor e na área externa via o verde, os bancos e mesas, pessoas caminhando, lendo, ouvindo música ou conversando. Estava sentada debaixo da árvore. Usava o vestido com estampas de flores que ele trouxera na última visita. Adorava ganhar presentes.
Aproximou-se e beijou-a na testa. Recebeu um sorriso e a mão estendida: Onde está? Sorriu também e tirou da bolsa que carregava uma caixa branca com uma fita que terminava num laço. Sempre tinha que ter um laço, porque ela gostava de desfazê-lo. Abriu com calma e tirou de dentro uma blusa de seda, que levou até o rosto para sentir a textura.
Colocando caixa e presente recebido no banco, ela estendeu os braços para que ele a ajudasse a levantar-se. Abraçou-a pela cintura e caminharam. Quietos no início, até ele começar a falar sobre uma vida que não vivia cheia de emoção, muita gente em volta, e viagens que não fazia. Ela escutava com um sorriso e pedia que contasse mais. Às vezes ausentava-se e as pernas falhavam. Então segurava firme e a colocava deitada num banco com a cabeça apoiada em seu colo. Da boca escorria baba e os braços contorciam- se. Quando a crise passava, sentavam e ficavam quietos por algum tempo. Nem sempre era possível continuar. Algumas vezes os enfermeiros vinham e determinavam o fim da visita: ela agora precisa descansar.
No acidente em que ela dirigia o carro, o homem que estava ao lado morrera na hora. Ficou cega e com sequelas para toda a vida. Precisava de ajuda médica constante. Aquele homem era casado, assim como ela, comentaram depois. Costumavam encontrar-se no apartamento que ele tinha perto do local onde havia o maldito poste. Por algum motivo que nunca soube ela perdeu a direção. Não fez perguntas para quem não podia responder.
Gostava daquele lugar calmo.
Enquanto a levavam para dentro, prometeu estar ali em alguns dias.
Refez seu caminho de volta.
Os segredos de cada um
21/01/2017 | 18h49
Os segredos de cada um
Cândida Albernaz
A música sempre faz com que eu relaxe e me entregue. Em pé, em frente ao palco onde o grupo toca sambas antigos, danço como na época em que ainda era garota. Não me vejo velha, só algumas vezes.
Nem olho em volta, onde sei que casais estão dançando enlaçados pela cintura, pescoço e as coxas roçando uma na outra num momento de sedução.
A mim, basta a música e os instrumentos aos quais gosto de observar.
Ainda bem que conheci esse lugar aonde venho toda semana. Aqui dentro sou conhecida e por isso não me sinto inibida. Quando posso ter a companhia de uma amiga, melhor; e se isso não acontece, venho sozinha.
Algumas vezes um ou outro homem também passa o braço em volta de mim e dançamos. Então sorrio para ele e agradeço. Se tentar conversar, fico fria e não emito palavra, até que desiste. Ainda não estou preparada. Talvez nunca venha a estar.
Preciso ficar comigo, sinto falta de mim mesma. Tenho que pensar e pensar.
Em casa, o que me espera é uma sensação de solidão.
No fim da noite, quando apago as luzes e o silêncio se torna intenso, uma tristeza costuma dominar em forma de lágrimas que saltam dos olhos sem controle.
Ando pela casa entre os móveis vazios de alma e portas fechadas que trouxeram um dia, atrás de si, os segredos de cada um. Estes podem ser as piores lembranças que nos acompanham.
Fui casada por trinta anos, até que há dois ele se foi. O coração ficou fraco e um dia, durante o banho que tomava todas as manhãs, sentiu-se mal.
Chorei muito, e abraçada com minha filha pedi perdão por ele e por mim. Ela me olhou esquisito naquela hora e nos próximos dias, até que avisou que estava se preparando para morar fora de nosso país.
Sei que ela sabe o que fiz, acredito inclusive que agradeça por isso, mas não quer carregar mais uma culpa. Nunca falamos claramente sobre o que houve, mas o irmão mais velho, quando se casou há alguns anos me deu de presente na hora da cerimônia uma história que acho, nunca quis ver.
Lembrou-se dos dias em que eu precisava sair mais cedo do que o pai para o trabalho e ouvia gemidos e barulhos que não entendia vindo do quarto da irmã. Que nos muitos sábados em que eu passava a manhã num serviço voluntário de um orfanato, o que durou dois anos, ele ouvia os mesmos sons.
Um dia, resolveu encarar sem medo e abriu a porta do quarto que o pai não fez questão de fechar.
Nesse momento da conversa me abraçou e chorou como menino.
Minha filha Ana, arredia, sem motivação para o estudo, sem nunca ter namorado alguém, vivia com uma expressão de semimorta. Minha filha que jamais consegui fazer com que me desse um abraço e que apesar dos diversos pedidos, não quis fazer um tratamento psicológico. Sabia que precisava de ajuda, mas não o motivo.
Foi então que passei a fazer questão de eu mesma preparar o suco de todas as manhãs. Às vezes ele sentia-se muito fraco, mas eu arrumava um jeito para que melhorasse sem a ajuda de um médico.
Não foi rápido, levou muito tempo, mas eu tinha paciência. Só não podia permitir que Ana continuasse morta enquanto ele vivia. Era a vez dele. Todos nós precisávamos respirar novamente.
Numa dessas manhãs, Ana entrou na cozinha enquanto eu colocava o conteúdo de um frasco no copo do pai. Olhou em meus olhos e saiu sem dizer nada. Sabia que ele não tomava remédios de espécie alguma. Dizia ser forte, e que aquelas drogas não curavam ninguém, só faziam mal. Também era contra procurar por médicos: “estes só servem para nos tornar doentes”.
Quando começou a se sentir muito fraco, quis voltar atrás em sua opinião, mas eu o convenci do contrário.
Ana não sabe quando volta. Escrevi outro dia dizendo estar pensando em visitá-la. Achou melhor que não, alegou mil desculpas que entendi perfeitamente.
Meu filho raramente aparece. Liguei para ele que informou que a mulher está grávida há três meses.
Levo meus segredos às vezes com tranquilidade, outras com desespero.
Espero que o tempo passe e com ele eu sobreviva à prisão que escolhi.
Banco da rodoviária
21/01/2017 | 18h49
Banco da Rodoviária
Cândida Albernaz
Na casa à beira da estrada, os tijolos aparecem sem qualquer pintura ou acabamento. A varanda em tom lilás sobressai com uma porta larga de madeira trabalhada em relevos. Herança da patroa que não a queria mais. Ela mesma passara a mão de tinta, o que tornava onde morava um lugar diferente do resto da vizinhança.
Sempre fora assim, se queria algo, ela fazia. Ainda criança sua mãe saiu de casa levando o irmão caçula. Ela ficou com o pai. Tinha oito anos, e já era uma mocinha, como a mãe cansava de afirmar enquanto arrumava a mala. O pai não podia ficar sozinho e precisava de alguém que cuidasse dele. Chorava ouvindo a mãe falar, e lembrava-se de como agarrara na barra do vestido vermelho com flores brancas que usava, puxando-a para trás. Não adiantou. A mãe arrastava a perna e ela junto. Quando chegaram à porta, ela retirou sua mão com força e disse que na semana seguinte viria vê-la. Não voltou até hoje. A porta daquela época também não é mais a mesma.
A vida ao lado do pai não foi das mais fáceis. Crescia e os cabelos crespos e pretos, os olhos puxados e a boca estreita, lembravam cada vez mais sua mãe. E quando queria ofendê-la, falava dessa semelhança com “aquela vagabunda da sua mãe que largou você atrás de um qualquer. A gente logo vê que é filha daquelazinha”.
Cuidou do pai, das bebedeiras dele, das mulheres que trazia para dentro de casa e que por muitas vezes quiseram ser sua mãe. Demonstravam isso batendo nela, porque precisava ser educada por alguém.
Há poucos dias recebeu uma carta. Quando viu o remetente, pensou em queimar. Havia se passado trinta anos. No início chorou muito, costumava rezar pedindo que a mãe fosse buscá-la. Após alguns anos começou a sentir raiva e pedia sua morte. Com mais idade, convenceu-se de que ela havia morrido realmente e por isso nunca mais voltou. Portanto ela só não procurava a filha, porque morta, não podia.
Guardou a carta na gaveta da cômoda e agora resolveu abri-la: “Filha, talvez não pense mais em mim, mas não há um dia que deixe de lembrar seu rostinho. Tentei procurá-la outras vezes, mas como morava longe e não sabia escrever direito, desisti. Mudamos para perto. Tenho certeza de que seu pai cuidou bem de você, sempre foi a preferida dele. Seu irmão cresceu forte e hoje está casado e com dois filhos. Meu neto me ajudou a escrever essa carta. Chego na sua cidade em cinco de outubro. Queria ver você. Longe de seu pai, que sei ainda está vivo. Ficarei na rodoviária esperando o dia inteiro. O último ônibus sai às dezoito horas. Estarei no banco do lado direito do terminal. Espero que ainda haja esse banco. Estou velha e cansada. De sua mãe que apesar de ser diferente das outras a ama,beijo.”
Dia cinco de outubro é hoje. Duas horas da tarde. Ela deve estar lá, sentada esperando.
Não iria. Para quê? Nem se lembrava de seu rosto. O que também já deve ter mudado muito. A mãe não teria como reconhecê-la. Era uma menina quando a deixou. Às cinco horas resolveu que caminharia até lá. Ficaria de longe observando.
* * *
A rodoviária estava cheia. Olhou os bancos e havia várias senhoras e crianças sentadas neles. Procurou o da direita. Uma mulher com ar cansado suava passando a mão nos cabelos enquanto conversava com uma menina. A outra, quieta parecia não ouvir o alvoroço à sua volta. Usava um vestido vermelho com flores brancas que parecia estar apertado demais. Olhava o chão e de vez em quando levantava a cabeça procurando alguém.
Ficou observando-a tentando enxergar a semelhança que seu pai via nas duas. Não encontrou. Aquela mulher tinha olhos apagados, a pele enrugada e os cabelos brancos. Notou que sua mão tremia ao olhar o relógio. Demonstrava ansiedade. O ônibus chegou e sairia em dez minutos.
Andou até próximo ao banco e parou. Tentou disfarçar olhando para outros lugares. Ainda não decidira se queria falar com ela. Talvez numa outra ocasião. Tinha o endereço na carta. Quem sabe a procuraria depois.
As pessoas formavam fila para entrar no ônibus. Procurou-a novamente e não a viu. Será que ela entrou enquanto olhava em volta?
A mão em seu ombro fez com que sentisse um sobressalto:
- Não deixaria nunca de reconhecer seus olhos. Você mudou, mas eles continuam com a mesma expressão do dia em que fui.
Olhou aquela senhora e não sabia dizer o que sentia.
- Não fale nada agora, minha filha. O ônibus vai sair. Volto amanhã e espero por você no mesmo banco em que estava hoje.
Se quero algo...
21/01/2017 | 18h49
Se quero algo...
Cândida Albernaz
Sei o que vai dizer e não modificará nada. Sou teimosa? E daí? Foi assim que consegui quase tudo o que sempre quis. A essa altura da vida não vou mudar. Que altura? Está bem, tenho apenas trinta anos. Apenas? Acho um peso enorme entrar nesse numeral. Você é bem mais velho do que eu e parece ter menos. Não, não queria ser como você. Leva a vida sem se preocupar com quase nada. É mais leve inclusive no peso, não é? Só rindo mesmo. Não adianta. Quando coloco na mente, vou até o final. E se não consigo... fico irritada? Não é verdade. Fico irritadíssima! Difícil para os que estão ao meu lado, eu sei. Mas não estou pedindo que permaneça aqui escutando meu choramingo. Aliás, já que não quer ajudar, melhor que vá para casa. Droga! esqueci que mora aqui também. Rindo de novo? Achando engraçado eu estar confusa. Você sabe que para isto acontecer não é necessário muito. Sou confusa esquecida irritada teimosa... pode ver alguma qualidade ou enxerga só os defeitos? Sei! Não lembrei de dizer que falo sem parar. Vai sacaneando, vai. Quando tiver o que pretendo quem dará risada será eu. Duvida que eu consiga? Ah! Que dê risadas... Palhaço! Está tentando afirmar que não sou alegre. É óbvio que sou. Não quando me deixam nervosa ou preocupada. Não há motivo? Já pensou em quantas vezes duvidou e provei que podia? Não preciso provar nada a ninguém? Isso parece letra de música. O que? Está com vontade de me beijar? Me leve a sério, por favor! Acha uma bobagem eu me desgastar por tão pouco. Qualquer coisa que eu deseje, nunca é pouco. Sabe por que você está aqui? Porque sou birrenta, como você gosta de falar. Porque coloquei na minha cabeça que não sossegaria enquanto não tivesse você. Claro que não o comparo com um cachorro. Ei! não faça essa cara. Sabe que te amo mais do que tudo. Você sabe, não sabe? Vamos, dê um sorriso. Não tenho jeito mesmo? Assim é melhor. Não quero que a gente brigue. Não suporto que se zangue comigo. Fico triste. Muito. Um beijinho vai. Pensa que pareço criança de vez em quando. Pode ser. Viu só? Se pareço criança é porque também posso ficar alegre, leve e não apenas aquelas coisas todas que falou antes. Verá como ficarei feliz quando estiver com o Dog aqui. Que nome é esse? Acabei de nominá-lo assim. Não é cão? Então: Dog. Eu sei que ele falou que não vai vender. Vamos ver. Você está de prova que cheguei lá e ele veio para meu lado abanando o rabinho. Viu como foi se encostando. Será meu. Está decidido. Não, não sou louca. Meu irmão vai ceder e vender ou quem sabe dar o Dog para mim. Não vou arrumar confusão com a mulher dele coisa nenhuma. Aquela lá não gosta de animais e a mim, nunca suportou mesmo. Não fará diferença. É capaz de agradecer. Amanhã vou à casa deles e só volto com o cachorrinho. Pare de rir. Você sabe do meu potencial de persuasão. Aliás, provou do quanto posso ser envolvente. Vem e me abrace um pouquinho. Deite aqui e mexe no meu cabelo. Sabe que quando faz isso fico molinha. Adoro se me beija desse jeito. Vê como é possível eu ser suave? Que gostoso. Posso pedir mais uma coisinha? Vamos à casa de meu irmão comigo? Ele respeita você. Se falar com ele, vou ter mais força. Não, não faz isso. Venha aqui. Prometo ficar quieta. Ou quase.
07/03/2013
Pois é
21/01/2017 | 18h49
Pois é
Cândida Albernaz
Um piscar de olhos e sentia-se bem novamente.
Queria colocar para fora o que ardia.
Às vezes era assim, pequena -pequena como um grão de areia fina, em outras se reconhecia gigante não cabendo no curto espaço que era o mundo.
Esse contraste no sentir a deixava insana: feliz-triste-feliz-triste-feliz-triste, como o barulho de um trem antigo se movendo no trilho de ferro.
A parte boa era que enquanto feliz, percebia o cheiro do ar, o ruído do vento, o riso de gente que ri com o corpo inteiro. Ria ela também com todo o corpo. De tudo e de tudo. O problema vinha com o tal de piscar de olhos. E quando isto acontecia, podia também cair num abismo. Aquele de onde não se vê o fundo. Apenas uma sombra escura, da qual não se distingue o formato. E nessas horas, porque isso podia durar horas, às vezes semanas, a única coisa que enxergava era o próprio umbigo.
Fazia um enorme esforço para não ficar exposta a todos.
Sentou na varanda da casa permitindo que os pensamentos brincassem com ela.
Pensou pegar o carro e sair à toa, sem um lugar para chegar, mas o marido estranharia sua ausência àquela hora. Ainda cedo e muito escuro.
Imaginou bancar a louca saindo, para só voltar dias depois. Mas os dois, filho e marido ficariam preocupados. Não queria isso.
Mais pelo filho. Esperaria que ele crescesse um pouco, se tornasse menos dependente de sua presença.
Engraçado notar que sempre esperava por algo para que tomasse uma atitude.
Esperava que o filho crescesse para que escapulisse por uns dias. Que o marido se estabelecesse para que pudessem fazer a viagem que queriam. Que emagrecesse para colocar o biquini lindo! que comprara e ainda não usara. Que ela própria ganhasse mais (ou quem sabe na loteria) para que se sentisse segura e largasse o emprego que detestava.
O tempo ia correndo como se disputasse uma prova e ela ficando lá atrás com seus desejos e medos.
Recordou a época da faculdade em que afirmava seria uma excelente advogada.
Que nada! engravidou, casou e arrumou o emprego no banco. O marido continuou estudando e ela esperou que aquela fase difícil de sua vida acabasse para que voltasse a concluir o que começara.
Não o fez e nem mesmo sabia o porquê.
Pensando bem ainda estava apta a mudanças. Era jovem. Isso mesmo. Quando o marido acordasse avisaria que pretendia retornar à sala de aula. Teria que dividir com ela a educação do filho. E não aceitaria qualquer tipo de desculpa.
O dia estava amanhecendo agora. Talvez pudesse dormir um pouco mais. Sorria ao puxar o lençol sobre o corpo.
- Mãe? Vou me atrasar. Você esqueceu de me acordar. Precisa preparar meu lanche.
Levantou num sobressalto. Como pudera não ouvir o despertador?
Preparou o leite do filho que estava com dez anos e ouviu o marido no banho.
Fazia questão de ela própria servir o café da manhã para os três. Em breve seriam quatro.
Fizera o ultrasom e sabia que teriam uma menininha. Sentia-se feliz.
A cozinheira chegaria logo e depois de combinar com ela sobre o almoço, iria para o banco.
Parecia tudo tão encaixado, tão perfeito...
O piscar de olhos aconteceu mais uma vez.
Queria mais, queria querer, queria...
26/02/2013
Sonho vida vida sonho
21/01/2017 | 18h49
Sonho vida vida sonho
Cândida Albernaz
Dentro dela pensamentos confundiam imaginação e realidade.
A mente se alimentava de idéias desordenadas sem qualquer tipo de restrição. Queria poder correr um pouco. Quem sabe o cansaço faria com que então deitasse e dormisse. Sem sonhar, claro. Temia os sonhos como se reais fossem. Não vinham à toa, sabia. Desencadeavam-se por fatos que a incomodavam durante o dia. Dormir se tornara um momento que não tinha nada a ver com relaxar.
Os pesadelos se sucediam dia após dia. Ou melhor, noite após noite.
* * *
As crianças corriam de um lado para o outro atrás da bola branca. Riam, gritavam, demonstravam uma alegria que a fazia sorrir.
Carlinha, minha filha, colocou a cadeira onde eu estava sentada na beira da água para que pudesse sentir as marolas batendo nas pernas.
O neto fez sinal para que olhasse para ele:
- Vó!
Ri enquanto ele mergulhava e subia a cabeça, esbaforido pela ligeira asfixia provocada pelo gesto.
Os anos em que podia fazer o mesmo iam longe.
* * *
Dessa vez sonhou com uma enorme festa que realizava. Estava lindo o lugar. Flores brancas, o colorido das luzes, cristais espalhados, à espera dos convidados, tudo provocando nela uma excitação mal controlada.
A hora passava e não chegava ninguém. Sentou em um dos sofás, colocando os pés em cima do assento, abraçou a cabeça entre os joelhos e chorou o abandono.
* * *
Carlinha perguntou se queria alguma coisa. Disse que não, estava bem.
Na verdade queria sim. Queria muito voltar a nadar. Poder caminhar até o mar e mergulhar junto com meu neto. Afundar-e-emergir-afundar-e-emergir-afundar-e-emergir. E voltar correndo para a areia quente que abrigaria do frio estimulado pelo vento no corpo molhado.
Queria poder sentir novamente ser erguida no colo por meu marido, que quando me jogava para frente, eu caia com estardalhaço no líquido azul. Gargalhadas e falsas perseguições para no final nos abraçarmos.
Faz tempo. Muito.
* * *
Acordou com o próprio soluço. Percebeu que tinha lágrimas no rosto. Sonho que dói, tamanha sensação de realidade. Ele fora embora, deixara que ela ficasse parada na porta observando o vazio à sua frente. Mas quem foi embora? Não conseguia lembrar o rosto do homem. Tinha certeza de que era um homem pela dor sentida. No corpo e no peito. Chorava forte enquanto queria que ele voltasse. Mas não havia coragem de pedir.
Tantos sonhos. Para quê?
* * *
Pedi à Carlinha que me levasse de volta para casa. Estava cansada. O cabelo curto se desalinhava ao vento. Passei as mãos sem obter resultado. Dei um muxoxo, provocando um riso abafado no genro. Sempre ria desses muxoxos. Achava graça no meu reclamar mudo.
Em casa talvez recostasse um pouco. À tarde não costumava sonhar.
Não fora sempre assim. Iniciou depois que adquiri medos na vida.
Tão sozinha às vezes...mas não podia reclamar. A filha e o neto estavam sempre comigo.
Talvez um velho hábito de querer sempre mais.
15-01-2013
Conversa vai conversa vem
21/01/2017 | 18h48
Conversa vai, conversa vem.
Cândida Albernaz
Dona Marta, a senhora não imagina o que me aconteceu hoje antes de vir pra cá. Sabe o meu caçula? O Claudinho, aquele que falei que ia dar para a senhora batizar, mas depois tive que dar para a irmã do meu marido, porque ela zangou, pois então, o danado do menino pegou o botão da camisa do pai, que eu deixei em cima da mesa, porque eu ia costurar ele, sabe? Pegou a droga do botão e enfiou no nariz. Fiz de tudo e nada de sair. Tive que levar ao posto de saúde e lá colocaram um troço no nariz dele e conseguiram tirar. O pior a senhora não sabe. Meu marido estava se arrumando para tentar um trabalho. Teve que sair com a camisa sem botão, bem na barriga. E a senhora conhece ele, não é? Lembra do tamanho daquela pança. Pois é, aquele umbigo enorme que mais parece uma vala ficou aparecendo. Ridículo, claro. Quando voltou, estava zangado porque não conseguiu o serviço e quis botar a culpa em mim. Veio dizer que estava mal vestido e os homens da fábrica não deram o emprego por isso. Agora a senhora veja só! Ele bebe até cair, come feito um boi, engordou nesses últimos anos como uma porca e vem reclamar que a aparência dele está ruim por minha causa. O que a gente tem que ouvir de homem, né? Já estou ficando enjoada dessa vida. E o pior é que não posso fazer nada. Mudar, como? Ganho mal, não é sua culpa dona Marta, mas o salário mínimo não dá para nada. A casa onde moro é da família dele, tô com quatro filhos. Vou fazer o quê? Aguentar firme, eu sei. Mas é que às vezes tenho uns sonhos bobos. Fico imaginando que se eu tivesse estudado poderia ser alguém nessa vida. Assim como a senhora, que sabe falar direito, se veste com cada roupa... e o cabelo? Macio feito algodão. Às vezes sonho que estou num salão de beleza e aquelas meninas cuidando de mim feito uma rainha. Acho que ia dormir com alguém mexendo no meu cabelo e nos meus pés ao mesmo tempo. Quando posso faço minhas unhas. Então lembro que tenho tanta roupa para lavar e desisto de passar o esmalte. Não vai adiantar nada mesmo. Vou borrar e vai ficar horrível. Se eu fosse bonitona assim como a senhora, queria ver se meu marido ia ficar de olho na vagabunda da nossa vizinha. Desculpe o jeito de falar, mas é que aquela me tira do sério. Só quebrando a cara dela. E eu sei que ela nem se interessa por ele de verdade. O que ela gosta, é de dinheiro e isso ele não tem. Bonito também tá longe de ser. O que ela quer mesmo é me provocar, rebolando daquele jeito e jogando o cabelo de um lado para o outro o tempo todo. O marido da tal se mandou com a irmã dela e ela ficou traumatizada. É assim que se fala, não é? Eu não tenho nada com isso. Se a irmã era uma piranha, ela que botasse para correr. Não dá nem para sentir pena, porque depois que foi abandonada, começou a dar para todo mundo. Deixe ela chegar perto. Que fique rebolando de longe, porque se pego os dois juntos, aquela cabeleira dela vai sumir. Arranco fio por fio. Dona Marta, a senhora tá me olhando desse jeito... Já sei, tô falando muito outra vez, não é? Estava só explicando porque cheguei atrasada. Mas diga, o que faço para o almoço? Só não manda fazer frango de novo. Nem eu que não tenho luxo estou suportando, quanto mais, seu Artur. Aliás, a senhora sabia que o seu Artur ficou de arrumar emprego para o meu marido? Dá uma forcinha, fala com ele, porque a senhora ele escuta. Escuta não, obedece! Meu marido sabe fazer de tudo. Ele ontem... Desculpe, dona Marta, já estou indo para a cozinha. Depois a gente termina a conversa.
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Candida Albernaz
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