Pois é
Pois é
Cândida Albernaz
Um piscar de olhos e sentia-se bem novamente.
Queria colocar para fora o que ardia.
Às vezes era assim, pequena -pequena como um grão de areia fina, em outras se reconhecia gigante não cabendo no curto espaço que era o mundo.
Esse contraste no sentir a deixava insana: feliz-triste-feliz-triste-feliz-triste, como o barulho de um trem antigo se movendo no trilho de ferro.
A parte boa era que enquanto feliz, percebia o cheiro do ar, o ruído do vento, o riso de gente que ri com o corpo inteiro. Ria ela também com todo o corpo. De tudo e de tudo. O problema vinha com o tal de piscar de olhos. E quando isto acontecia, podia também cair num abismo. Aquele de onde não se vê o fundo. Apenas uma sombra escura, da qual não se distingue o formato. E nessas horas, porque isso podia durar horas, às vezes semanas, a única coisa que enxergava era o próprio umbigo.
Fazia um enorme esforço para não ficar exposta a todos.
Sentou na varanda da casa permitindo que os pensamentos brincassem com ela.
Pensou pegar o carro e sair à toa, sem um lugar para chegar, mas o marido estranharia sua ausência àquela hora. Ainda cedo e muito escuro.
Imaginou bancar a louca saindo, para só voltar dias depois. Mas os dois, filho e marido ficariam preocupados. Não queria isso.
Mais pelo filho. Esperaria que ele crescesse um pouco, se tornasse menos dependente de sua presença.
Engraçado notar que sempre esperava por algo para que tomasse uma atitude.
Esperava que o filho crescesse para que escapulisse por uns dias. Que o marido se estabelecesse para que pudessem fazer a viagem que queriam. Que emagrecesse para colocar o biquini lindo! que comprara e ainda não usara. Que ela própria ganhasse mais (ou quem sabe na loteria) para que se sentisse segura e largasse o emprego que detestava.
O tempo ia correndo como se disputasse uma prova e ela ficando lá atrás com seus desejos e medos.
Recordou a época da faculdade em que afirmava seria uma excelente advogada.
Que nada! engravidou, casou e arrumou o emprego no banco. O marido continuou estudando e ela esperou que aquela fase difícil de sua vida acabasse para que voltasse a concluir o que começara.
Não o fez e nem mesmo sabia o porquê.
Pensando bem ainda estava apta a mudanças. Era jovem. Isso mesmo. Quando o marido acordasse avisaria que pretendia retornar à sala de aula. Teria que dividir com ela a educação do filho. E não aceitaria qualquer tipo de desculpa.
O dia estava amanhecendo agora. Talvez pudesse dormir um pouco mais. Sorria ao puxar o lençol sobre o corpo.
- Mãe? Vou me atrasar. Você esqueceu de me acordar. Precisa preparar meu lanche.
Levantou num sobressalto. Como pudera não ouvir o despertador?
Preparou o leite do filho que estava com dez anos e ouviu o marido no banho.
Fazia questão de ela própria servir o café da manhã para os três. Em breve seriam quatro.
Fizera o ultrasom e sabia que teriam uma menininha. Sentia-se feliz.
A cozinheira chegaria logo e depois de combinar com ela sobre o almoço, iria para o banco.
Parecia tudo tão encaixado, tão perfeito...
O piscar de olhos aconteceu mais uma vez.
Queria mais, queria querer, queria...
26/02/2013