Sonho vida vida sonho
Sonho vida vida sonho
Cândida Albernaz
Dentro dela pensamentos confundiam imaginação e realidade.
A mente se alimentava de idéias desordenadas sem qualquer tipo de restrição. Queria poder correr um pouco. Quem sabe o cansaço faria com que então deitasse e dormisse. Sem sonhar, claro. Temia os sonhos como se reais fossem. Não vinham à toa, sabia. Desencadeavam-se por fatos que a incomodavam durante o dia. Dormir se tornara um momento que não tinha nada a ver com relaxar.
Os pesadelos se sucediam dia após dia. Ou melhor, noite após noite.
* * *
As crianças corriam de um lado para o outro atrás da bola branca. Riam, gritavam, demonstravam uma alegria que a fazia sorrir.
Carlinha, minha filha, colocou a cadeira onde eu estava sentada na beira da água para que pudesse sentir as marolas batendo nas pernas.
O neto fez sinal para que olhasse para ele:
- Vó!
Ri enquanto ele mergulhava e subia a cabeça, esbaforido pela ligeira asfixia provocada pelo gesto.
Os anos em que podia fazer o mesmo iam longe.
* * *
Dessa vez sonhou com uma enorme festa que realizava. Estava lindo o lugar. Flores brancas, o colorido das luzes, cristais espalhados, à espera dos convidados, tudo provocando nela uma excitação mal controlada.
A hora passava e não chegava ninguém. Sentou em um dos sofás, colocando os pés em cima do assento, abraçou a cabeça entre os joelhos e chorou o abandono.
* * *
Carlinha perguntou se queria alguma coisa. Disse que não, estava bem.
Na verdade queria sim. Queria muito voltar a nadar. Poder caminhar até o mar e mergulhar junto com meu neto. Afundar-e-emergir-afundar-e-emergir-afundar-e-emergir. E voltar correndo para a areia quente que abrigaria do frio estimulado pelo vento no corpo molhado.
Queria poder sentir novamente ser erguida no colo por meu marido, que quando me jogava para frente, eu caia com estardalhaço no líquido azul. Gargalhadas e falsas perseguições para no final nos abraçarmos.
Faz tempo. Muito.
* * *
Acordou com o próprio soluço. Percebeu que tinha lágrimas no rosto. Sonho que dói, tamanha sensação de realidade. Ele fora embora, deixara que ela ficasse parada na porta observando o vazio à sua frente. Mas quem foi embora? Não conseguia lembrar o rosto do homem. Tinha certeza de que era um homem pela dor sentida. No corpo e no peito. Chorava forte enquanto queria que ele voltasse. Mas não havia coragem de pedir.
Tantos sonhos. Para quê?
* * *
Pedi à Carlinha que me levasse de volta para casa. Estava cansada. O cabelo curto se desalinhava ao vento. Passei as mãos sem obter resultado. Dei um muxoxo, provocando um riso abafado no genro. Sempre ria desses muxoxos. Achava graça no meu reclamar mudo.
Em casa talvez recostasse um pouco. À tarde não costumava sonhar.
Não fora sempre assim. Iniciou depois que adquiri medos na vida.
Tão sozinha às vezes...mas não podia reclamar. A filha e o neto estavam sempre comigo.
Talvez um velho hábito de querer sempre mais.
15-01-2013