Estava decidido
Estava decidido
Cândida Albernaz
Já chorou muito. Ontem, hoje pela manhã, mas agora estava pensando e achou melhor que Deus o levasse embora. Está sofrendo demais, o coitado. Não tem mais família. Quer dizer, separou da mulher há muitos anos, quando as crianças ainda eram pequenas. Ela foi embora com outro e levou os filhos junto. Ele, não sei por que, nunca voltou a casar. Tem umas sobrinhas, tudo interesseira, filhas da irmã mais velha que moram perto da casa dele. Se é que se pode chamar aquele quartinho de casa.
Mas não foi sempre assim não. Teve uma época que conseguiu guardar um dinheirinho, comprar dois terrenos e construir uma casa num deles. Até carro o danado tinha. O único dos irmãos que sabe dirigir. Quer dizer, não que fosse fazer muita diferença porque nenhum deles poderia pagar por um.
Mas os terrenos, as tais sobrinhas conseguiram convencer o pobre a vender. Para comprar outro melhor e mais em conta, disseram. Assim foi feito. Vendeu, recebeu o dinheiro e guardou em casa. Só por uma noite, porque no dia seguinte bem cedo ia depositar. Qual nada! Lá entraram enquanto dormia e rasparam tudo. No maior silêncio, que devia ser para não incomodar. Fiquei com pena. Verdade que tinha bebido todas junto com as meninas e o marido de uma delas. Portanto, não escutaria mesmo se tocassem uma banda de música no ouvido dele. Quando acordou, foi direto pegar a grana onde escondera e não encontrou nada!
De pijama, desceu a rua e bateu na porta de uma delas. Cadê meu dinheiro? Cadê o safado do seu marido? Vou dar umas porradas nele. Com a cara mais limpa, a lindinha se fez de boba e chorou ofendida. O sujeito chegou na hora e perguntou por que a mulher estava daquele jeito. Partiu para cima dele, empurrando e fazendo com que caísse no chão. Mandou que sumisse dali ou quebro sua cara seu velho doido. Agora ele era um “velho doido”. Até ontem a tarde, depois de ter sido convencido pela venda, era quase um “empresário”, o titio querido. Não pôde fazer nada, não teria como provar. E a casa em que vivia, descobriu mais tarde, nem era dele. A “adorada” sobrinha possuía um documento assinado por ele, doando para ela. E teve que sair. Arranjou um quartinho, vendeu o carro e pelo menos, manteve o emprego. Pensou em matar os dois, mas achou melhor ficar na miséria do que na cadeia.
Há três dias ligaram avisando que o irmão sofrera um derrame. Estava no hospital e tinha que arranjar um jeito de tirá-lo de lá. Se morresse, que fosse na cidade em que nasceu e se não, que a mãe ou parentes cuidassem dele. Foi logo avisando para as ladras que a casa dela era pequena e já cuidava de uma das irmãs que não andava. Não aguentaria mais um. E a mãe, essa estava mais morta do que viva. Como poderia ajudar um filho adulto com derrame?
Lavou as mãos porque estava exausta e não podia fazer nada. Mas agora, bateu o arrependimento e chorou de tristeza. A única solução era Deus levar com ele. As garotas sugaram o que podiam do tio, e agora não o queriam mais. Os filhos que teve durante o casamento, comunicaram que não têm pai. E se não têm, não havia como tomar conta desse estranho. Ela também não tinha espaço nem tempo. Orou a noite toda pedindo uma solução. E foi essa que encontrou. Que ele descansasse, para não sofrer ainda mais. Mas também não ia deixar que fosse enterrado como indigente. Resolveu parcelar o valor do caixão e verificar se podia colocar o corpo no mesmo lugar em que estava o do pai. Na sua cabeça parecia tudo acertado. Para trazer até a cidade tentaria uma ambulância gratuita. Estava decidido.
E se ele não morrer? Melhor não pensar nisso, que atrai. Tinha fé que no final, tudo ia dar certo.
15-04-2013