Estava decidido
candida 18/04/2013 13:36
Estava decidido Cândida Albernaz Já chorou muito. Ontem, hoje pela manhã, mas agora estava pensando e achou melhor que Deus o levasse embora. Está sofrendo demais, o coitado. Não tem mais família. Quer dizer, separou da mulher há muitos anos, quando as crianças ainda eram pequenas. Ela foi embora com outro e levou os filhos junto. Ele, não sei por que, nunca voltou a casar. Tem umas sobrinhas, tudo interesseira, filhas da irmã mais velha que moram perto da casa dele. Se é que se pode chamar aquele quartinho de casa. Mas não foi sempre assim não. Teve uma época que conseguiu guardar um dinheirinho, comprar dois terrenos e construir uma casa num deles. Até carro o danado tinha. O único dos irmãos que sabe dirigir. Quer dizer, não que fosse fazer muita diferença porque nenhum deles poderia pagar por um. Mas os terrenos, as tais sobrinhas conseguiram convencer o pobre a vender. Para comprar outro melhor e mais em conta, disseram. Assim foi feito. Vendeu, recebeu o dinheiro e guardou em casa. Só por uma noite, porque no dia seguinte bem cedo ia depositar. Qual nada! Lá entraram enquanto dormia e rasparam tudo. No maior silêncio, que devia ser para não incomodar. Fiquei com pena. Verdade que tinha bebido todas junto com as meninas e o marido de uma delas. Portanto, não escutaria mesmo se tocassem uma banda de música no ouvido dele. Quando acordou, foi direto pegar a grana onde escondera e não encontrou nada! De pijama, desceu a rua e bateu na porta de uma delas. Cadê meu dinheiro? Cadê o safado do seu marido? Vou dar umas porradas nele. Com a cara mais limpa, a lindinha se fez de boba e chorou ofendida. O sujeito chegou na hora e perguntou por que a mulher estava daquele jeito. Partiu para cima dele, empurrando e fazendo com que caísse no chão. Mandou que sumisse dali ou quebro sua cara seu velho doido. Agora ele era um “velho doido”. Até ontem a tarde, depois de ter sido convencido pela venda, era quase um “empresário”, o titio querido. Não pôde fazer nada, não teria como provar. E a casa em que vivia, descobriu mais tarde, nem era dele. A “adorada” sobrinha possuía um documento assinado por ele, doando para ela. E teve que sair. Arranjou um quartinho, vendeu o carro e pelo menos, manteve o emprego. Pensou em matar os dois, mas achou melhor ficar na miséria do que na cadeia. Há três dias ligaram avisando que o irmão sofrera um derrame. Estava no hospital e tinha que arranjar um jeito de tirá-lo de lá. Se morresse, que fosse na cidade em que nasceu e se não, que a mãe ou parentes cuidassem dele. Foi logo avisando para as ladras que a casa dela era pequena e já cuidava de uma das irmãs que não andava. Não aguentaria mais um. E a mãe, essa estava mais morta do que viva. Como poderia ajudar um filho adulto com derrame? Lavou as mãos porque estava exausta e não podia fazer nada. Mas agora, bateu o arrependimento e chorou de tristeza. A única solução era Deus levar com ele. As garotas sugaram o que podiam do tio, e agora não o queriam mais. Os filhos que teve durante o casamento, comunicaram que não têm pai. E se não têm, não havia como tomar conta desse estranho. Ela também não tinha espaço nem tempo. Orou a noite toda pedindo uma solução. E foi essa que encontrou. Que ele descansasse, para não sofrer ainda mais. Mas também não ia deixar que fosse enterrado como indigente. Resolveu parcelar o valor do caixão e verificar se podia colocar o corpo no mesmo lugar em que estava o do pai. Na sua cabeça parecia tudo acertado. Para trazer até a cidade tentaria uma ambulância gratuita. Estava decidido. E se ele não morrer? Melhor não pensar nisso, que atrai. Tinha fé que no final, tudo ia dar certo. 15-04-2013

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

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