Novela do Arquivo Público completa 90 dias
08/08/2022 | 20h02
Vinte milhões. Esse foi valor conseguido em um acordo firmado entre Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), Prefeitura de Campos e Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), para o restauro do Solar do Colégio e para digitalização do acervo do Arquivo Público Municipal, abrigado no mesmo prédio. O Termo de Cooperação Técnica foi assinado em 19 de maio, no Palácio da Cultura.

O valor do acordo foi repassado na forma de duodécimos à Uenf, que ficou com a responsabilidade de realizar as intervenções no Arquivo. Em uma novela que se arrasta há mais de 90 dias, os recursos estão em caixa, à disposição da Universidade, porém sem ações efetivas até o momento. 
O Solar do Colégio é tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) desde 1946. Nos anos 1990, a própria Uenf realizou um restauro parcial, inicialmente para servir a uma Escola de Cinema. O projeto não foi concluído, e em 2001 o Solar foi adaptado para abrigar o Arquivo. O espaço — Solar e Capela do Engenho do Colégio — foi testemunha do processo de colonização campista, com construção iniciada em 1652, sendo sede da fazenda dos jesuítas.
Essa construção fortificada passou por dificuldades; não foi exceção em uma cidade que não soube cuidar do seu patrimônio histórico. Passou longos períodos de abandono, mas renasceu há duas décadas, quando abrigou a instituição de memória. 
Porém, são 20 anos sem manutenção devida, o que pretende ser corrigido com o acordo atual. Para as obras serem executadas é preciso autorização do Iphan. “Autorizada o desenvolvimento do anteprojeto de Restauro do Solar do Engenho do Colégio. Agora, o Iphan aguarda o interessado encaminhar o anteprojeto completo e os projetos executivos", disse o órgão em consulta recente. 
Feijoada da Folha
Na tradicional feijoada da Folha da Manhã, neste domingo (7), André Ceciliano, então presidente da Alerj na assinatura do acordo, Rafaela Machado, coordenadora do Arquivo e Edvar Jr., presidente da CDL, tiveram um encontro, e as obras no Solar do Colégio foi o assunto principal.  
O que diz a Uenf
Embora haja sinalização do Iphan para aprovação das obras, e autorização já concedida para intervenções emergenciais — principalmente no telhado, sua área mais sensível —, a Universidade alega a necessidade de realização de processo licitatório para o seu início. 
Desde a assinatura do acordo, em maio, a Uenf não deu andamento significativo na licitação. De acordo com representante da Universidade, faltariam documentos a serem enviados pela prefeitura, para que fosse atendidos aos preceitos da Lei de Licitações. 
No último dia 05 de julho, a prefeitura encaminhou os documentos, conforme demonstra documento protocolado pela Reitoria. Segundo fonte da prefeitura, não haveriam outros procedimentos para o início do processo licitatório, o que dependeria exclusivamente da Uenf. 
O Blog Opiniões, de Aluysio Abreu Barbora, publicou (leia aqui) o acordo em outubro de 2021, onde a Uenf já teria ciência de sua responsabilidade com a assinatura do acordo. 
O fato é que o risco de incêndio, vazamentos, e deterioração do acervo por climatização inadequada, continuam presentes no Solar do Colégio. A instituição que guarda elementos essenciais para compreender a história de toda região — e do Brasil —, segue possuindo recursos para a salvaguarda correta, mas não recebe intervenções por inércia de quem ficou responsável pela aplicação. 
A Uenf persiste em manter-se alheia ao senso de urgência necessário na questão. E pode passar de uma postura responsável de aplicação de recursos, exigindo a licitação, para uma posição de demora injustificada. 
Os recursos parados podem ser uma dor de cabeça ainda maior à Universidade, caso continuem desse modo. Existem muitos motivos para exigir a aplicação correta, mas pela falta de ação e em caso de perda dos recursos, vão ser precisos 20 milhões de justificativas. 
Coordenadora do Arquivo, Rafaela Machado e o prefeito Wladimir Garotinho, em visita recente à instituição.
 
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Fecha aqui, por favor, preciso ir embora
07/08/2022 | 00h44
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Aqui na cidade é costume os bares começarem a encher lá pelas onze horas, onze e meia. Os amantes da noite de Campos gostam mais da madrugada, nunca entendi bem o porquê.
Há algum tempo, era mais jovem e solteiro, e as saídas eram mais frequentes. Praticamente todas as semanas; começava nas quintas. Numa dessas acabei percebendo que era mais notívago que diurnal, mesmo. Não somente para os bares e outros eventos, mas também em outras searas. Acho que para quem cultiva a necessidade — mais que o hábito — de escrever, as noites são melhores. Seja para o ato intelectual solitário, ou para convivência pessoal, sempre mais rica em mesa de bar.
Numa dessas quintas pedi a conta mais cedo, contrariando os conterrâneos goytacá.
— Fecha aqui, amigo, por favor — pedi a Assis, dono do Terapia´s Bar, que na época era ali perto do Liceu.
O Terapias era um ponto frequente para algumas cervejas, e às vezes uma língua bovina com batatas, feita por Dona Ângela, esposa de Assis. O bar era costumeiramente frequentado por gente do jornalismo e da intelectualidade campista. Wellington Cordeiro, Esdras Pereira, Orávio de Campos, Jorge Rocha, Vitor Menezes, Aluysio Abreu Barbosa, e tantos outros. Joca Muylaert era habitué.
— Foram três cervejas, um cigarro e uma dose de uísque — disse um taciturno Assis, que estava para pouca conversa, chateado com a derrota do Botafogo na noite anterior.
Peguei as chaves do carro que estava no balcão, conferi os bolsos, acenei para Dona Ângela e entreguei o uísque ao Joca, que havia me pedido, e estava sentado na mesa de esquina. “Carga rápida”, dizia ele sobre o bourbon. Ainda de pé o abracei, arqueando o corpo, e disse que precisava ir mais cedo.
O motivo da antecipação da volta para casa era o "Programa do Jô". O talk show que Jô Soares apresentava nas madrugadas da Rede Globo. Naqueles tempos não havia algum YouTube que permitisse ver o programa depois. Havia umas repetições, um canal de TV a cabo que passava programas antigos e a possiblidade de gravar o programa no videocassete. Mas parecia ser mais especial ver na exibição primeira do programa.
Nos dias que não saía era mais fácil e inevitável assistir Jô. Se no outro dia precisasse acordar mais cedo, era obrigado a perder o programa, mas não sem lastimar silenciosamente antes de dormir. Ainda não trabalhava, fazia apenas a Uenf, e podia me dar ao luxo de dormir tarde para ver um programa de televisão e ainda me achar notívago, igual ao apresentador.
Naquele dia a entrevista era com Ariano Suassuna. Imperdível. Suassuna, autor de "Auto da Compadecida" e "O Romance d'A Pedra do Reino", poeta, advogado e professor, era sempre uma aula. Ele e Jô Soares, uma magna.

Ainda na casa dos vinte e poucos, sem streaming e com pouca opção de qualidade nas produções televisivas, o Programa do Jô era um oásis para mim na TV aberta. Claro, havia o cinema e os livros, mas aquele gordo das madrugadas fazia parte da minha formação cultural. O Jazz e o Blues chegaram a mim, também, pela porta analógica que Jô abria nas madrugadas.
O Jô era — muito — além daquele programa. Poliglota, quase diplomata de carreira, ator, músico, produtor cultural, escritor e dono de uma opinião política coerente e corajosa. Um democrata, convicto, como todos que se prezem. O Jô falado era tão bom quanto o escrito, e isso não é tão fácil e corriqueiro para um intelectual. Era um privilégio poder acompanhar suas entrevistas.
A obra literária de Jô Soares chegou para mim aos poucos. "O Xangô de Baker Street", de 1995, que virou filme, e "O Homem que Matou Getúlio Vargas", de 1998. Todos mais tarde. Sim, inicia-se na juventude jovem, mas me acompanha depois.
Quando abandono definitivamente o esquema faculdade-cinema-bar-televisão, sentia saudades do gordo. Mas sabia que o conhecimento apreendido estava comigo. Assistir Jô na TV era uma espécie de credencial, nos tempos juvenis. Depois, uma forma de alicerçar outras formas de adquirir cultura.
Mesmo sem mais assisti-lo na TV, soube de um quadro novo do seu programa: “Meninas do Jô”. Ali ele recebia jornalistas para formar uma roda de conversa sobre o momento político do Brasil. Esse quadro assisti algumas vezes já com a facilidade de redes sociais, em horários possíveis dentro dos poucos momentos de liberdade que o capitalismo concede.
Sem qualquer incoerência, o 'Meninas' era tão profundo quanto descontraído, e trazia mulheres para o centro do debate político em um contexto que isso era absolutamente necessário. O quadro foi ao ar até 2016. “Para mim, em todos esses 28 anos, a coisa mais gratificante foi a criação do ‘Meninas do Jô’”, disse Jô Soares.
Não conheci Jô pessoalmente, não fui ao auditório do seu programa, não entreguei um livro em suas mãos para que ele o autografasse. Esses privilégios, não tive. Mas, nos bares notívagos de Campos — mesmo no Terapia´s que sempre fechou cedo —, pude tê-lo à mesa, pois internalizados estavam os aprendizados de cultura, refino literário, irreverência ácida, simplicidade sofisticada e a certeza que escrever e aprender são mais que hábitos. São, para alguns, condições essenciais para viver 84 anos, ou mais.
Gabriela Biló
"Não chore à beira do meu túmulo, eu não estou lá. Estou no soprar dos ventos, nas tempestades de verão e nos chuviscos suaves da primavera. Não chore à beira do meu túmulo, eu não estou lá. Estou no brilho das estrelas e no cantar alegre dos pássaros. Não chore à beira do meu túmulo, eu não estou lá, eu não morri". Mary Elizabeth Frye.
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"Ameaça comunista" em 37, 89 e ainda em 2022
03/08/2022 | 21h42

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A “ameaça comunista” em 37, 89 e ainda em 2022 - As mentiras repetidas, as ameaças fabricadas e as assustadoras semelhanças entre a primeira eleição direta depois da ditadura e as atuais eleições de 2022 para presidente da República. 

 
Em 1937, um grupo de militares brasileiros falsificou um documento oficial e criou pânico na população. Uma ameaça comunista iminente foi forjada no Estado-Maior, com a anuência do então presidente Vargas, que possibilitaria acuar o Congresso e implantar a ditadura do Estado Novo. Era o Plano Cohen. Uma fraude, descoberta anos depois.
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A sociedade brasileira acreditou, naqueles anos, que um grupo de comunistas iria derrubar o governo brasileiro, incendiar prédios públicos, promover saques, depredações e assassinato de autoridades. O mesmo medo foi a base para outra sangrenta ditadura se impor ao país, 27 anos depois. E que se perdurou por mais de duas décadas.

Em 1989, um governador desconhecido, do pequeno estado de Alagoas, seria a principal aposta dos brasileiros para derrotar a "ameaça comunista" que Brizola e Lula representariam. Fernando Collor de Mello, usando habilmente a televisão e com apoio de grandes grupos de mídia, ganhou visibilidade e saiu de apenas 9 pontos percentuais nas pesquisas de março, para 43 em junho, daquele ano eleitoral.
Lula tinha 16%, em março de 89. Em junho caiu para 8%. Durante toda eleição, inclusive no segundo turno, o medo de muitos brasileiros era que o metalúrgico mudaria a cor da bandeira brasileira para vermelho, que obrigaria as famílias de classe média e alta a dividir suas residências com famílias pobres que não tinham onde morar, que seria implantado o ateísmo e outras "ameaças comunistas" inventadas.
Mais uma vez a sociedade brasileira estava ameaçada por uma fraude. Panfletos nas ruas conclamavam “a população a pegar em armas, caso Lula perca as eleições” (Jornal O Estado de S. Paulo, 28/11/1989). Collor era cada vez mais vendido como um “caçador de marajás”, e um patriota, moralizador e incorruptível. Outra falcatrua, mas que o levou ao segundo turno.

Em 1989, a esquerda estava dividida entre Lula e Brizola, e o centro não encontrava um candidato viável. O deputado constituinte Ulysses Guimarães e o ex-presidente da Associação Comercial de São Paulo, Guilherme Afif, não chegavam a dois dígitos, somados. Contra a “ameaça comunista”, restava o direitista demagógico Collor — que não participou de nenhum debate no primeiro turno.
O segundo turno se confirmou. As pesquisas agora deixavam a eleição cristalina. Com apenas 7% de indecisos, Collor e Lula disputavam voto a voto. Em 15 de dezembro de 1989, o alagoano tinha 44,9% e o petista 44,4%.
Com a intensificação da campanha da "ameaça comunista", e outra mentira envolvendo Lula em um caso de aborto, somado ao fato de Collor ter sido treinado por Boni, da Rede Globo, no último debate (Mário Sérgio Conti, 1999), vem o resultado que todos conhecem: Collor vence as eleições de 1998 com 53,04% dos votos válidos contra 46,96% de Lula.
IstoE
Como um de seus primeiros atos como presidente, congela as contas poupanças de todos os brasileiros.
Qualquer semelhança de 1989 com 2022 não é mera coincidência. Além da polarização extremada, mentiras e ameaças comunistas fabricadas no imaginário de senhoras e senhores vestidos de verde e amarelo, tempos praticamente os mesmos personagens. Com uma diferença: Bolsonaro traz a novidade da extrema-direita no poder. Mas o contexto de 1989 parece não ter sido superado. Assustadoramente, existiu até um “Luciano Huck” naqueles anos 80: o apresentador Silvio Santos chegou a ser candidato, mas desistiu depois. 
Talvez não tenhamos superado as eleições de 1989 por ainda mantermos um percentual grande de brasileiros que confundem comunismo com outro tipo de ameaça. Alguns grupos sociais demonstram pavor com processos de transformação social e cultural e a ideia de que classes populares e os setores excluídos (negros, por exemplo) ascendam socialmente. O medo do comunismo é uma forma de expressar sentimentos de conservadorismo radical em relação a valores morais e religiosos.
Historicamente os comunistas defendiam a revolução para estabelecer igualdade social e questionavam os valores morais religiosos. Muitas vezes de forma violenta e ditatorial. Alguns regimes comunistas foram tirânicos e assassinos.
Mas, isso não significa — e nunca significou — que mudanças sociais e de comportamento tenham relação com o comunismo. Fica a máxima, essa nascida neste século, com o bolsonarismo: “O comunismo exerce o mesmo papel do ‘homem do saco’ pra adultos com capacidade cognitiva reduzida”.
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E o Olavo Cardoso?
27/07/2022 | 20h42
Museu Olavo Cardoso (MOC)
Museu Olavo Cardoso (MOC) / Reprodução
O melhor — e único — jeito de salvar um patrimônio histórico é lhe conferindo uso. E para isso, a sociedade deve ser ouvida, já que se trata de um bem de valor coletivo, e por isso muitas vezes protegido pelo tombamento.
Campos tem vários exemplos de patrimônios que estão em risco de ruína. Muitos deles já tratados por aqui, no blog e na Folha da Manhã. A casa que abriga o Museu Olavo Cardoso (MOC), localizada na avenida 7 de setembro e construída no final do século XIX, é um deles.
O MOC foi criado em 2006. O campista que batiza o museu-casa, foi um usineiro e filantropo. Olavo Cardoso conferiu uso ao patrimônio ainda em testamento. Pelo instrumento público, determinou que sua residência deveria ser destinada à conservação da memória e história de Campos dos Goytacazes, após a morte de seu último herdeiro. Assim nascia o Museu Olavo Cardoso. 
Trata-se de um equipamento cultural no centro da cidade. Significativo e que pode conferir acessibilidade a visitantes de vários bairros da cidade. Cultura e educação, andando em conjunto, que são deveres do poder público. Porém, o restauro do MOC pode vir da própria sociedade.
Campos possui três instituições de ensino superior que oferecem curso de Arquitetura. E um sem número de empresas de material de construção. Uma parceria entre esses atores e a prefeitura pode resultar em devolver o Museu Olavo Cardoso para a cidade. Acredito ser possível.
A casa, com 12 cômodos, face de rua, com um belo jardim no seu entorno, encontra-se em estado de abandono. Uma intervenção ali pode ser feita com a expertise dos profissionais docentes dos cursos, que podem orientar seus alunos, numa espécie de oficina. Em troca de visibilidade e outros retornos intangíveis, empresas podem fornecer os materiais necessários. A prefeitura, detentora do Museu, pode abrir edital para os interessados.
Olavo Cardoso foi um filantropo. Filantropia significa “amor à humanidade”. Seguindo seu exemplo, esforços podem ser empreendidos para que o MOC volte a existir, de fato. E volte a cumprir os objetivos em sua certidão de nascimento testamental.
*
O MOC está fechado desde 2014. Para completar, no final do ano passado, ele foi arrombado. Havia na casa-museu vários móveis e itens históricos, possivelmente levados pelos criminosos em um caminhão baú que teria parado na lateral da casa. O caso está sendo investigado pela 134ª Delegacia de Polícia Civil, que já tem informações sobre o furto, mas ainda não teve solução (aqui, aqui e aqui).
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Primeira-dama ganha o cinturão no Vale Tudo do Maracanãzinho
24/07/2022 | 22h12
REUTERS/Ricardo Moraes

O público presente no Maracanãzinho daquele 28 de agosto de 1995 estava confiante. Todos torciam pelo bicampeão Amaury Bitetti, que disputava mais uma vez o Desafio Internacional de Vale Tudo, e novamente estava na final. A vitória era certa, mas o que os apreciadores dos combates sangrentos viram foi um guarda municipal de 33 anos e lutador de capoeira, chamado Mestre Hulk, finalizar o favorito em 23 segundos.
Mestre Hulk depois de nocaute sobre Amaury Bitetti.
Mestre Hulk depois de nocaute sobre Amaury Bitetti. / Reprodução.
O público presente no Maracanãzinho desse 24 de julho de 2022 (veja matéria da Folha1, aqui) também estava confiante. E saiu de lá ainda mais, depois do discurso (veja íntegra em matéria do Poder360, aqui) da primeira-dama, Michelle Bolsonaro. Numa espécie de vale-tudo para a reeleição do marido Jair, ela afirmou: “ele é o escolhido de Deus!”.
Possivelmente, os bolsonaristas que idolatram o atual presidente foram ao estádio para ver um show do “mito”. Alguma ameaça golpista, algum palavrão ou ameaça a outro poder. Esperavam ver alguma reafirmação — contumaz e necessária para ele — de sua masculinidade. E viram. Mas, quem roubou a cena foi a “dona de casa que cuidava dos filhos para ele ter paz”.
Talvez pela certeza de que o Brasil sofre uma ameaça comunista ou talvez pelo fanatismo religioso,  o fato é que Michelle demonstra realmente crer que é casada com um messias. Um escolhido. Alguém com “um propósito de cura para nosso Brasil”.
— Deus tem promessas para o Brasil. E todas as promessas irão se cumprir. — Disse Michelle Bolsonaro, de vestido verde, enquanto colocava a bandeira do Brasil nos ombros, dada por um torcedor da plateia. “Eu oro na cadeira dele. Quando o Planalto se fecha, eu entro com os meus intercessores e eu oro na cadeira ele e declaro todos os dias: Jair Messias Bolsonaro, sê forte e corajoso. Não temas, não temas. Ele é um escolhido de Deus”, continuava a primeira-dama.
No seu vale-tudo eleitoral, ainda na arena do Maracanãzinho, Michelle continua o round: “A reeleição é por um propósito de libertação, para um propósito de cura para nosso Brasil”. E para criar empatia com o público presente, golpeia: "foi a preço de sangue”.
Para ganhar o cinturão da noite, e para suavizar a imagem de misógino do marido, recorre mais uma vez a Bíblia: “Essa luta não é contra homens e mulheres, é contra potestades e principados. A palavra do Senhor não vai voltar vazia”, finaliza.
Principados e potestades são referências a seres espirituais que podem ser bons ou maus, ou seja, podem se referir tanto a anjos de Deus como a demônios. A eterna luta do bem contra o mal. 
A Bolsonaro, o telecatch 
A um emocionado Bolsonaro coube o telecatch — um espetáculo pueril de luta circense, com bizarros movimentos acrobáticos e combates armados —, afinal, seria a modalidade que fica mais confortável:
“Nós somos a maioria, nós somos do bem, nós temos disposição para lutar pela nossa liberdade, pela nossa pátria. Convoco todos vocês agora para que todo mundo, no 7 de setembro, vá às ruas pela última. Estes poucos surdos de capa preta têm que entender o que é a voz do povo. Têm que entender que quem faz as leis é o poder Executivo e o poder Legislativo. Todos têm que jogar dentro das quatro linhas da Constituição”, disse o presidente performático, convocando para mais uma aventura golpista em setembro.
Em 1995, Royce Gracie já havia conquistado três das primeiras quatro edições do UFC (maior torneio de MMA do mundo, até hoje). Para derrubá-lo era preciso procurar um lutador à altura. Hulk, campeão no Maracanãzinho, sequer chegou a enfrenta-lo.
Em 2022, Bolsonaro conta com forte rejeição e o segundo lugar de todas as pesquisas eleitorais (veja no Blog Opiniões de Aluysio Abreu Barbosa, aqui). Para vencer em outubro, terá que lutar capoeira, jiu-jitsu e telecatch ao mesmo tempo. Ou terá que aceitar que, até no Vale Tudo, existem regras.
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Cemitérios públicos de Campos podem ser concedidos à iniciativa privada
22/07/2022 | 14h30
Rodolfo Lins - PMCG
Começa a vigorar nesta sexta-feira (22), a Lei Municipal nº 99/2022, que autoriza a municipalidade outorgar a concessão do serviço público funerário em Campos dos Goytacazes. Com a entrada da nova lei em vigor, os cemitérios públicos do município poderão ser administrados pela incitativa privada, mediante licitação. O ordenamento legal foi aprovado pela Câmara no final de junho, recebendo seis emendas modificativas dos vereadores de oposição.

O Cemitério do Caju, maior necrópole publica do interior do Rio de Janeiro, está entre os que poderão ser privatizados. Com mais de 19.000 sepulturas e um cemitério judaico em seu interior, o Caju é o cemitério que realiza o enterramento de indigentes e pessoas em situação de vulnerabilidade, que são pagos pela prefeitura. Campos possui outros 23 cemitérios.
Secom - PMCG


A Companhia de Desenvolvimento do Município de Campos (CODEMCA), criada em 1978, é a responsável pela administração dos cemitérios públicos de Campos. Com a concessão aprovada pela nova lei, alguns pontos precisarão de ser equacionados, como a situação dos cemitérios particulares das Irmandades — o Cemitério do Caju possui nove em seu interior —, do Cemitério Israelita instalado ali e questão dos enterramentos dos indigentes. Desde 2021, é cobrada pela CODEMCA uma taxa de R$ 147,90 pelas sepulturas perpétuas.

Como início para solução dos impasses, a emenda modificativa nº 001, de autoria dos 13 vereadores de oposição, incluiu a “gratuidade para sepultamentos de pessoas reconhecidamente pobres”. Os critérios, segunda a mesma emenda, serão definidos pela prefeitura e “previstas no contrato de concessão”.
O responsa?el pela CODEMCA, Afrânio Júnior, não retornou o contato até a publicação desta matéria, apesar de ter visualizado a mensagem via aplicativo WhatsApp.
Cemitério do Caju possui 167 anos

A nova lei traz em seu artigo primeiro a garantia do “caráter secular dos cemitérios”. O do Caju foi constituído em meados dos anos 1850, com escolhido onde antes era habitado pelos indígenas de Campos, na parte alta entre uma grande lagoa e o rio Paraíba do Sul. Naquele tempo, Campos estava assolada por uma epidemia de cólera, que matava cerca de 100 pessoas por dia. Antes do cemitério publico, os corpos eram enterrados nas igrejas da cidade, ou em seus adros (pátio externo descoberto, localizado em frente ou ao lado).

Também haviam enterramentos na antiga Santa Casa de Misericórdia, onde hoje é um edifício-garagem no centro, e no cemitério de Quimbira, onde hoje é a Faculdade de Medicina de Campos (FMC). A cólera, doença conhecida à época como o “mal do oriente”, deixou mais de 2.000 mortos na cidade, o que levou a construção de um cemitério público. O local escolhido era conhecido como “coroa” ou “fundão”, e depois ficou conhecido como Cemitério do Caju.

Em 1922, a pedido das famílias judaicas que migraram para Campos, é construído no interior do Cemitério do Caju um cemitério judaico. Para o local existe um projeto para construção de um memorial.

A historiadora campista Sylvia Paes, que estuda os cemitérios de Campos há alguns anos, e frequentemente é convocada para ser guia de visitação de estudantes e pesquisadores no Cemitério do Caju, comenta a nova lei:


— Toda vez que vejo o poder público, seja ele de que nível for, abrir mão de seu poder de gestão sobre algum equipamento, dois pensamentos me veem a mente. O primeiro é na incompetência dos gestores públicos e o segundo é na praticidade de se jogar um problema no colo da empresa privada. Contudo, tudo pode dar certo. A taxa da CODEMCA não possui ampla divulgação, devendo os proprietários estar cientes de que a falta de seu pagamento por cinco anos consecutivos significa abandono do túmulo, e a área reverte para o poder público que poderá vendê-la quando necessário, aferindo os lucros. A administração do Cemitério do Caju, assim como dos demais, não possui nada informatizado, seja número de sepulturas, seja o número de óbitos por tipo de doença, tão valiosa na avaliação da saúde pública. O levantamento minucioso de dados é de suma importância para pesquisadores e planejadores, trabalhar sem esses dados é praticamente impossível.

Sylvia Paes defende o uso turístico do Cemitério do Caju. Por mais que possa “parecer estranho para nossos padrões culturais”, alguns países utilizam o espaço para visitações turísticas e atividades culturais. “Tudo pode melhorar, afinal campos cemiteriais de modelo americano pelo mundo, ou seja, cemitérios-parque, com cinema, teatro e festas populares, são atividades que trazem receita para o empreendimento e consequentemente podem levar a melhorias e manutenção do espaço”, disse a historiadora.

Apesar de a concessão possibilitar novos usos, Sylvia se mostra preocupada com a questão dos enterros de indigentes:

— Nenhum cemitério particular assume enterramentos de indigentes. Mesmo que haja dentro da lei de concessão a garantia (concedida via emenda de vereadores), deve ser muito bem amarrada, uma vez que nenhum corpo deve ficar sem sepultura, é um direito garantido legalmente.



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Julho, um mês comum no verão francês
16/07/2022 | 13h18
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Era verão na França. Os parisienses estavam mais agitados que o normal, já fazia mais de um mês. Na manhã de 13 de julho, bem cedo, Élie já se arrumava. Participara ativamente dos movimentos da Assembleia Nacional, desde sua criação no dia 17 do mês anterior. Se orgulhava disso. Sentia que fazia parte de algo maior; e faria, de fato.
Élie era um francês comum dos “comuns”. “Gente do Terceiro Estado”, como chamavam alguns representantes da nobreza, com visível desprezo. Naqueles tempos finais do século XVIII, a França se dividia formalmente — para além das separações invisíveis provocadas pela desigualdade — em categorias.
Havia a nobreza e o clero; e o povo. Esse último mais numeroso, mais carregado de dor e bem mais revoltado àquela altura. E mais organizados, apesar de ainda peões — os que andam a pé desde que o mundo é mundo, por não ter dinheiro para compra um cavalo, ou os que valem menos no tabuleiro de xadrez da humanidade.
Povo chamado também de sans-culottes, “sem calção”. Nobreza e da burguesia usavam calções, classe trabalhadora, não.
Os que conseguiram se organizar foram chamados de “Terceiro Estado”. Élie era uma das lideranças de lá. Pequeno burguês, tinha um comércio perto da Praça Concorde. Ficou animado com a criação da Assembleia, que acabou com o voto por estamento e mudou significativamente o sistema político da França monarquista. Ficou estabelecido que o voto era das pessoas, não da categoria, que sempre impunha derrotas ao Terceiro Estado.
Clero e nobreza tentaram de tudo para que a camada popular não conseguisse o voto por cabeça, que representava 95% da população e ia causar sérios problemas aos nobres. Mas não houve acordo, a Assembleia estava formada. O reinado de Luís XVI já durava mais de 30 anos e crises econômicas se sucediam. Já quase não era possível compra o pão pelo seu preço, havia escassez generalizada de comida com graves problemas nas colheitas.
Para os burgueses, o que incomodava era o sistema excessivamente regressivo de impostos que Luís XVI implantara. Proporcionalmente, eles arcavam com altíssimos tributos em relação aos nobres. Os sacerdotes já não pagavam mesmo. Fome generalizada e burguesia perdendo dinheiro a cada dia, a terceira camada se autoproclamava agora "Assembleia Nacional", em junho de 1789.
“Finalmente! ”, disse Élie quando evoluíram ainda mais e passaram a ser uma “Assembleia Constituinte”, em 9 do mês seguinte. Queriam criar uma nova Constituição, para desespero do Rei. O Terceiro Estado era composto por gente comum como Élie. Ia de artesãos até médicos e advogados. Mas, apesar de comuns, decidiram se armar contra a tirania.
O dia escolhido foi 14 de julho. Dia encoberto e frio, apesar de ser verão. As ruas estavam em um silêncio incomum. Tudo parecia mais estranho. O silêncio foi interrompido por um grupo grande de homen, mulheres e até algumas crianças que percorriam a Rue de Grenelle em velocidade, com o corpo arqueado e com porretes e facões nas mãos. Alguns com armamento pesado para a época. As janelas se fechavam rapidamente com a passagem dos partidários do Terceiro Estado. Os que não lutariam, se protegiam. Todos do povo saibam o que ia acontecer naquele dia.
A tensão ficava maior a cada passo que o grupo dava a caminho do Palácio dos Inválidos — o Hôtel des Invalides. Já bem próximo, avistaram outros dois grupos que chegavam em uma ação orquestrada. Invadiram o Palácio com facilidade, mas esse era apenas o começo. Nos Inválidos eles conseguiram o que precisava para chegar ao alvo principal do dia: armas e munições. Lá estava uma espécie de paiol do exército francês. Depois da invasão, municiados e com canhões e mosquetes em punho, estariam prontos para seguir para a Bastilha.
A Bastilha era uma fortificação simbólica para eles. Uma enorme prisão que Luís XVI usava para aterrorizar seus opositores. Naquele dia tinham apenas sete detentos nas masmorras. Mas não era a soltura deles o objetivo ali. A Bastilha, além de todo simbolismo, escondia 250 barris de pólvora, que seriam cruciais para guerra que começava ali, entre os monarquistas e revolucionários.
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Os grupos que vinham dos Inválidos encontraram mais outros tantos e as armas eram compartilhadas entre eles. Ia ser uma batalha mais difícil que a tomada do hotel, minutos antes, mas não era para ser um banho de sangue como foi. O comandante da Bastilha era um homem que se orgulhava por sua coragem e condecorações militares. O marquês de Launay decidiu resistir e a Bastilha virou uma guerra, que custou uma centena de vidas — inclusive a dele.
Com a Bastilha tomada, Èlie e seus companheiros mais fiéis, Hullin e Maillard saltavam para ponte e ordenavam intrepidamente que o último protão fosse aberto; o inimigo obedecia. Os cidadãos queriam entrar, os sitiados se defendiam, e todos que se opunham a passagem eram decapitados¹.
A Revolução Francesa teve seu início naquele 14 de julho. Alguns dias depois, o principal jornal de Paris noticiava a tomada da Bastilha, inciando assim: "O sol nasceu às 4h08 daquela terça-feira, dia 14 de julho de 1789, e, apesar da luminosidade, a cidade anunciava um dia encoberto e frio naquele verão, no qual os termômetros marcavam 12 graus pouco antes do meio-dia²”.
Um ciclo de otimismo se instalava em toda França. As classes oprimidas finalmente eram ouvidas, uma revolução real era empreendida. Inspirados na Revolução Americana de alguns anos antes, e na declaração de independência dos Estados Unidos, aprovam a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, que garantiam a liberdade de expressão: todos podem falar, escrever e registrar livremente seus pensamentos.
Mas a Revolução Francesa se transformou em terror. Os valores de liberté, égalité e fraternité logo se transformaram num ciclo de violência e no Tribunal Revolucionário que instaurou o “Reino de Terror”. A guilhotina passou a ser a solução.
Um irlandês, que depois ficou conhecido como o criador da filosofia conservadora inglesa, via um movimento legítimo nos desdobramentos políticos que chegaram na criação da Assembleia Nacional Constituinte. Mas Edmund Burke percebeu que na verdade não ouve a transição da soberania para o povo. O Terror mancharia qualquer expectativa de uma transição de poder das mãos absolutistas para a vontade popular.
Gente comum como Élie, concordava com Edmund segundos antes da lâmina atingir o pescoço. Levantar-se contra a tirania não é, necessariamente, um ato revolucionário. Também é heroico mudar de opinião e usar o voto como arma. Sangue foi derramado antes para que isso seja possível, e para que não seja preciso ser derramado hoje. Mas não significa que se deve tolerar os intolerantes. Mesmo com a consciência que guilhotinas ainda são usadas por quem cultua a morte como ideal político.
Getty Imagens - BBC
¹A Revolução Francesa, 1789-1799, Por Michel Vovelle e Mariana Echalar.
²Journal de Paris, dia 16 de julho de 1789.
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Depois da família, empresa do ramo imobiliário nega compra do Solar dos Airizes
13/07/2022 | 22h42
João Pimentel - Campos dos Goytacazes em Fotos
A empresa ABMais Urbanismo, sediada em São Paulo, negou nesta quarta-feira (13) a compra do Solar dos Airizes, casarão histórico localizado na BR-356, que liga Campos a São João da Barra. Na segunda (11), a família Lamego, proprietária do Solar, também havia negado a suposta negociação.
O Solar, que ficou conhecido pela lenda da “Escrava Isaura”, tem ruína anunciada há alguns anos. Primeiro imóvel em Campos tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), o Solar dos Airizes é um importante elemento de educação patrimonial e representa alto valor afetivo para muitos campistas.
Em resposta a este espaço, a ABMais emitiu uma nota, onde esclarece que “possui um projeto para desenvolvimento de mais um empreendimento imobiliário na cidade” (a empresa lançou empreendimento residencial em 2021, em Campos), mas que “não engloba a área do Solar dos Airizes”.
Ainda em nota, a ABMais diz que o novo negócio é “próximo” ao Solar, mas descarta que o patrimônio esteja inserido. Ressalta ainda que é “uma empresa pautada pela seriedade, correção”, que respeita os “patrimônios materiais, imateriais, históricos e artísticos do país e da humanidade”.
Solar dos Airizes não pode ser comprado
Em junho de 2020, um processo da 3º Vara Federal de Campos transitou em julgado, quando não cabem mais recursos. Na decisão, a justiça determinou a prefeitura de Campos como responsável pelo restauro do Solar e que determinasse seu uso, assegurando o interesse público.
Qualquer negociação que envolva, hoje, o patrimônio histórico-cultural Solar dos Airizes, deve necessariamente envolver a prefeitura e o Iphan. Sem anuência e aprovação de ambos, não passa de especulação.
Apesar de não possuir reponsabilidade pelo restauro do bem atualmente, a família Lamego é a proprietária do Solar e das terras que o abriga. Sobre as negociações com a ABMais, também negou a informação: “Não procede. O Solar é totalmente da família, e a intenção é entregá-lo ao município para que seja usufruído por toda a sociedade”.
Sobre o desejo de entregar o Solar ao município e da negativa de venda para empresas do ramo imobiliário, o representante dos proprietários finaliza:
— O solar pela sua dimensão histórica e física, não caberia em um projeto privado.
Especulações nesse sentido, só servem para desviar o foco. O destino do Solar já foi definido pela justiça que aguarda o cumprimento pelo município.
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Patrimônio em disputa: Família Lamego nega venda do Airizes "desviar o foco"
11/07/2022 | 14h13
João Pimentel - Campos dos Goytacazes em Fotos

É preciso entender os motivos que levam uma construção histórica à evidência. Algumas vezes acontece por existir uma forte mobilização da sociedade pela sua preservação. Outras por ter, finalmente e fatalmente, caído — ou por especulação imobiliária.
No caso do Solar dos Airizes esses motivos se misturam, ainda com dois ingredientes importantes, a mais: um processo judicial transitado em julgado e tombamento federal (Iphan) desde 1940. 
O casarão que fica às margens da BR-356, a caminho de Atafona — conhecido pela lenda da “Escrava Isaura” —,  tem ruína anunciada há alguns anos. Em junho de 2020, processo da 3º Vara Federal de Campos transitou em julgado. Não cabem mais recursos. Na decisão, a justiça determina que a prefeitura de Campos passe a ser a responsável pelo restauro  do Solar e determine seu uso.
Além de alto valor histórico cultural, o Solar dos Airizes tem uma localização estratégica: próximo ao Porto do Açu e de uma ponte que ligará Campos, São João da Barra e São Francisco. Não precisa ser especialista para perceber que um investimento ali — imobiliário, comercial ou turístico-cultural — promete retorno alto.
Em 2014 a empresa Teixeira Holzmann Empreendimentos Imobiliários, do Paraná, queria apostar nessa promessa, e iniciou negociações com a família Lamego. Não prosperaram. A prefeitura ainda não era parte interessada, pois não havia a conclusão do processo.
Especulação atual
João Pimentel - Campos dos Goytacazes em Fotos
A especulação continua. A empresa ABMais Urbanismo foi ventilada como possível (nova) compradora do Solar dos Airizes e suas terras. O apresentador da Rede Globo, Luciano Huck, teria participação no empreendimento.
Porém, representante da família Lamego, proprietária do Solar e da propriedade que o abriga, nega a informação. “Não procede. O Solar é totalmente da família e a intenção é entregá-lo ao município, para que seja usufruído por toda a sociedade”, disse.
Sobre negociações passadas e futuras, explica que as negociações com a Teixeira Holzmann “não prosperou” e que seria “para uma área de fundo, bem distante do solar”.
Sobre a ABMais confirmou que houve procura para “informações”, mas que não “há compra alguma”. Terminou dizendo:
— O solar pela sua dimensão histórica e física, não caberia em um projeto privado.
Especulações nesse sentido, só servem para desviar o foco. O destino do Solar já foi definido pela justiça que aguarda o cumprimento pelo município.
Qualquer negociação que envolva hoje o Solar dos Airizes deve, necessariamente, envolver a prefeitura e o Iphan. Se não há conhecimento e aprovação de ambos, não passa de especulação. E se há interesse real, os atores devem ser transparentes. Será usado dinheiro público para favorecer investimento privado? 
Consultei o Iphan, em apuração feita no primeiro dia do mês de julho, anterior ao surgimento da especulação da ABMais:
O Iphan respondeu dizendo que desconhece o assunto, informou os processos que o Solar possui dentro do órgão, e em nenhum deles há pedido de autorização para venda. Em contato hoje (11) com a empresa ABMais, representante disse que retornará com informações sobre o caso. Até esta publicação não houve retorno. 
O Solar dos Airizes (badalado ou não) deve cumprir seu objetivo, descrito em seu tombamento e vocacionado por sua história: educação patrimonial. Se alguma empresa pretende se beneficiar de seu restauro, deve participar dele. Caso a promessa de ruína se cumpra, a justiça, prefeitura e o Iphan permitirão o fim de mais um patrimônio histórico em Campos. E continuaremos a especular e a lamentar, somente.
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Arquiteto que salvou o Airizes em 2003: "uma vergonha; 20 anos e nem um prego batido"
05/07/2022 | 12h56
Edmundo Siqueira


O risco de ruína do Solar dos Airizes, que ficou famoso como “casarão da escrava Isaura”, é tão antigo quanto a lenda. Nos últimos anos ele ficou evidente por qualquer um que passe pela BR-356, indo ou voltando de Atafona. Em 2003, o arquiteto Humberto Neto das Chagas foi o responsável pela obra que possibilitou que o Solar continue de pé, apesar do risco eminente.
Em 2003, com recursos do Fundo Nacional de Cultura, o IPHAN realizou no imóvel os seguintes serviços: desinfestação, escoramento emergencial da estrutura e recuperação do telhado. “Caso esta (obra) não tivesse sido realizada, afirmo, com toda certeza, que o prédio não estaria mais de pé”, disse Humberto, responsável técnico pela intervenção, a este espaço. Em postagem recente em sua rede social, o arquiteto afirma que passados quase 20 anos, “nem um prego foi batido”.
Três anos depois, em junho de 2016 foi realizada vistoria técnica no Solar dos Airizes e foi constatado pelo órgão federal que “o processo de degradação do imóvel é cada vez mais agravado pela falta de conservação”.
"Não acredito que o Solar dos Airizes possa resistir a mais três ou quatro destes eventos (chuvas e ventos fortes), infelizmente." (Humberto das Chagas)
Hoje, com decisão recente da 3º Vara Federal de Campos, com sentença transitada em julgado, o ente responsável pelo restauro do Solar é a prefeitura de Campos. A alegação de falta de recursos não pode ser utilizada como “desculpa”, pela própria determinação do judiciário.

Reprodução
Humberto comentou a decisão judicial e diz ser “imoral” a “eterna alegação de falta de recursos”:

— Entendo que agora, o imóvel está sob a responsabilidade do único ente regional que tem recursos para tal: a prefeitura de Campos. A eterna alegação da falta destes recursos, no meu entendimento é, no mínimo, imoral, vide a enormidade de ações desastrosas no que tange às obras em geral. Para não me alongar com o desprezo de edificações que são de propriedade municipal, sem qualquer preservação, digo que é uma vergonha. Se a prefeitura, no passado, não quis contribuir com pouco para a sua preservação, agora deve fazê-lo com o todo.
Sobre o tempo que ainda resta ao Solar, o arquiteto diz que "ele está prestes a uma perda mais significativa". A olhos vistos, é possível perceber que o prédio já perdeu parte de suas esquadrias e paredes, o que Humberto explica a causa, concorrente ao abandono: Ventos e chuvas fortes contribuem significativamente para este fato. A previsão dada por ele é ainda mais alarmante: "não acredito que o prédio possa resistir a mais três ou quatro destes eventos, infelizmente.
João Pimentel - Campos dos Goytacazes em Fotos
Atualmente, existe termo de cooperação da Sabra, uma empresa captadora de recursos de Minas Gerais, para restauro de patrimônios campistas. O Solar do Colégio, onde hoje funciona o Arquivo Municipal, e o Solar dos Airizes figuram como objetos centrais. Perguntado se houve alguma consulta ou convite de participação no projeto, Humberto confirma, mas ressalta que “as pessoas envolvidas neste processo gostariam que eu fizesse um trabalho voluntário”.
O restauro do Solar dos Airizes não pode mais ser chamado de emergencial, pois segundo a definição do dicionário, é algo “que não pode ser adiado”, e ele vem sendo postergado há mais de 20 anos. Cumprir a decisão judicial não é questão de escolha, é uma obrigação. Portanto, o abandono daquele patrimônio é omissão, que cabe responsabilização. Para que o Airizes não se torne apenas uma lenda, basta que obrigações sejam cumpridas, mesmo que tardias.
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Edmundo Siqueira

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