Hotel Flávio e o Centro Histórico: Anatomia de uma queda
18/02/2024 | 23h53
A Rua do Rosário, onde ficava o hotel, era, na verdade, um calçadão de pedras portuguesas. Havia um toldo na entrada que dava para a recepção, em formato de cilindro aberto, onde dois semicírculos ficavam dispostos lado a lado, sustentados por hastes de ferro pintadas de preto. Uma entrada clássica em um hotel histórico.


No calçadão, em frente ao hotel, um flamboyant dava sombra a alguns bancos, que rodeavam um pequeno canteiro. Entre a praça e o hotel, havia um corredor cultural, onde painéis em bronze mantinham uma exposição permanente e aberta sobre a escravidão, tão presente na história da cidade. As placas em bronze ficavam erguidas por pequenos muros brancos de alvenaria, com bordas marrons, um pouco mais largos que a arte, servindo de moldura. Vasos ornamentavam as laterais, e postes de iluminação de ferro fundido, estilo clássico, complementavam o local.
Todas as imagens deste artigo foram retiradas do grupo na rede social Facebook, "Recordando o passado de Campos dos Goytacazes", administrado por Cirley Serpa. As imagens foram postadas por colaboradores do espaço.
Todas as imagens deste artigo foram retiradas do grupo na rede social Facebook, "Recordando o passado de Campos dos Goytacazes", administrado por Cirley Serpa. As imagens foram postadas por colaboradores do espaço. / Reprodução


Ao redor do calçadão, além do hotel, havia um casario da mesma época, século XIX, alguns estabelecidos como comércio, outros como residências. Ao lado do hotel, um prédio um pouco mais baixo fazia companhia arquitetônica. De estilo colonial semelhante, ambos mantinham janelões na fachada, com estreitas sacadas de grades de ferro, servindo de parapeito. Com algumas diferenças: enquanto as janelas e portas do hotel eram retangulares, as do prédio vizinho tinham as extremidades superiores arredondadas, além dos detalhes da fachada que favoreciam a cor amarela no hotel, e azul real no vizinho.

O auge

Antes do corredor cultural, o hotel era a residência do Barão de Itaóca — João Pereira Bastos, advogado e último presidente da Câmara de Campos, ainda no Império. Os títulos de nobreza dos campistas estavam, invariavelmente, ligados à posse de terra e ao poder político. As questões hereditárias não eram consideradas nesses casos. A chamada “nobreza da terra” concedia status e destaque na sociedade, e era preciso construir casas imponentes para manter a aura de superioridade. Muitos solares foram construídos em Campos com esse intuito, e também era o caso do hotel.

À medida que Campos crescia, e a urbanização impunha suas vontades — e os “nobres” deixavam de existir com a República —, a lógica se inverteu, e o centro se popularizou. Embora ainda houvesse muitos excluídos, Campos se integrava. As grandes casas e solares ficaram custosas e inconvenientes para os proprietários. A casa do Barão se transformou em uma hospedaria, e foi chamada de Hotel Flávio.


Por sua localização central, e pelo protagonismo que Campos vinha tomando na região, o Hotel Flávio deu certo por um período. Além dos quartos, o hotel tinha restaurante e era utilizado para a realização de eventos. Importantes reuniões políticas foram ambientadas no hotel, e a vida social agitada do centro, com seus cafés, bancos, livrarias e comércios o tinham como referência.

O centro de Campos era o coração da cidade, onde pulsava não apenas o comércio, mas a vida econômica e social. Era ali que definiam-se preços de commodities, fechavam-se parcerias, marcavam-se eventos, tratava-se de assuntos citadinos e também da vida alheia. A tradição europeia de elegantes cafés foi abraçada por parte da sociedade campista, assim como Cine Teatros e livrarias tradicionais — perto do Hotel Flávio havia a emblemática Ao Livro Verde e o Teatro Trianon.

A queda


A decadência do Hotel Flávio foi diretamente proporcional à decadência do Centro. A Rua do Rosário, que abrigava o calçadão de pedras portuguesas, deu lugar a uma rua de asfalto, a Carlos de Lacerda. O charmoso prédio vizinho foi destruído, dando lugar a um estacionamento. Na esquina, uma construção estilo caixote contrasta. Os postes de iluminação de estilo clássico deram lugar a grandes, de cimento, sem vida. A fiação elétrica e de telefonia encobrem boa parte das charmosas sacadas estreitas dos janelões.

O corredor cultural foi completamente destruído, e outros tantos estacionamentos foram abertos no entorno, derrubando o patrimônio edificado. Sequer o flamboyant resistiu. Nas proximidades, os cafés sucumbiram, o Trianon se transformou em uma fria e burocrática agência bancária, a Ao Livro Verde deixou de ser a mais antiga livraria do Brasil ainda em funcionamento, fechando suas portas depois de 179 anos funcionando ininterruptamente.

A família tentou manter o hotel em funcionamento, mas o centro deixava de ser histórico a cada estacionamento aberto, e todo atrativo do entorno deixava de existir. A última reforma no Hotel Flávio aconteceu nos anos 1990. Em 2011, já anunciando sua queda derradeira, parte da estrutura apresentava risco de ruína. O Ministério Público notificou os proprietários, mas pouco foi feito. Em junho de 2018, todo o quarto andar do prédio ruiu.


Foi apenas em 2013 que o Conselho de Preservação do Patrimônio Histórico e Cultural de Campos dos Goytacazes (Coppam) decidiu tombar o Hotel Flávio. Embora sem efeito prático, a lei protegia a fachada do hotel, que não poderia sofrer alterações. Mas o abandono não respeitou a decisão do Coppam, até que no final de 2022 um incêndio de grandes proporções deixou o Hotel Flávio oco, restando apenas um grande retângulo de paredes com tijolos aparentes.

Antes do incêndio, em junho de 2018, uma reunião do Coppam, com o Hotel Flávio como pauta principal, enchia a sala onde o órgão estava sediado. Estiveram presentes os conselheiros, diversos jornalistas e espectadores da sociedade civil, inclusive o arquiteto representante da família proprietária do prédio. De forma sintomática, o representante do poder legislativo faltava. Falando em nome da família, o arquiteto disse que havia interesse em manter o hotel de pé, e que havia valor sentimental para eles.

Com o hotel necessitando de reformas estruturais, e o investimento não se justificando pela descaracterização do centro, a família toma uma atitude radical: doação total do hotel à prefeitura de Campos, sem qualquer ônus. Como tratava-se de um patrimônio histórico, de grandioso valor cultural, era plausível que a municipalidade abraçasse a doação e fizesse do Hotel Flávio um atrativo. Mas foi negado. A doação não foi aceita, e em 2019 o hotel foi posto à venda.

Depois de todos os sinais, reuniões infrutíferas e omissões do poder público, e depois de um incêndio consumir o restante que o descaso deixou, o simbólico Hotel Flávio foi demolido. Durante a segunda-feira de carnaval de 2023, retroescavadeiras avançaram sobre a fachada sem levar em consideração toda a história do hotel, e sem hesitar retirou mais um elemento do centro de Campos, o deixando ainda mais opaco, sem atrativo.

Há vagas

A julgar por casos semelhantes, o Hotel Flávio dará lugar a mais um estacionamento no melancólico centro de Campos. Embora ainda tenha algum movimento, justificando a oferta de vagas, as ruínas que se acumulam no centro poderão levá-lo ao total esvaziamento. Ironicamente, os apagamentos do patrimônio edificado poderá levar ao esquecimento do centro.
Em um centro sem razão de existir, onde os produtos comercializados em lojas físicas podem ser comprados virtualmente, em geral mais baratos, poderão sobrar vagas e faltar gente para estacionar os carros. Não há atrativo para quem valoriza a contemplação arquitetônica e a história, não há apelo comercial e não há motivo aparente para que moradores de outras localidades decidam frequentar o centro. Não há lazer, ou locais apropriados para descanso.

Mesmo a praça São Salvador, outro elemento histórico fundamental para a cidade, foi descaracterizada, onde um tapete de mármore simboliza perfeitamente a “modernização” imposta no centro. A queda do Hotel Flávio é apenas mais um exemplo, mais um patrimônio computado na conta da ignorância.

Qual será o próximo?
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O que a reeleição de Bukele em El Salvador diz sobre o futuro da democracia, nas Américas e no mundo?
17/02/2024 | 21h12
Megaprisão em El Salvador - líderes das principais gangues do país presos e encarceramento em massa.
Megaprisão em El Salvador - líderes das principais gangues do país presos e encarceramento em massa. / LISSETTE LEMUS/BBC
Chamado de “polegar da América Central”, o pequeno país banhado pelo Oceano Pacífico, El Salvador, faz fronteira com a Guatemala e Honduras. A nação salvadorenha se transformou em um caso emblemático desde a controversa reeleição do presidente Nayib Bukele, de 42 anos.

No último dia 5, Bukele se declarou vencedor das eleições em El Salvador (G1), antes da totalidade das urnas apuradas. O Tribunal Superior Eleitoral do país declarou que o partido de Bukele tinha 83% dos votos. Embora seja um político inegavelmente popular, a apuração foi obscura: o site do TSE ficou três horas fora do ar e a imprensa foi barrada da contagem preliminar.

Além dos problemas na eleição, Bukele precisou burlar a Constituição de El Salvador, que não permitia a reeleição. Para dar o verniz legal necessário, precisou cooptar o judiciário, afastando magistrados e nomeando outros. O segundo mandato de Bukele será em regime de partido único, com maioria absoluta no Congresso. No ano passado, o legislativo foi reduzido de 84 para 60 legisladores, e o número de municípios caiu de 262 para 44 .

Quem é Nayib Bukele?
Nayib Bukele, no concurso de Miss Universo, celebrado em El Salvador em novembro de 2023.
Nayib Bukele, no concurso de Miss Universo, celebrado em El Salvador em novembro de 2023. / Reuters

Para entender a ascensão de Bukele ao poder é preciso ir à sua origem. O presidente reeleito de El Salvador é um dos 10 filhos de Armando Bukele Kattán, descendente de uma família de imigrantes palestinos que chegou ao país no início do século 20. Kattán construiu um conglomerado empresarial bem sucedido, mesmo enfrentando preconceitos e leis que limitavam as atividades de cidadãos árabes, palestinos e turcos à época.

Um dos setores que Kattán atuava era a publicidade, onde justamente o filho Bukele se especializou. Quando venceu sua primeira eleição, em 2019, tinha 37 anos e foi apelidado de “presidente millennial” — imagem jovem que fazia questão de manter usando jaquetas descoladas e boné virado para trás.

Mas a principal plataforma de campanha para a reeleição de Bukele foi a segurança pública. El Salvador mantinha-se como um dos países mais violentos do mundo, em uma realidade dominada por gangues — Mara Salvatrucha, Barrio 18, Los Revolucionarios e Los Sureños.

Bukele planejou um regime de emergência para combater as gangues, que mantinham métodos de extrema violência. Classificando como terrorismo, Bukele construiu uma megaprisão de segurança máxima chamada de Cecot — Centro de Confinamento do Terrorismo.

As políticas implementadas pelo presidente deram resultado e lhe renderam enorme popularidade, mas também acusações de violações dos direitos humanos. Cerca de 70 mil pessoas — que representam 1% da população — foram detidas, e El Salvador ficou com a maior taxa de encarceramento do mundo.
Como efeito imediato, o país teve, no ano passado, o período mais seguro da história do país. Foram em média 0,4 homicídios por dia, contrastando com os dados de 2015, onde a taxa de homicídios chegou a 106,3 por 100 mil habitantes.

Democracia e Direitos Humanos X Segurança Pública
LISSETTE LEMUS/BBC

“A retórica de que há um conflito inerente entre avanços em segurança pública e a preservação da normalidade democrática e dos direitos humanos é uma estratégia política recorrente na história da humanidade, e uma marca dos períodos mais sombrios da história da América Latina”, disse Letícia Haertel, mestre em Direito pela Universidade de Munique e especialista em Direito Internacional.

Perguntada se o segundo mandato de Bukele seria fruto dessa estratégia, Haertel confirmou dizendo que “poucos episódios recentes o retratam de forma tão cristalina”.

Apesar das violações que o estado de exceção do governo Bukele implementou, o autoritarismo e os ataques à democracia, a aprovação do presidente segue em alta, principalmente pelos anos que a população salvadorenha viveu sob o regime paralelo violento das gangues.

Letícia Haertel
— Eleito sob uma plataforma de combate ao crime e à violência de gangues a todo custo, Bukele logo implementou uma agressiva estratégia de encarceramentos massivos e suspensão de garantias fundamentais que gerou impactos visíveis em um país que já foi considerado um dos mais perigosos do mundo. A diminuição visível da violência, aliada a uma comunicação pública marcada por distorções factuais, censura e perseguição de jornalistas e estigmatização de defensores de direitos humanos resultou na supressão de vozes que poderiam trazer à luz o fato de que segurança pública, paz, democracia e direitos humanos são conceitos que andam lado a lado. Assim, era previsível que cidadãos que cresceram sob o terror da violência de gangues buscassem preservar o que aparenta ser um verdadeiro milagre em suas vidas — complementou Letícia Haertel.


Segundo Mandato

Embora não tenha um plano de governo de acesso público, Bukele promete reforçar ainda mais a política de segurança, e atrair turistas para El Salvador.

Caso a segurança pública siga controlada, e a área encontre formas sustentáveis, o maior desafio de Nayib Bukele será a economia. A estratégia econômica do primeiro mandato se concentrou nos grandes eventos, como o concurso de Miss Universo e os Jogos Centro-Americanos e do Caribe, que foram  sediados no país.

Presidente de El Salvador, Nayib Bukele, acena a apoiadores ao lado de sua esposa, Gabriela Rodriguez.
Presidente de El Salvador, Nayib Bukele, acena a apoiadores ao lado de sua esposa, Gabriela Rodriguez. / Reprodução
As ações concretas e o marketing publicitário deram a Bukele o título de “presidente mais popular da América Latina”, porém o estado de exceção e as controvérsias eleitorais estão a ponto de consolidar El Salvador como uma ditadura. O jornal salvadorenho “El Faro”, disse em editorial (G1) que “os próximos cinco anos apenas prometem intensificar a concentração de poder, a utilização de bens e pessoal do Estado, a opacidade, a repressão e a punição”.


A especialista em Direito Internacional vê com preocupação o futuro da democracia em El Salvador:

— Para além do previsto aumento do desmantelamento de instituições democráticas e garantias fundamentais em seu segundo mandato, a reeleição de Bukele é extremamente preocupante ao colocar sob altíssima suspeita o processo democrático em si no país. Trata-se da primeira eleição conduzida sob regime de exceção no país desde o fim da guerra civil em 1992, e foi precedida de uma desarticulação do judiciário, uma diminuição dos assentos na assembleia legislativa (o que aumenta a dificuldade de eleição de partidos menores), mudanças na lei eleitoral, dentre outras medidas que virtualmente eliminaram a possibilidade de concorrência real. Assim, é especialmente irônica a descrição de Bukele de que sua reeleição por mais de 85% dos votos é um “record em toda a história democrática do planeta”.
 
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Novela, Carnaval, religião e um gole de cachaça
15/02/2024 | 18h59
Existe um tipo de brasileiro que torce o nariz quando ouve falar em Carnaval e novela. Faz cara de nojo, e com isso se sente superior. Quer se diferenciar do folião noveleiro, que sai no bloco de rua numa visível felicidade catártica, que ele se recusa a sentir para não se igualar.

É preciso fazer uma diferenciação aqui: não é todo brasileiro que não gosta de Carnaval e novela que tem essa soberba infundada. Há os que não gostam mesmo, e ponto. Questão de gosto, de escolhas de vida. Mas esses não se confundem com o tipo preconceituoso da cara de nojo. São distintos.

A questão é que Carnaval e novela fazem parte da construção do Brasil, principalmente depois da redemocratização, do país que a Nova República (re) fundou com a Constituição Cidadã de 1988. Existe um caldo, um magma que forma a identidade do brasileiro, aquilo que faz que nos identifiquemos como semelhantes, parte de uma nação. Como quando se ouve o verso “quando olhei a terra ardendo…”, da música “Asa Branca”, de Luiz Gonzaga. É difícil um brasileiro que não saiba continuá-lo.

Esse magma, assim como todos, se constitui de uma fusão de sólidos, líquidos e materiais rochosos, que se fundem para formar algo com identificação; específico. Mesmo que não seja homogêneo, algo que não é mesmo a função do magma, mas sim a ideia de fundir-se em uma heterogeneidade que se identifica em alguns fatores.

A formação desse elemento da natureza se dá pela temperatura, pressão e composição. Nas relações humanas acontece o mesmo: forma-se um grupo, uma sociedade ou uma nação a partir de um equilíbrio entre esses três fatores — que nem sempre acontece de forma harmoniosa — seja na natureza ou entre humanos.

Carnaval e Religião

Mesmo o brasileiro soberbo que quer se diferenciar está sujeito aos contornos que esse “magma” cria. Um dos exemplos é a religião, e o Brasil é um país religioso, inegavelmente. Religiões predominantemente cristãs que convivem desde que os povos originários foram expulsos dessas terras, com sua cultura suprimida por um misto de catolicismo europeu e religiões de matriz africana. Em um Brasil diverso e imenso, outras tantas manifestações religiosas se apresentaram depois disso.

Sequer o Carnaval foge dessa fusão. A festa popular acontece 47 dias antes da Páscoa, que por sua vez é definida pelo equinócio vernal e pela lua cheia depois dele. Como são ciclos, Carnaval e Páscoa podem acontecer em dias diferentes a depender do ano. Esses cálculos foram definidos no “Concílio de Niceia”, no ano de 325, primeiro evento promovido pela Igreja para discutir a fé cristã.

As manifestações desse Brasil profundo ficam mais visíveis no Carnaval, na medida que ficam mais abrangentes. Quando todo o país respira Carnaval, seja por gosto ou por imposição da maioria, a essência de um Brasil alegre e criativo, se misturam com as dores e as cicatrizes de um país violento e desigual.


Mas no Carnaval o Brasil mostra, principalmente nas capitais, a aceitação da mistura, da cultura miscigenada, das cores diversas, seja em religião ou ideologias. É quando o candomblé e a música negra são apresentados em avenidas com orgulho, e os tambores e fantasias coloridas fazem um balé clássico de contornos brasileiros.

Novela e cidades

Não se trata de buscar romantizar as lutas contra o racismo, ou minimizar uma das maiores desigualdades do mundo. A ideia de que tudo “acaba em festa” que o Carnaval pode trazer, tem significado muito mais relacionado a uma catarse coletiva. O próprio exagero dos dias de festa demonstram o caráter libertador de situações opressoras.

Situações que são tão visíveis nas cidades brasileiras quanto a alegria exagerada do Carnaval. A urbanização brasileira, como foi feita historicamente e como se consolidou, é a causa de muitos dos problemas que o país enfrenta. Segurança, saúde, educação e transporte são os principais.

A novela, outro traço cultural que o Brasil cultiva, costuma se popularizar quando traz em seu enredo as ramificações da vida na cidade, ou as dicotomias entre o campo e a urbanização.

Assim como o cinema teve papel preponderante na sociedade americana, a novela se transformou em um espelho, uma dramatização de apelo emocional e representativa. Os tipos retratados na teledramaturgia serviram como forma de entendimento da realidade social no Brasil, assim como os alívios cômicos foram usados como 'anestesiamento'.

Gole de cachaça

A brasilidade foi interrompida pela história conturbada do país, algumas vezes. Sucessivos golpes de Estado, ditaduras, uma democracia de pouca participação cidadã e a manutenção de um problema crônico na segurança pública.
Cena do filme "Ópera do Malandro", adaptação de Ruy Guerra da peça homônima de Chico Buarque de Hollanda
Cena do filme "Ópera do Malandro", adaptação de Ruy Guerra da peça homônima de Chico Buarque de Hollanda / Reprodução
O samba do Carnaval e a Bossa Nova nascida na burguesia boêmia carioca são exemplos emblemáticos da formação de uma nação desigual, mas que se identifica por elementos comuns das vivências coletivas — como o carnaval, a religião e as projeções na teledramaturgia.

Não há como fugir desses elementos sendo brasileiro. Mesmo o pedante preconceituoso está sujeito às consequências — boas e ruins — dessas culturas miscigenadas. Os brasileiros típicos, os excluídos, os abastados, os sulistas e nordestinos, o carioca, o paulista, e tantos outros são estereótipos de uma mesma construção social.
O malandro, cantado em verso e prosa, retratado nas novelas e no cinema, talvez seja o mais simbólico desses estereótipos, e traz consigo toda sorte de elementos artísticos, e provoca todo tipo de preconceito. Em um país onde por muito tempo o trabalho era “coisa de escravo”, e as relações trabalhistas ainda suscitam muitas questões não resolvidas no imaginário coletivo, o malandro é ao mesmo tempo subversivo e subserviente ao status quo.

Na ambientação do malandro, os botecos e a cachaça são também personagens desse drama social, onde a marginalização é cultural e impositiva. A cachaça, um produto brasileiro de exportação, oriundo da cana-de-açúcar cultivada por aqui há mais de quatro séculos, concentra muitos simbolismos, que dialogam fortemente com o Carnaval, as novelas e as religiões.

Para qualquer brasileiro, quer ele queira ou não (mesmo com cara de nojo), a imposição do convívio com os elementos que a cultura nacional introjetou é evidente. O Carnaval paralisa o país, e muitos dizem que apenas depois da folia começa verdadeiramente o ano.

Em um Brasil que “a gente vai levando de teimoso e de pirraça”, é preciso sempre “segurar o rojão”, seja qual for a classe social. Porém, para a maioria resta somente “a cachaça de graça que tem que engolir”. Entre arte, cultura, desigualdades e preconceitos, o Carnaval tem sempre seu fim, mas também seus recomeços.
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A eterna quarta-feira de cinzas do patrimônio campista
14/02/2024 | 02h10
Estamos perdendo. As cinzas que se acumulam estão aí para provar. Para quem se preocupa com a história e o patrimônio de Campos dos Goytacazes, a sensação de derrota é inevitável.


Talvez seja mais cômodo culparmos o poder público, ou a falta de conhecimento dos campistas sobre sua própria história. Mas certamente é mais honesto culparmos nós mesmos. Nós que nos iludimos, esperando que lamentos se transformem em ação, nós que acreditamos no dia em que tudo isso mude e a valorização do patrimônio edificado seja constante e ampla e se transforme em um ativo turístico e cultural para a cidade.

Mas a verdade é tão forte quanto as retroescavadeiras que derrubaram o Hotel Flávio na última segunda-feira, 12. E as que levaram ao chão a Casa da Árvore, no final de janeiro. Para ficar nos exemplos mais recentes.

Não há interesse em preservar em Campos; pelo contrário. Aceitar essa condição, por mais indigesto que seja, não significa desistir ou se resignar, mas sim entendê-la como um ponto de partida para que seja feito um diagnóstico, ampliando-se o conhecimento das causas desse descaso — da sociedade civil e do poder público.

Desde que Campos se constituiu como um núcleo urbano, ainda nos fins do século XVIII, a iniciativa privada era indutora da edificação e das intervenções na cidade. Solares e casarios foram construídos e se estabeleceram como residências e comércios. Formou-se uma urbanidade de inspiração europeia, e constitui-se a chamada “nobreza da terra”, que eram títulos concedidos pelo poder econômico.

O caso campista não foi diferente de outros centros urbanos no Brasil, onde a miscigenação cultural entre indígenas, negros africanos e europeus resultou em um complexo — e violento — jogo de poder (econômico e político) e de ocupação de territórios. A planície goytacá, repleta de cana-de-açúcar, abastecia o continente e o além-mar, e deixava por aqui um rastro de riqueza arquitetônica, cultural, literária, artística, comercial e política, mas também desigualdade, escravidão e preconceito.

Campos não nasceu como ela é hoje. Para que instituições e construções existam na atualidade, a história precisou acontecer. Quando uma entidade da classe comercial de Campos comemora a demolição do Hotel Flávio, não apenas ignora essa condição, mas age contra os interesses próprios, pois a ruína comemorada é antecessora da sua. Não há atrativo no Centro maior que sua própria história, suas próprias construções.


Tomemos como exemplo a antiga Santa Casa, no mesmo centro. É possível encontrar registros nos jornais onde campistas reclamavam de sua existência, dizendo ser uma 'velharia inútil', algo desprezível que precisaria ir ao chão, mesmo sendo um conjunto arquitetônico de simbolismo e beleza únicos. Ela foi demolida, mesmo tendo tombamento federal, em um caso raro de “destombamento”, e por anos o local se resumiu a um estacionamento. Hoje abriga um edifício garagem.

Estamos perdendo. Aos poucos, sob olhares acomodados e acusatórios, deixamos que demolições se acumulem e estacionamentos sejam abertos sob ruínas. A cada patrimônio que cai ou é dolosamente demolido, assistimos, quase impassíveis, aos aplausos de quem não entendeu nada. Estamos perdendo, e os culpados somos nós mesmos.

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As omeletes do Mercado Municipal
07/02/2024 | 21h42
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oig3.b4a2rgw.ctth.jpeg / [email protected]
Não é difícil entender: para se fazer uma omelete é preciso quebrar alguns ovos. O prato, popularizado pela culinária francesa, precisa de claras e gemas para se concretizar, e para isso algumas cascas precisam ser rompidas. No caso do Mercado Municipal de Campos, alguns querem manter os ovos intactos nas gôndolas, e sem nenhuma omelete feita.


Por ocasião dos 100 anos do Mercado — o prédio principal foi construído em 1918 e inaugurado ao público em 15 de setembro de 1921 —, entrevistei o feirante mais antigo, ‘Seu’ Ananias. Ele me disse, enquanto arrumava as mercadorias em sua banca de alvenaria, que a construção principal de duas alas longitudinais com uma torre no entroncamento, “era lindo”: — “rapaz, o relógio badalava, era a coisa mais linda do mundo”, continuou.

Foi o próprio Ananias que me informou sobre as principais intervenções no entorno do Mercado Municipal. Lembrou das melhorias feitas por Zezé Barbosa (ex-prefeito de Campos, de 1983 a 1988), da cobertura metálica feita por Raul Linhares (1977 a 1982), e das bancas de alvenaria construídas por Garotinho (1989 a 1992).

Mercado espremido

O que hoje é chamado de “mercado municipal” é um complexo de comércio popular, composto por um camelódromo, feira de legumes, verduras e peixes, e ou botecos, pastelarias, açougues e tantos outros produtos vendidos no interior e nas lojas de face do prédio centenário.

O que pode ser uma riqueza em sentido histórico e social, um lugar que há mais de 100 anos construiu vivências e saberes, também pode representar afastamento. Como está, o Mercado não atrai novas clientelas, não funciona como ponto turístico (como são muitos mercados públicos Brasil afora) e não atende como deveria os permissionários e feirantes.

“Olha, para você ver, isso aqui era ponto turístico. Os ônibus vinham de fora, paravam todo domingo de manhã aqui, ficava aquela fila. Hoje acabou tudo, está abandonado. Esse telhado ajuda, mas ‘tapou’ o Mercado, assim como o camelô lá do outro lado”, lembrou o feirante Ananias.

A cobertura metálica colocada no governo Raul Linhares era para ser temporária. Já se foram mais quatro décadas.

Deixar como está?

Seu Ananias - considerado o mais antigo do Mercado.
Seu Ananias - considerado o mais antigo do Mercado. / Foto: Edmundo Siqueira
Não se trata de modernizar, limpar, civilizar ou gourmetizar a feira — ou o Mercado. As mudanças que precisam acontecer no local possuem motivações que ultrapassam questões estéticas ou higienistas.


O local que está o Mercado hoje não foi escolhido gratuitamente. Era necessário ter proximidade com o rio Paraíba e com o Canal Campos Macaé. As mercadorias eram deixadas por canoas que vinham do Canal, ou por carroças de burro por terra, os chamados “cargueiros”.
Algumas vinham da região onde hoje é o bairro Carvão. O Mercado também precisava manter diversos animais vivos no local, que seriam comercializados ali mesmo. Oonde hoje é um ponto de transporte público era chamado de ‘Curral das Éguas’.

Com a urbanização da cidade, acelerada durante os últimos 100 anos, todo o entorno do Mercado mudou — radicalmente. A centralidade do Mercado deixou de ser uma necessidade e um ganho, e passou a ser um problema. Principalmente aos feirantes, que precisam conviver com todas as mazelas de um centro urbano movimentado.

A praça da República

No último dia 30, a prefeitura de Campos abriu licitação para a construção do que está sendo chamado de “Novo Complexo Comercial dos Feirantes”, ou “Novo Feira de Campos”. Trata-se de um prédio novo, com traços modernos, onde seria abrigado, além de novos boxes para feirantes, pontos para restaurantes, produtos artesanais, e outros itens. Está previsto também um — necessário — Banco de Alimentos.

A ideia de Almy Júnior, secretário de Agricultura e proponente do projeto, é construir o complexo antes de convidar os feirantes para se mudarem do local atual. E seria removida, por consequência, a estrutura metálica da frente do prédio do mercado, formando um boulevard, deixando o prédio visível.
Fachada apresentada no projeto da prefeitura para a Nova Feira do Mercado
Fachada apresentada no projeto da prefeitura para a Nova Feira do Mercado / PMCG/Almy Júnior
O local escolhido para abrigar a nova construção foi a Praça da República, anteriormente chamada de Praça do Imperador, localizada nos fundos da rodoviária do centro, que está sem uso, e a pouco mais de 200 metros da feira atual. Pretende-se ainda fechar uma das ruas entre as estruturas para formar mais uma opção de comércio popular.

Árvores, Coppam e a omelete

A ideia levantou questionamentos. O primeiro deles em relação às árvores que a praça da República abriga atualmente. Campos é uma cidade carente de áreas verdes, e o corte das árvores para abrigar a nova feira aumentaria essa defasagem (embora a praça não seja um parque urbano, apenas uma praça).

Além disso, levantou-se a possibilidade da praça ser progrida por lei contra modificações — tombada — pelo Coppam, órgão consultivo responsável pelos processos de tombamento em âmbito municipal. Porém, segundo fonte, o que existe é a previsão legal que determina que toda aquela região seja protegida, não sendo permitido livres modificações.

Ou seja, não há tombamento, mas é preciso que a ideia de construir a Nova Feira na Praça da República seja discutida e autorizada por órgãos competentes, como o Coppam e a Secretaria de Obras.

É democrático e necessário que qualquer iniciativa do poder público seja questionada, principalmente as estruturais como a que envolve a mudança de um Mercado Municipal centenário. Assim como é possível propor novas ideias, ou sugerir alterações no projeto, tanto estéticas quanto de formatação.

Porém, é preciso lembrar que não se faz omelete sem que os ovos sejam quebrados.  E compensações podem ser feitas, com o plantio de tantas outras árvores. E é preciso pesar, mesmo em balanças antigas, daquelas com dois pratos de ferro equilibrados, típicas do Mercado, os prós e contras.

Caso a iniciativa se retraia e com ela o próprio poder executivo, a consequência será tudo ficar como está. A torre de inspiração francesa — assim como a omelete — do Mercado continuará escondida até sua inevitável ruína, e depois suas cinzas farão um peso invencível em um dos pratos da balança.
 
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A polarização afetiva e as armadilhas coletivas
28/01/2024 | 12h58
Imagem gerada por IA - Edmundo Siqueira

Não seria impossível — talvez tenha existido de fato — ver um vendedor de rua em qualquer capital brasileira expondo suas camisas de time de futebol em um varal, e entre elas estivessem camisas da Palestina e de Israel. O Brasil atravessa um tempo de polarização extremada e de pensamento binário, que mesmo sobre qual lado você está em conflitos no Oriente Médio são determinantes para formar identidades.

Vivemos, por vários motivos, o que está sendo chamado de “polarização afetiva”, que é quando as discussões e ideologias deixam de ser políticas e passam a ser formadoras de identidade e de pertencimento de grupos sociais. Em outras palavras: a depender da opinião sobre um tema, alguém pode ser aceito ou expulso de uma tribo, de um grupo de pessoas que radicalizaram suas posições.

Relacionar identidade e pertencimento com posições políticas, transformam o jogo democrático em algo tribalizado, essencialmente emotivo e afetivo, portanto. Podemos culpar as redes sociais, mas determinar qual raça ou tribo alguém pertence sempre foi um instrumento poderoso para o ódio, esse significativamente mais antigo que as redes.

A grande contribuição que o mundo virtual trouxe para esse jogo antipolítico foi a gamificação. Uma armadilha que traz ao manipulado uma sensação de prazer e satisfação quando oferece recompensas imediatas por cumprir determinada tarefa ou agir de determinado jeito. Os “likes” e “cliques” se multiplicam por posições radicais, ou por conteúdos que geram discórdia.

Os algoritmos não estão interessados em posições moderadas, principalmente políticas. Mas, de novo, não podemos culpar os instrumentos. O algoritmo responde aos estímulos dados pelas pessoas, que mesmo manipuladas, refletem suas próprias posições extremadas.
Sacadas de apartamentos em São Paulo exibindo bandeiras de Israel e da Palestina.
Sacadas de apartamentos em São Paulo exibindo bandeiras de Israel e da Palestina. / Folhapress - Folha de S. Paulo
Essas armadilhas modernas são eficazes e massificadas. Instrumentos virtuais que utilizam-se de sensações e instintos humanos, esses universais. Portanto, mesmo que tenhamos consciência desses fatores, não é humanamente possível nos colocarmos alheios a esses estímulos, e possivelmente nos reconhecemos caindo em algumas dessas armadilhas.


Voltemos ao caso das camisas de time misturadas às predileções na guerra do Oriente Médio: embora seja um conflito importante, de contornos milenares e envolto em questões religiosas, assumir uma posição neutra ou mediadora não é aceitável nesse jogo antipolítico. Defender a solução de dois estados — Israel e Palestina — não é uma posição que gera “engajamento”. É preciso que você defina de que lado está, mesmo em uma situação de alta complexidade.

Além de permitir que mais e mais pessoas se engajem, estimular posições binárias permite que as soluções sejam de fácil entendimento. Ora, basta eliminar Israel para que o povo palestino deixe de sofrer com o genocídio. Ou, fortaleça o domínio de Israel na região e terá a paz.
Muro com inscrições em hebraico, português e inglês, onde se lê "paz", em Higienópolis, bairro nobre de São Paulo.
Muro com inscrições em hebraico, português e inglês, onde se lê "paz", em Higienópolis, bairro nobre de São Paulo. / Folhapress - Folha de S. Paulo

O maniqueísmo proposital estimulado pelas redes simplifica decisões complexas, a ponto de pessoas determinarem que um semelhante está do lado do bem ou do mal por suas posições políticas. Se alguém é a favor de dois estados no conflito Israel e Palestina, está do lado do mais forte, portanto configura-se como mal na visão de alguém pró-palestina. E vice-versa.

Política e conflito - Radicalizar os temas se tornou crucial para os políticos que buscam visibilidade e engajamento virtual, e é preciso que um conjunto de posições seja pré-estabelecido para que esse representante seja aceito. Temas como aborto, armas e vacinas se tornaram dogmas definidores nos últimos tempos, no Brasil. Não há meio termo, é preciso que um combo decisório seja apresentado pelo político. Ou se é contra, ou se é a favor.

Há pouco mais de 80 anos, o mundo assistia tropas alemãs marcharem pela Europa em nome de dominação ideológica, maniqueísmo, radicalismo e tribalismo. Há pouco mais de 135 anos o Brasil açoitava e comercializava pessoas por questões raciais. Fatos que, historicamente, foram "ontem".

Discursos de ódio podem ser ouvidos hoje em mesmo tom, assim como camisas e bandeiras tremulam em varais e varandas ideológicas, esperando que o próximo manipulado as comprem e as exponham como sua identidade. São armadilhas perigosas. E repetidas. 

Senhora alemã lendo propaganda nazista exposta em locais públicos.
Senhora alemã lendo propaganda nazista exposta em locais públicos. / Holocaust Encyclopedia



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Deixe a arma e pegue os cannoli
28/01/2024 | 10h48
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Era uma terça-feira, meados de fevereiro. A família se reunia em torno da decisão que iria permitir que continuassem no comando da casa. Era uma casa dividida, mas uma das famílias ainda tinha o comando total. Eram eles que confabulavam naquela tarde.

— Temos a maioria, chefe. Não há como perder — disse um dos líderes do baixo clero, Fredo.
— Pode ser, mas ainda temos que confirmar alguns pontos.
— Quais?
— Acho que é muito cedo para a votação. Preciso confirmar alguns pontos, já disse.

O chefe foi consultar Don Tommasino, um antigo capo que servia de consigliere — uma espécie de consultor.

“Há um traidor entre vocês”, Tommasino foi categórico. Embora o chefe confiasse na avaliação do experiente Don, preferiu arriscar. A consulta foi feita por telefone, e na sala estavam alguns associados, soldados e até capitães. Enquanto Tommasino falava, no viva-voz, e reafirmava a existência de um traidor, o chefe fazia sinal negativo aos seus subordinados, indicando que não aceitaria o conselho. A votação para o comando da casa iria acontecer naquele mesmo dia, no final da tarde.
imagem criada por IA
imagem criada por IA / [email protected]

Por volta das cinco e meia, a votação seria iniciada. Os membros da família controladora estavam confiantes, e já não lembravam da ligação que ouviram algumas horas antes. A outra família, os Barzini, pareciam tranquilos, e alguns até esboçaram alguns sorrisos sarcásticos.

Clemenza, um capitão que comandava o território da baixada, pediu a palavra e defendeu que o comando deveria ir para a família Barzini. Mesmo se dizendo independente, e ligado apenas ao território que comandava, Clemenza se aproximava cada vez mais da família Barzini. Após terminar sua fala, o capitão recostou-se na cadeira e abaixou a aba de seu característico chapéu, o que o fez cochilar.

Enquanto Clemenza dormia, a votação terminou. Todos ficaram ansiosos para saber o resultado, e definir quem iria ficar comandando a casa pelos próximos dois anos. Fredo iniciou a contagem dos votos e seu semblante rapidamente se transformou. A eleição estava perdida. Um membro da alta cúpula da família Barzini era o novo presidente eleito da Casa.

“Don Tommasino estava certo, aquele velho carcomido! Alguém me traiu!”, pensou Fredo enquanto todos brigavam, entre gritaria e empurrões.

Os dias que se seguiram depois da votação foram desesperadores para Fredo. O chefe cobrava uma solução definitiva, e que ele fizesse o que fosse preciso para continuar controlando a casa, e que descobrisse quem era o traidor. Uma das alternativas para anular a votação foi tentar comprovar que Clemenza não havia votado, mesmo ele tendo declarado seu voto. Não deu certo, todos sabiam que ele dormia durante a votação, mas era claro sua posição a favor da família Barzini naquele momento.

Sobre o traidor, Fredo logo descobriu:

— Foi o Moe Greene, chefe. Aquele salafrário jurou que votava em mim. Fizemos até uma oração, como eu podia imaginar, pelo amor de Deus!
— Subestimamos a sabedoria do velho Tommasino, Fredo. Pagaremos um preço alto, e agora vamos ter que aguentar as consequências.
— Será? Acho que não vamos ter problema, chefe!
— Teremos, e não vai ser agora. Os Barzini são rancorosos, e tem aquela agressividade que o capo deles sempre traz à tona.
— Então vamos ao Joey Zasa, o Barzini que está na capital. Ele pode reverter isso tudo, ele é o chefe agora! — Fredo estava ficando ainda mais desesperado.
— Deixe de bobagem, homem. Quem você acha que arquitetou tudo isso? — finalizou o chefe.

Quase dois anos depois, o chefe confirmava seu receio. A cidade, mesmo controlada por ele e sem demonstrar que perderá o controle nos próximos anos, quase ficou paralisada por ação dos Barzini. Também como previa o chefe, o capo da família rival o atacou de forma dura e agressiva. Até tapas na cara foram prometidos, aos berros, no chefe e em Don Tommasino.

Mas o chefe tinha aprendido a lição de 2022. Era preciso controlar as crises, e tentar fazer com que os interesses das famílias rivais não fossem mais importantes. Mesmo ele sendo de uma família que há anos controla territórios, com interesses bem definidos. Carismático e com aprovação de suas ações pela maioria da cidade, o chefe sabia que precisava manter os amigos próximos, mas os inimigos mais próximos ainda.

Durante a crise mais recente, e após os ataques que recebeu, o chefe foi novamente ao encontro de Don Tommasino, desta vez disposto a seguir seus conselhos. “Nunca odeie seu inimigo, isso afeta seu julgamento”, disse o velho Don. O chefe logo entendeu como uma orientação valiosa, e decidiu acatar. Mesmo sabendo que pessoalmente Tommasini não agia assim, na maioria das vezes.

O chefe fez uma autocrítica, e percebeu que havia quebrado um acordo feito com o capo dos Barzini. Mesmo relativamente novo, sabia do peso de uma palavra dada e descumprida. Se arrependeu, mas conseguiu reverter, dada a reação descabida do capo. “Ele pensa que ainda estamos no tempo dos Bórgias”, pensou o chefe.

Após algumas batalhas, e mesmo tendo ficado ferido, o chefe conseguiu sair fortalecido do mais novo embate com a família Barzini. Seu braço direito, e agora subchefe, Tom Hagen, mesmo sem ser um familiar, ajudou a apaziguar os ânimos e pacificar novamente as brigas entre as poderosas famílias.

A casa continuou sob o comando dos Barzini, mas o chefe conseguiu a maioria dos votos. Até o astuto Clemenza hoje é aliado de primeira hora dele. Fredo saiu da casa, e hoje está tocando as obras da cidade. Don Tommasino mantém-se apenas como consigliere, para a alegria do chefe. Moe Greene ficou desacreditado por todas as famílias, mas ainda é protegido pelos Barzini.

Depois de mais uma batalha finalizada, o chefe aparenta cansaço. E faz uma proposta irrecusável para Tom Hagen: “cuide da cidade por um tempo, para mim”.

Enquanto isso, Vincent Mancini, filho de outro antigo capo da cidade, esse já aposentado, confabula mais uma traição, sedento por um lugar à mesa. Perguntado sobre como ficaria o acordo que fez com o chefe, Mancini finaliza: "Não é nada pessoal. São apenas negócios”.




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Talvez não seja tarde: Solar dos Airizes perto do salvamento - saiba como
24/01/2024 | 21h50
Dos patrimônios que estão em risco em Campos, o Solar dos Airizes é um dos mais resistentes. Abandonado há décadas, o casarão construído no início do século XIX, de arquitetura típica do período colonial, resiste — não sem danos e não se sabe como — às intempéries do tempo e do descaso.

Sem passar despercebido por qualquer pessoa que passe pela BR 356 (Rodovia Campos – São João da Barra), o Solar desperta curiosidade; muitas lendas permeiam a construção, sendo a mais conhecida a da Escrava Isaura. Mas gera também desespero em quem se preocupa com a história de Campos.

Paredes caíram, parte da fachada e do interior já não existe, várias portas e janelas em estado precário e o forro de madeira desabou em vários cômodos do Solar, levando a um estado de ruína. A icônica capela que o Airizes abriga também está em estado de deterioração. Parte de uma das extremidades do prédio (em formato de “U” imperfeito) já foi ao chão.
Nas apostas sobre qual patrimônio de Campos será o próximo a deixar de existir, o Solar dos Airizes lidera. Muitos previam que não passaria de 2023. Porém, o resiliente Solar persiste de pé, e se encontra próximo de salvação — como nunca esteve.

28 milhões - Com aval do Governo Federal, via Lei Rouanet, e do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), um projeto que tem como objeto a manutenção e a conservação emergencial do Solar dos Airizes está apto a captar 100% do valor que foi proposto: R$ 28.410.937,55.
 
A Lei Rouanet permite captar recursos com empresas e pessoas físicas que estejam dispostas a patrocinar projetos culturais, incluindo o restauro de patrimônios históricos. Em contrapartida, o valor direcionado à cultura é abatido totalmente ou parcialmente do imposto de renda do patrocinador. Ou seja, os recursos que seriam pagos ao Estado por meio de impostos são direcionados para estimular a atividade cultural.
VERSALIC - Gov. Federal
No caso do Airizes, foi assinado, em julho do ano passado, um protocolo de intenções entre o município de Campos e a empresa Ferroport, que opera o terminal de exportação de minério de ferro no Porto do Açu. A Ferroport se comprometeu a aportar os recursos que pagaria de imposto no Solar, uma vez o projeto aprovado.


Os mais de 28 milhões de reais aprovados não precisam ser depositados de uma vez, e além da Ferroport, outras empresas podem participar. O projeto tem como proponente a Sociedade Artística Brasileira (Sabra) que também tem termo de cooperação técnica com a prefeitura.
Assinatura da parceria entre a prefeitura de Campos e a empresa Ferroport.
Assinatura da parceria entre a prefeitura de Campos e a empresa Ferroport. / PMCG
Escoramento e cobertura -
Em paralelo ao projeto via Lei de Incentivo, a prefeitura de Campos protocolou junto ao Iphan um pedido de autorização para realizar o escoramento das partes mais críticas do prédio, e a construção de uma cobertura temporária em toda construção, como forma de tentar conter a ação do tempo e das chuvas, enquanto as obras de restauro não se iniciam. 
Segundo fonte do Iphan, o projeto apresenta algumas pendências, mas com chances de aprovação.

A prefeitura é a responsável pelo Solar dos Airizes, após decisão do Tribunal Regional Federal (TRF-2), que transitou em julgado em 2020, e condenou o município de Campos a restaurar o Solar de forma emergencial. A ação foi proposta pelo Ministério Público Federal (MPF), e não cabem mais recursos.
Projeto da prefeitura
Projeto da prefeitura / Iphan
“A prefeitura vai fazer, emergencialmente, o escoramento total e a cobertura, para nos resguardar que não vai acontecer nada com o prédio. Mas para a obra de restauro, o dinheiro da Ferroport está garantido na parceria, já assinaram o termo de cooperação e já aprovaram no conselho”, disse o prefeito Wladimir Garotinho a este blog.


Wladimir disse ainda que o escoramento e a cobertura estão “prontos para serem feitos”, e que com a votação da LOA [hoje (24), veja aqui], “abre o orçamento e licita rápido”.
Procurada pelo blog, a empresa Ferroport não retornou os contatos. 

Família Lamego e condomínio na Fazenda dos Airizes - O Solar do Colégio e sua capela, e ainda todo seu entorno, são tombados pelo Iphan desde 1940, o que impede qualquer tipo de descaracterização. Porém, houve algumas tentativas de venda do Solar pelos herdeiros de Alberto Lamego e de sua esposa (filha do comendador Cláudio de Couto e Souza, construtor do prédio), e também de doação para a prefeitura de Campos.

Mas o espólio de Lamego não se limita ao Solar. A construção faz parte de uma grande fazenda, às margens da BR-356. Essas terras sempre foram alvo de especulações imobiliárias, e recentemente foi aventado que uma empresa de São Paulo seria a nova potencial compradora da propriedade.

Também a este blog, um dos herdeiros da família Lamego explica que a empresa paulista é a ABMais Incorporadora, que havia “fechado uma área para início de urbanização”, mas que não teria relação com o Solar dos Airizes, sendo “em uma área distante” do patrimônio.

O blog Ponto de Vista, de Christiano Abreu Barbosa, deu mais detalhes da transação:

“O trecho da BR-356 entre o final da Avenida Alberto Lamego e Martins Lage está se
transformando rapidamente num dos principais vetores de crescimento imobiliário de Campos. Com a expansão contínua do Porto do Açu, as terras às margens da rodovia - que acompanha o traçado do Rio Paraíba do Sul em direção à foz - se tornaram uma excelente opção para quem busca tranquilidade e, ao mesmo tempo, estar perto das comodidades e infra-estrutura da área urbana.

Em breve, os condomínios - Vale do Paraíba, Remanso do Paraíba e Palm Springs - já instalados naquele trecho terão um novo vizinho. A ABMais, incorporadora de São Paulo que e uma das maiores urbanizadoras do país, escolheu a região para o seu segundo empreendimento na cidade”.

O Solar e a Esperança - O Solar dos Airizes não traz apenas significado arquitetônico. O local foi residência de um dos maiores intelectuais e escritores campistas, Alberto Lamego, onde ele abrigou sua vasta pinacoteca, além de uma biblioteca repleta de obras raras trazidas da Europa e um extenso acervo documental.

O Airizes foi considerado a “meca da intelectualidade” do Brasil, que atraía diversos artistas, escritores e pensadores importantes do país, pelo acervo recolhido por Lamego. Uma dessas personalidades foi Mário de Andrade, um dos fundadores do modernismo. O local recebeu também o Imperador Dom Pedro II, em 1883.

Aos poucos, e percebendo (já naqueles tempos) o descaso de Campos com o patrimônio material e imaterial, Lamego vendeu a coleção de pinturas para o Museu Antônio Parreiras, em Niterói, onde se encontra até hoje, e o acervo para a USP, em São Paulo.

Foto; Edmundo Siqueira
Se salvo, o Solar deverá passar por um segundo restauro, onde será definido seu uso cultural, turístico e de educação patrimonial. Os recursos e as ações atuais servirão para impedir sua ruína e mantê-lo de pé, mas ainda há muito para ser feito, inclusive com a repatriação dos acervos. 


Prefeitura e Governo Federal, através da Lei de Incentivo, possuem o dever de preservar a história e incentivar a cultura, por obrigação constitucional e para fomentar um setor que empregava em 2020 quase 5 milhões de pessoas, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE.

Dos tempos de glória aos dias atuais, o Solar dos Airizes passou por várias intervenções, e um longo período de abandono. Representante de importante parte da história de Campos, a ruína total parecia uma realidade imutável. Mas, novos ares de esperança surgem, e caso se concretizem, a resistente construção pode ser um raro caso de salvamento patrimonial numa cidade que não compreende a importância de sua própria história.
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O furor das retroescavadeiras em mais uma derrota de uma guerra perdida em Campos
22/01/2024 | 21h54
Foto: Manuela Hentzy
Para quem acompanha a questão patrimonial de Campos, a queda de mais uma casa, prédio ou solar não é uma novidade. Sempre é doloroso, para os que valorizam a história e a cultura, mas não é exatamente uma surpresa; estão quase todos os patrimônios desmoronando a olhos nus.


Mas o descaso sempre me impressiona. Nos comentários de redes sociais em postagens que trazem imagens de patrimônios emblemáticos em escombros, invariavelmente se encontra quem comemore, ou se diga aliviado por uma “casa velha” ir ao chão. Mesmo que não tenha qualquer relação econômica com o imóvel. Isso é ainda um mistério a ser desvendado em uma cidade com tanta história como Campos.

Na madrugada desta segunda-feira (22), parte da fachada de um imóvel ruiu no cruzamento das ruas Marechal Deodoro e Saldanha Marinho, no centro da cidade. Não houve registro de feridos (Folha1). A casa abrigou por anos a antiga Empresa Municipal de Trânsito (Emut) e já havia sido sondada para sediar a Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima (FCJOL). Havia projeto pronto para o local. 

A questão ali não era um tombamento onde o poder público limita a propriedade de um particular, por ter em sua posse um imóvel de alto valor histórico — esse instrumento pode e deve ser discutido, e há saídas justas para quem tenha um imóvel tombado. A casa pertencia à prefeitura, e foi deixada à própria sorte, vista como um problema e não como um ativo.
Em maio de 2023, o imóvel chegou a ser cedido por 20 anos ao Lions Clube de Campos, após projeto de lei aprovado pela Câmara de Vereadores.

Sem política pública cultural e preservacionista - A casa que ruiu nesta segunda é apenas mais um exemplo do descaso do campista com sua própria história. No caso do poder público e das instituições de proteção ao patrimônio, mais um exemplo de omissão e de incompetência.
Ignora-se os tombamentos feitos por lei e quase comemora-se quando eles perdem a utilidade pela destruição do tempo, ou por ação de mãos inescrupulosas.

A casa era de responsabilidade da prefeitura, a cessão para o Lions foi apenas um detalhe na tragédia anunciada por anos. O imóvel vinha sendo objeto de solicitações de reforma e escoramento, a Folha publicou várias matérias que alertavam para o risco que a casa trazia aos pedestres e sobre a falta de cuidado com o patrimônio histórico.
Mas, nada foi feito.

Seja por especulação imobiliária (a casa é localizada em área nobre da cidade), seja por omissão ou por falta de ação e mobilização da sociedade civil, o que a queda da fachada e a rápida demolição mostram é que não há em Campos política pública preservacionista.
Cidades como Paraty e Petrópolis — para ficar em exemplos fluminenses —  têm parte significativa de seus orçamentos atrelados aos patrimônios históricos que possuem.

O furor das retroescavadeiras campistas aguarda apenas que o descaso permita sua rápida ação. Exemplos não faltam na história recente da cidade. De escombro a escombro, a alma do município vai se enterrando.
Vale lembrar: retroescavadeiras esperam ansiosamente que o descaso e a ignorância do campista com sua própria história derrubem o que sobrou do Solar dos Airizes. Para o alívio de muitos.
 
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Pós-pacificação e LOA: governo e oposição assumem seus lugares em Campos
21/01/2024 | 22h48
*Este espaço retorna das férias hoje. 
A democracia exige a existência da oposição. É condição fundamental. Ditaduras possuem governos, mas não permitem oposições. Em Campos dos Goytacazes — terra em que a Câmara dos Vereadores historicamente exerceu um papel essencial — atravessou um tempo onde a oposição ficou calada, período que foi chamado de “pacificação”.


Com data de validade curta, a pacificação terminou, e a não-votação da Lei Orçamentária Anual (LOA) acirrou os ânimos políticos na cidade. Por “acirrar os ânimos” deve-se entender discussões acaloradas, mas moralmente aceitas. Vídeos onde ofensas e xingamentos são proferidos não podem ser considerados políticos ou mesmo aceitos. É ação de quem parou no tempo e acredita que ainda vive na ditadura, na lei do mais forte (ou do mais ignorante); vivemos em tempos diferentes, graças à democracia.

Mas, excetuando-se os excessos (que beiram o criminoso) de ambos os principais grupos políticos de Campos, as discussões são bem vindas, assim como uma oposição ativa. Principalmente quando temos um governo bem avaliado. Gerir a coisa pública, manejar o orçamento coletivo de uma cidade e administrar uma grande quantidade de recursos humanos, muitas vezes deixa o governante isolado, ou bajulado. É preciso que vozes dissonantes tenham espaço. 

A LOA é uma das três peças do orçamento público: o Plano Plurianual – PPA, a Lei de Diretrizes Orçamentárias – LDO e a Lei Orçamentária Anual - LOA (art. 165, da Constituição Federal). O último documento dessa tríade define o gasto corrente do governo, o que ele pretende gastar no ano que se inicia, e como pretende gastar. É um documento entregue à Câmara de Vereadores em agosto do ano anterior ao que ela versa. Ou seja: o governo definiu o que vai gastar em 2024 em agosto de 2023.

O governo cumpriu o prazo, a LOA foi entregue ao legislativo campista em agosto. Com poder de agenda, o presidente da Casa de Leis decide quando colocará em votação, e por motivos óbvios, é salutar que o ano se inicie com todas as discussões orçamentárias feitas e votadas, como prevê a democracia, e define a Constituição.

Houve prazo para discussão. Mas os poderes em Campos decidiram não exercer seus deveres nesse caso. É preciso que fique claro: foi uma escolha. Embora caiba ao presidente da Câmara colocar em votação a LOA, existem caminhos políticos e republicanos para que seja construído internamente os entendimentos necessários. Se não foi feito, houve falha na liderança do governo na Câmara, e da presidência da Casa.

Embora tenha poder de agenda, o presidente do legislativo não pode decidir não votar a LOA. Discuti-la é essencial e uma prerrogativa dos vereadores, mas decidir não votar., simplesmente se omitir, não é.
Folha1
Com o impasse da LOA, a política de Campos mostrou sua melhor e sua pior face. Por um lado, se viu o orçamento público ser colocado em discussão não apenas entre os poderes, mas na cidade. Não se falava em outra coisa nas últimas semanas, muito também por obra do bom trabalho da imprensa profissional local, como a Folha. Mas por outro, se viu um festival de acusações e ofensas, além de muita desinformação.

Enquanto a oposição alardeava os números do orçamento, ou apontava falhas perfeitamente sanáveis pelo próprio legislativo, como algo impeditivo para a votação da lei, o governo ameaça de shutdown (paralisação do governo que ocorre caso o orçamento para o ano fiscal seguinte não seja aprovado), o que não acontece, nesse caso, por previsões do direito brasileiro que se adequou há tempos aos atrasos casuísticos dos poderes.

Solução à vista? - Se tudo correr dentro do acordo feito pelo prefeito Wladimir Garotinho (PP) e o presidente da Câmara, Marquinho Bacellar (SD), no Ministério Público, em Campos, em reunião na última quinta-feira (18), um novo encontro entre os dois vai acontecer nesta segunda-feira (22), às 17h, na Prefeitura, com a participação de todos os vereadores dos seus grupos, que definirão os detalhes da votação da Lei Orçamentária Anual (LOA) de 2024 (Folha1 - Rodrigo Gonçalves).

A política perdeu, e foi preciso o judiciário intervir e intermediar. Caso nesta segunda-feira a LOA enfim seja apalavrada, será uma derrota para a situação e a oposição, que não cumpriram seus papéis e não ocuparam seus espaços democráticos.

O ano que se iniciou há pouco mais de 20 dias terá eleições municipais em outubro. As acomodações são naturalmente deixadas de lado, e os ânimos inevitavelmente acirrados. As peças assumem seus lugares que o jogo democrático exige. Mas, fora desse jogo o que resta é ditadura, e com exceção do gosto que alguns demonstram por ela, é um regime que não interessa a ninguém.
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Sobre o autor

Edmundo Siqueira

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